segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Primeiro o que importa


Eu conversava com a namorada de um amigo, durante um jantar, quando ela me disse que tinha parado de comer queijo. "É mesmo?", perguntei, completando que adorava queijo. Ela respondeu que adorava também, até descobrir que era o queijo que lhe causava tanta dor de cabeça. Não foi só a médica que disse, não. Ela foi lá experimentar: ficou um tempo sem queijo, voltou a comer e as dores voltaram.

Até aí, tudo bem comum: tem muita gente que não pode comer ou beber isso e/ou aquilo. O bacana foi o que veio depois. Ela disse: "achei que fosse sentir falta do queijo porque eu era adorava! Mas, me fazia tão mal que deixei de gostar". Parece óbvio deixar de gostar ou não gostar de algo que nos faz mal, não é? Mas, não é bem assim.

Normalmente, o que se vê é o sofrimento que acompanha algo que se gosta muito e não se quer ficar sem, mesmo trazendo prejuízos. Me pergunto sempre: como é que alguém pode manter algo que lhe faz mal? É o caso do alcóolico, do viciado em drogas, do fumante, do compulsivo, do que ama sem ser devidamente correspondido.

Acredito que atrás de todos esses comportamentos e vícios "difíceis" de serem largados está a tal da baixa auto-estima. É a única explicação para colocar acima da própria saúde e bem-estar qualquer coisa que piore a vida.

Eu comentei com a minha companheira de papo que junto a esse desapego do queijo (tão superficial a olhos nus) alguma mudança na felicidade dela ocorrera. Quem é capaz de abrir mão de algo prejudicial a si faz uma escolha séria pela qualidade. E essa escolha certamente se vê refletida nas demais escolhas da vida dela. Isso é compromisso com a felicidade. Mesmo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Nobre labutar


‎"Não é sensato achar que um dia tudo dará certo". Essa frase de Daisaku Ikeda - humanista, escritor e líder budista que este ano se tornou a pessoa com o maior nº de títulos de honoris causa em toda a história (até o fechamento desta, são 300) - não tem nada de pessimista. Antes, ela nos tira do comodismo que nos faz apenas esperar por dias melhores e nos provoca a "fazer" dar certo, com todas as iniciativas, criatividade, sabedoria, coragem e bom senso que todo sucesso guarda.

Como toda típica ocidental, vítima da colonização judaico-cristã, cresci acreditando que era "normal" esperar que tudo desse certo. Foi preciso um longo caminho, décadas de insatisfação para que eu enfim compreendesse que a vida de verdade é para os que constroem aquilo que desejam, independentemente de qualquer circunstância ou de quantas vezes precisem recomeçar.

A vida, sim, é um espelho mental, uma reprodução daquilo que somos, daquilo que acreditamos, daquilo que sentimos. Eu própria poderia me considerar piegas se ouvisse isso de outra pessoa que não eu. Sou taurina, terrena, empírica, talhada em realizações palpáveis. Nada que seja apenas verbal me convence, me domina ou me comove. É preciso o gesto para que eu me entregue, para que eu acredite e levante a bandeira. Por isso, entendo e aceito quando digo que a vida é um espelho mental: eu vivencio isso a cada instante dos meus dias.

É verdade que a responsabilidade um dia me cansou e eu tirei férias dessa função. Mas, até isso teve seu propósito e fazia parte do processo. Hoje, entretanto, não é possível mais afastar-me das rédeas: não estou mais só e a responsabilidade dobrou e dividiu-se. Nesse nível não há mais cansaço, nem preguiça. É como comer e dormir, com a diferença que não basta o miojo nem o colchão no chão: as conquistas exigem pratos mais elaborados e noitadas mais confortáveis.

Ilude-se quem vive "deixando a vida levar". Na verdade, essa pessoa não vive, empurra, infeliz que só. Quem vive, realiza. Muda, refaz, levanta, chora e se alegra. Vitória não é nada além de vencer uma coisa chamada tendência da vida. E isso, cada um é que sabe qual é a sua. Isso nos torna solitários? Não. Como eu disse outro dia, não há vitória solitária, nem vitória na solidão. Coisas que a gente aprende com o tempo. Coisas que fazem da vida um lugar menos escuro e mais útil.

A vida passa e acaba. Sendo assim, é melhor escolher o destino e aproveitar a viagem do que ficar a mercê do maquinista que nem existe. Não é?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Paul, moço bonito





Do show de 1993, eu lembrava de um Paul simpático, bem humorado e, claro, dono de uma musicalidade impecável. Ontem, talvez porque eu própria estivesse mais emocionada e feliz, eu conheci um Paul doce, romântico, como se naquele estádio com mais 64 mil pessoas, ele estivesse na sala de casa, tocando e cantando entre amigos.

Paul foi pontual, entrou no palco às 9 e meia. Ele foi o espetáculo por 3 horas ininterruptas: não parou um minuto, nem sob a desculpa de trocar de roupa ou beber água. Foram 3 horas leves e alegres que passaram como minutos. Nenhum efeito pirotécnico para desviar a atenção (a única exceção foram os parcos fogos em "Live and Let Die): o show era o Paul e sua fantástica banda (com louros à parte para o baterista Abe Laboriel Jr.).

Aos 68 anos, Paul tem a disposição e encantamento com todo o profissionalismo do mundo. Paul nasceu para a música e para o público. Em alguns momentos, eu tive a nítida impressão de estar vendo o mesmo jovem dos anos 60, com o mesmo sorriso maroto e brincalhão, ora barbudo, ora de cara limpa. Paul tem vida, charme, elegância, juventude.

O show começou com "Venus and Mars / Rock Show", "Jet", e levantou de vez os fãs com "All My Loving". Ver cenas dos Beatles ao fundo foi lindo, lindo, lindo. O tempo não passa para algumas coisas. Para ouvir a música dos Beatles, o tempo se recolhe, com todo respeito.

"Letting Go", "Drive My Car", "Highway", "Let Me Roll It / Foxy Lady (cover de Jimi Hendrix)" e, então, "The Long and Winding Road". Quase chorei. Batia um vento morno, a lua tava cheia, alta, gigante. Era a perfeição disfarçada de noite, sob a cumplicidade de dezenas de milhares de corações emocionados. "Nineteen Hundred and Eighty-Five", "Let 'Em In", e gente gritando baixinho (é possível?): olha a água, cerveja, refrigerante...

Veio a declaração de amor em português "essa música eu escrevi para a minha gatinha Linda, mas hoje ela é para todos os namorados": "My Love" http://www.youtube.com/watch?v=eKuFyHwG188&feature=fvwk . O amor é lindo mesmo.

"I've Just Seen A Face", "And I Love Her", "Blackbird" (lindíssima), "Here Today", "Dance Tonight", "Mrs Vandebilt", "Eleanor Rigby", e outra declaração de amor: "Something", dedicada a George, suave e arteira no começo, maravilhosa e intensa depois. Linda, linda. Lembrei do dia em que, ouvindo o DVD no carro, eu cantei com Paul "I don't know, I don't know!"

"Sing the Changes", "Band on the Run", "Ob-La-Di, Ob-La-Da", "Back in the U.S.S.R.", "I've Got a Feeling", "Paperback Writer". "A Day in the Life/Give Peace a Chance", lembrando John. Foi lindo aquele mundaréu de bexigas brancas subindo ao céu. Tenho certeza de que, por mais acostumado que Paul esteja com tietagem e demonstrações homéricas de afeto, aquela cena o encantou. O céu e a terra estavam lotados de beleza e balões.

Quando Paul foi ao piano eu gritei "Hey Jude", "Hey Jude"!!! Mas Paul quis mesmo foi "Let It Be". Ô coisa linda! http://www.youtube.com/watch?v=j9SgDoypXcI

Com "Live and Let Die", a explosão. A música é forte, eu sei, mas ontem ela foi matadora. Não dava para não arrepiar. Foi aí que os únicos fogos da noite subiram aos céus. Tenho minhas dúvidas de que foram programados. Pra mim, aquilo foi o coração do público em pleno delírio.

Enfim "Hey Jude"! Gritei, era demais ouvir minha música preferida ali, ao vivo, cantada por ele mesmo, o PRÓPRIO: "Take a sad song and make it better... Remember, to let her into your heart, then you can start, to make it better" http://www.youtube.com/watch?v=BDbHBuqJsTs . Foi de chorar de tanto que o coração se alegrou.
.
E, ainda, me comoveu ver o moço da água repousar a caixa pesada na escada pra escutar a música. Prestei atenção nele porque aquilo foi uma das cenas mais bonitas da noite: parecia que ele, enfim, soube "o quê" estava diante dele. Lá pelas tantas, ele tirou o celular do bolso e bateu uma foto. Aquela música, sendo cantada por mais de 60 mil pessoas, tinha que ser boa. E era. O coração daquele moço tão simples também foi tocado por Paul.

Depois, quando Paul se despediu, todo mundo sabia que ele voltaria. Claro que voltaria! Até o moço da água sabia e ficou lá esperando, bem ali do meu lado. Quando Paul voltou naquela camisa branca e suspensórios, o povo honrou o respeito: cantou, mais uma vez, junto com ele "Day Tripper", "Lady Madonna" e "Get Back". Get back, Paul, always!!!

Bem que ele tentou ir embora de novo, mas o povo tava irredutível: não, sir, trate de voltar! "Yesterday" levou os fãs às lágrimas, mesmo! http://www.youtube.com/watch?v=pGQgd2PT4mw . Será que foi a mistura de letra intensa, daquelas que te deixam nu, com a melhor melodia, dancinha de recém-namorado? Pode ser. Foi um dos melhores momentos da noite. O moço da água também parecia concordar.

"Helter Skelter", poderosíssima e "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band/The End" para, enfim, encerrar. Depois de ver Paul carregando nossa bandeira, não dava vontade de deixá-lo ir. Mas, era quase 1h da manhã, ele precisava descansar um pouco para o show de segunda-feira. Não sejamos tão egoístas assim. Paul escorregou no palco enquanto corria, feliz e descontraído da vida. Foi logo levantando e dizendo "tá tudo bem, tudo bem". Depois de tudo que ele nos ofereceu, meu maior desejo era que o show dele não fosse lembrado por aquele escorregão, brasileiro adora falar dessas bobagens. Poxa!

Saindo do estádio, uma chuva de papéis picados dava a impressão de que alguém tinha espalhado purpurina no ar. Era uma nuvem verde e amarela descendo pra dar boa noite, durma bem Paul, seja sempre muito bem vindo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os idos de uma mente em movimento


Eu nunca fui uma pessoa que suspira pelo passado. Vez por outra ouço alguém desejando voltar no tempo, ser criança outra vez, adolescente, ter 20 anos. Acho esquisito, sempre achei. Até outro dia, eu traduzia minha falta de nostalgia como bloqueio psicológico, um artifício racional que me protegia sabe-se lá do quê. Era nada. A minha falta de apego ao passado é bem mais otimista do que eu podia imaginar.

Foi numa manhã dessas, nas raras em que pude acordar absolutamente sem pressa, que me bateu uma profunda gratidão pelo que sinto e tenho na vida: paz, amor, alegria, saúde, oportunidades, esperança. Jamais desisti, mesmo nos maiores cansaços, mesmo quando eu achava que conseguiria desistir. Nunca consegui, sempre continuei. Mesmo quando eu andava quase parando, havia alguma evolução em alguma coisa. Decisão difícil, essa de jamais desistir, acho que a mais difícil ever. Mas, sem ela, a gente para num caminho confuso, sem eira nem beira, sem motivo e sem reação, bem a mercê de uma coisa que o povo adora chamar de destino.

Não que saber disso queira dizer que eu não tenha escolhido mal, mas que também faz parte não escolher direito. Triste é achar que dá pra tirar férias eternas de todo e qualquer propósito e abster-se da responsabilidade do resultado que infalivemente virá. Não escolher é uma escolha, a pior delas.

E quanto mais a gente sabe sobre a própria experiência, mais claro fica o tamanho do gesto (ou da sombra dele) e o quão poderosa é sua influência sobre todos os nossos dias. Por causa disso, simples assim, é que meu foco é sempre no que faço hoje para facilitar meu entendimento sobre o amanhã. Me construí no passado até agora, mas é preciso continuar construindo. Deitar sobre os louros ou as desventuras passados é coisa de preguiçoso. E isso, descobri, eu não sou, não ;)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Cuidar de si e do futuro


"Não existe atalho". Essa frase, lida enquanto eu folheava o livro do Michael Jordan, me fez concordar: não existe mesmo. Ansiosos como somos, queremos mais é pegar o caminho mais curto pra tudo na vida, mas não há milagre. Se cortarmos o caminho para evitar alguma coisa ou para chegar mais rápido, a vida vem e nos devolve ao nosso tempo: aprende, filho, aprende senão você não passa pra outra lição.

É claro que às vezes, em situações muito, muito difíceis, a gente fica exaurido demais e prefere pular uma página como se isso fosse fazer pular a dor também. É bem provável que, por uma breve fase, o sofrimento seja anestesiado e, no auge da nossa miopia, consideremos que fizemos a melhor escolha. Entretanto, enquanto a nossa memória é frágil, a memória da vida é implacável, tanto para o bom quanto para o nem tanto.

Esses atalhos que buscamos normalmente são frutos da razão a que nos impomos, como se racionalizar completamente uma situação fosse nos prevenir de erros. É por isso que em momentos de grandes impasses o melhor é repousar o corpo, silenciar a mente e ouvir o coração. Esse nunca erra, nunca, nunca. Mas, pra ouvir direito é preciso calar outra coisa (a pior delas, na minha opinião): o orgulho, filho do medo e da vergonha. Quando a gente se despe de toda e qualquer desculpa, de todos os argumentos puramente convencionais, sociais e aparentes, a verdade fica limpa, mesmo que doa, que seja complicado admitir, mas fica limpa e mais fácil de lidar.

Tomar decisões na vida é um perrengue, todo mundo sabe. Envolve renúncias, novas posturas, firmeza de propósito, coragem para perseverar. Ao contrário do que pensamos, não é difícil se o valor do que se pretende atingir estiver claro, e agir coerentemente com os objetivos trará a mudança que precisamos. Ao longo de um período X, voltar ao que antes era nossa vida "no automático" ficará difícil, diria impossível. Como já bem dizia Einstein, "uma mente depois que se expande nunca retorna ao seu tamanho original".

Atalhos não há. E conhecendo nosso caminho não precisaremos deles. E economizaremos tempo para aproveitar melhor a vida, as pessoas, o mundo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

De tudo, nada se conclui

"Nem sempre": acho que essa é a frase que mais digo nos últimos anos. "Nem sempre" quer dizer "melhor olhar sob outro ângulo", "melhor ouvir a outra parte", "melhor não julgar pela aparência", "melhor, melhor... melhor entender que, espremendo bem, todos nós somos bem parecidos no final". Assim, portanto, não adianta rotular muita coisa (ou quase nada) e é melhor reparar que, apesar da roupa bonita ou do tipo descolado, tem muita gente sofrendo enquanto reage com soberba.

Acho engraçado como a gente vai tendo cada vez menos certezas para algumas coisas e um pouquinho mais (só um pouquinho mais) de certezas a respeito de outras. Normalmente, essas certezas "mais certas" são só sobre o quanto as motivações de cada um podem divergir, mesmo usando os mesmos meios e alcançando os mesmos fins.

Conheci uma moça homessexual que tinha tanto preconceito consigo mesma que via preconceito em todos os lugares. E isso acontece não só com as "minorias", mas sempre com quem, de alguma forma, se acha diferente e passível de discriminação. Esse bolo, somado a todo o resto de nossas tranqueiras emocionais, acaba gerando conclusões precipitadas, desavenças sem sentido, orgulhos feridos e separações precoces.

Durante minha infância inteira achei que as outras meninas fossem "mais normais" do que eu, donas de famílias perfeitas, aparências melhores, destinos mais garantidos. Demora muito pra gente superar essas angústias infantis, mesmo quando a gente cresce e se fantasia de adulto. Até outro dia eu ainda guardava uma certa reticência pelo que eu poderia ter sido se não fosse isso ou aquilo, se eu não tivesse passado por essas e outras, se os caminhos tivessem sido diferentes. É preciso muito terra percorrida e um olhar muito antenado com o coração pra limpar tanta bobagem do peito e largar muita bagagem inútil na lixeira.

A vantagem desse processo é começar a enxergar o outro muito pelo que ele é de fato e menos pelo que ele tenta mostrar (nós somos muuuiiiitos bons em máscaras, não é?). O que me falta, entretanto, para me sentir mais em paz comigo mesma é muito mais do que a compreenção das diferenças e limites de cada um: é aceitar, acima de tudo, que todos nós, absolutamente todos nós, temos a capacidade de mudar, superar e vencer independente de qualquer situação. Visto assim, parece óbvio, um clichê varrido em tudo quanto é filme americano. Mas, é muito mais difícil do que se pinta: envolve completa entrega e confiança no ser que tem desdenhado muito da condição de humano para se transformar nas notícias e fatos que a gente lamenta todos os dias.

Assim como lá no comecinho escrevi, espremendo bem todo mundo se parece um pouco: para o bem e para o mal. O que nos diferencia, quem sabe, são os freios morais e a quantidade de sentimento bom que fomos capazes de armazenar na vida. Mas, nem sempre, "nem sempre", tudo é tão simples assim de explicar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amor e verdade


Ontem eu ouvi histórias sobre os comentários dos meus sobrinhos, aquelas perguntas embaraçosas que só as crianças sabem fazer no meio do nada. Por essas e outras, a gente sempre acha que as crianças são inteligentes demais porque "pegam as coisas no ar". Por "pegar as coisas no ar" entende-se prestar atenção aos sinais e frases truncados que nós, adultos, "deixamos escapar" de vez em quando.

Acredito que um dos maiores dilemas da vida adulta é saber quando e como falar e quando calar. A dúvida nasce do medo da reação do outro, da ruptura que pode acontecer e da contrapartida que poderá vir. Afinal, o que os adultos mais desejam nessa vida é ter controle de tudo. Por conta disso pensamos que perdemos a capacidade de "pegar as coisas no ar". Não perdemos, não, nunca, apenas fingimos e preferimos adiar o que pode ser uma discussão para um ponto tão distante que pode tornar-se irreparável. A dúvida sobre nossa capacidade de falar direito, de maneira a não ofender ou magoar, e nossa falta de sabedoria para nos colocar como parte do problema e, portanto, também parte da solução, dá o freio em qualquer pergunta ou comentário mais delicado.

Eu já enfiei muitas vezes os pés pelas mãos na tentativa de viver com mais verdade e transparência. Já afastei pessoas e me afastei delas também por me considerar incapaz de me fazer de cega ou desavisada. O preço sempre foi alto, mas valeu a pena cada centavo pago: eu consigo dizer hoje que as relações importantes da minha vida são mais sólidas e inteiras por causa disso. Tudo que foi incerto, errado ou duvidoso não durou o tempo suficiente para marcar meu futuro irreversivelmente.

Todas as mensagens importantes estão prontas para serem "pegas no ar". Os sinais existem nos olhares, nos gestos e no comportamento de todos nós. A escolha entre aceitá-las e resolvê-las ou disfarçá-las faz parte do tipo de vida que pretendemos ter. Aquela ruptura que tememos promover com uma pergunta direta pode ser, na verdade, o primeiro passo para o fortalecimento de uma relação. Depende unicamente da intenção de quem pergunta e da disposição de quem responderá.

Da minha parte, sinceramente, apesar de toda dor que a verdade às vezes traz (enquanto ainda não nos acostumamos a ela), foi (e é) tudo muito justo e muito rico: nada, nada mesmo é mais valioso do que saber que somos amados pelo que somos e não pelo que aparentamos ser. E amar o outro exatamente pelo que ele é, e pelo compromisso que se tem consigo mesmo e um com o outro, compensa qualquer descompasso, fortalece qualquer coração, traz coragem a qualquer desafio. O amor, afinal de contas, só existe se houver verdade nele. Caso contrário, é como uma droga: vicia, mas é por doença. Como já dizia Vladimir Maiakovski, "amar não é aceitar tudo. Aliás, onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor." É preciso coragem para construir ao invés de apenas erguer.

Pra terminar esse assunto que não tem fim, a frase de um autor desconhecido "depois de tudo somos um só; juntos sofremos, juntos existimos, e para sempre recriaremos um ao outro".

Beijos a todos e bom retorno ao blog (eu andava com saudade desde as férias ;)).

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Universais


Vez por outra, quando preciso de uma citação, vasculho alguma coisa no Pensador.Info, um site (até onde eu sei) confiável nesse mundinho virtual. Foi assim que encontrei esse texto da Marta Medeiros, lindo de doer, que me fez dar aquele sorriso de "hum rum" e balançar a cabeça "é assim, sim". Tem coisa que é universal mesmo, todo ser humano sente igual. O coração, afinal, é bem inteligente, né?

A Voz Do Silêncio


Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O inverno virando primavera


Eu voltava do almoço ontem quando passei em frente ao novo posto de gasolina da rua. Há mais ou menos 1 ano o local estava abandonado e tinha sido invadido por moradores de rua, fumantes ilícitos e usuários de outras tranqueiras ilegais. Lembro que tinha receio de passar por lá quando a noite vinha caindo, tinha sempre muita bebida e ouvia muita bobagem a medida que chegava perto. Eu me perguntei várias vezes quando é que alguém compraria aquele terreno e o transformaria em um café, ou supermercado, floricultura, sei lá. O importante é que o local tivesse função, deixasse de ser tão perigoso e abandonado.

E eis que ontem, depois da inauguração do posto, a paisagem era diferente: tudo muito claro, cores alegres, ambiente amigável, movimento de quem trabalha, energia boa essa de vida acontecendo saudavelmente.

Aí, claro, me bateu um sentimento daqueles pararelos, sabe?, de quem tem mania de pensar na vida até quando olha pra lanterna do carro. Pois bem, fiquei eu elucubrando sobre quantas vezes a gente passa por situações sombrias, achando que nada nunca vai mudar ou que está demorando demais para. E a gente tem medo, desconfia, duvida, chora. Mas, a verdade é que no contínuo caminhar, sempre atento e cuidadoso, bem intencionado, jamais desprezando o levantar e o coração da verdade, a gente acaba construindo um posto novo, desses clarinhos, que dão sentido à passagem.

Muitas vezes compreendemos mal e julgamos assim também. Somos mal compreendidos na mesma medida e somos igualmente ferozes no julgar. Tudo isso pesa, de uma forma ou outra, e influencia o dia. Mas eu acredito, mesmo mesmo, que se a intenção é honesta e boa, uma hora ou outra tudo se clareia, aos poucos, porque é assim que vira sólido. Nada repentino tem bases confiáveis. Segurança mesmo, confiança, conquista-se no convívio, na demora de um dia difícil ou na alegria daquelas bobagens que se diz quando o dia está leve.

O fato é que nenhuma dor e nenhum medo são eternos. Sobrevive quem se rende a eles. Vive quem desafia.

"O inverno nunca falha em se tornar primavera" (Nitiren Daishonin)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Por onde andas


Faz tempo que eu ando com vontade de escrever sobre as conclusões a que chegamos, na maioria das vezes baseadas apenas nas referências que guardamos sobre o apego de nossas curtas experiências.

Concluímos amor e desamor, cuidado e desatenção, honestidade e más intenções, gestos e silêncio. Concluímos o tempo inteiro apenas com nosso coração interessado ou com a falta de coração típica dos momentos de ódio. Vamos de uma ponta a outra da simpatia ou da aversão no mesmo pensar, basta navegar ora pela amizade, ora pelo ressentimento sem o menor controle sobre qualquer tendência. Nosso coração parece ter duas facetas: uma cheia de humanismo, morrendo de vontade de acreditar, e outra dura, manchada de desgosto e crítica severa.

Já me deixei vencer pela angústia desse veneno inúmeras vezes e, não só o outro perdeu, mas, sobretudo, eu perdi: perdi alegria, perdi viço, perdi desejo, perdi amor. Presto muita atenção hoje, cuido muito pra entender se o que sinto é verdade ou fruto de uma predisposição à vitimização, aquela mania chata de considerar o mundo cruel e as pessoas idem.

"Faz bem pensar mais uma vez, embora concorde. Faz bem pensar mais uma vez, embora discorde". Essa frase é um provérbio chinês, se não me engano, e cabe a cada instante, cada vez que um pensamento quiser arranhar a paz que precisamos tanto manter.

A vida é uma eterna tentativa de equilíbrio, de felicidade, a gente sabe disso. Se a gente se deixar levar pelo que há de pior em tudo, há motivo algum para viver? Acordar, sentir frio ou calor, alimentar-se, namorar, seja o que mais? Não, né? Jamais seremos felizes 100% do tempo. Problemas surgirão sempre, enquanto vivermos, essa é a mola que nos mantém ativos, ocupados com a realidade, atentos ao mundo. Mas esses mesmos problemas terão sentido se forem assumidos com a vontade de vencê-los, e a vida terá mais valor se olharmos com menos acidez e purgatório para todas as coisas.

Poliana e Amélie Poulain não foram felizes porque fingiram ver tudo colorido ou com falso otimismo. Foram felizes porque enxergavam a vida bonita, bonita como ela é mesmo, mesmo sabendo que esses são "tempos difíceis para os sonhadores". E Amélie entendeu, no final das contas e no final do filme, que sonhar só é bom dormindo. A gente constrói, de verdade, é acordado, exercitando olhar a vida com mais frescor e mais confiança. Paulo Freire disse que "é fundamental diminuirmos a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática". Exercício puro. Tô nessa ;)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As linhas da vida


Viver uma vida sem arrependimentos não é humano. É da natureza de quem respira, sente e tem memória olhar para trás e perceber que tem, sim, alguma coisa, várias coisas, pequenas e gigantescas coisas que poderia, ou que não deveria, ter feito.

Por mais que se saiba racionalmente que nada acontece por acaso (ou à toa), é impreciso dizer em qual resultado essa lembrança pode desaguar. Acredito numa linha tênue que separa a amargura do arrependimento da boa lição aprendida.

O ressentido lembrar aperta o coração, traz melancolia, resignação, um gosto de derrota. O arrependimento que vira experiência do bem é trampolim para o esforço em não repetir ou, pelo avesso, dedicar-se em observar o momento certo para, sim, fazer o que deveria ter feito ou dito. Na balança das duas coisas, uma palavrinha faceira que adora um bom teste: sabedoria.

Tenho reparado que não apenas eu me queixo da falta de tempo (há anos entendi o quanto essa moeda tem sido demasiadamente cara). De tanto pensar a respeito (não, não me convence a teoria de que os planetas estão em leve desajuste e etc), hoje, enfim, cheguei perto de uma razoável explicação: passei (e passamos, pois num grau qualquer somos todos parecidos) grande parte da vida não fazendo o que deveria, na hora devida, e a vida, um dia, assim do jeito dela,
resolve dar prazos cada vez menores para que todas as coisas e lições necessárias sejam realizadas e aprendidas.

Me parece que entra, aí, a importância de ultrapassar a linha que mencionei lá em cima: para dar conta do recado da vida, é preciso sair do arrependimento ressentido e partir para a boa lição, guardando a lembrança do feito ou não feito apenas como um fato impossível de se transformar em outra coisa senão aprendizado.

Voltar no tempo ainda não é possível, só fazemos isso no coração, quando voltamos por amor, saudade ou tristeza. Fora isso, viajar ao passado para "consertar" histórias nunca funcionou. O possível, entretanto, é começar agorinha mesmo a perceber o que não foi bom e consertar daqui pra frente.

O passado passou. O presente também está passando a cada segundo. Vamos deixar pra quando os dias melhores? Que memórias queremos ter no futuro? Novos arrependimentos ou sorrisos de quem alivia o coração pelo que venceu, construiu, aprendeu, amou? Essa escolha, assim como todas as outras, não são de quem convive conosco, ou do chefe, do prefeito ou presidente. São nossas.

Tenho feito grandes escolhas ultimamente (e pequenas também). Todas com seu devido preço, devido valor e devido benefício. Na balança de todos os pesos, o benefício precisa compensar pra vida valer a pena. E, sim, tem valido. E, sim, é preciso continuar, cansando às vezes, mas sem nunca desistir, para chegar.


http://www.youtube.com/watch?v=iczaDcixBj4

Grande beijo :)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Com que ouro eu vou


Eu percebo quando faz tempo que não blogo por dois motivos: 1º pela síndrome de abstinência, 2º porque os amigos começam a cobrar "tirou férias do blog?". Mas, há épocas assim mesmo: falta tempo, falta tempo demais. Assunto, não, tem sempre sobrando, tantos que esqueço quase tudo :0

Hoje mesmo precisei ir a um município vizinho e a viagem foi riquíssima. Preferi ir de fretado e foram quase 3 horas, entre ida e volta, de leitura tranquila sob a direção de um motorista igualmente sossegado e sem pressa. Ainda estávamos na Av. Paulista quando dei uma olhada nos ônibus ao redor: lotadíssimos, nervosos, motoristas acelerando mesmo parados como se quisessem passar por cima daquele mar de carros. Nós, no fretado, estávamos enfrentando o mesmo trânsito, mas com ânimos completamente diferentes.

E aí, eu fiquei pensando: a gente passa a vida querendo ser fretado, mas acaba mesmo é sendo ônibus comum. E sabe por que? Porque a gente deixa tudo o que está fora interferir no nosso humor e "carrega" coisa demais por dentro. Com tudo muito tumultuado, o trajeto fica sofrido, a gente só quer saber que aquilo acabe logo, pra começar o dia seguinte igual.

Já faz um tempo que eu ando no exercício de me blindar do que tem de ruim fora de mim e me abrir para o que há de bom e não o inverso. Confesso que vinha tendo algum sucesso, até que, claro, um acontecimento recente me disse que eu ainda tenho muito o que aprender nessa vida e que controle a gente não tem de tudo.

Entretanto, outra lição eu aprendi, muito melhor ainda: não importa quão grave ou triste ou desesperadora seja uma situação, se não estivermos sozinhos estaremos bem, estaremos fortes, teremos certeza de que o mal será superado e ainda manteremos a alegria no percurso, até tudo melhorar.

Quem acompanha meus textos já sabe o quanto proclamei o amor real como a maior fonte de felicidade e eu repito: amando e sendo amados, somos fortes e corajosos. Esse é o poder que o amor nos dá: confiança. Não, eu não sou uma romântica desavisada, não. Sou bem escaldada até. Mas, nunca desisti de acreditar que a união que a gente cria de verdade, por amor, é a única razão de se viver essa vida. Nenhum dinheiro ou sucesso é capaz de nos tornar tão felizes quanto a certeza de que estamos nessa e somos queridos, amados, importantes demais para nos deixarmos desistir.
E é por isso que vale o exercício para deixar de ser comum para ser fretado: a gente precisa aproveitar a viagem, precisa. Precisa enfrentar o trânsito com tranquilidade na alma. O trânsito não vai sumir, mas a ida será bem mais agradável. E quem irá conosco será melhor, porque "seremos ouro atraindo ouro".

Grande beijo, até breve. Espero ;)

domingo, 18 de julho de 2010

Farofa boa de amor


Já faz algumas semanas que ando com uma certa inspiração para cozinhar. Nada de mais, não, sou bem feijão com arroz e salada, nunca tive o dom para essa arte. De vez em quando sai uma massinha boa ou um risoto marromeno, mas meu forte mesmo é degustar.

Hoje, respondendo à inspiração, preparei o almoço de domingo. Acho que é coisa de amor essa história de ir para a cozinha de vez em quando e preparar com cuidado e dedicação uma coisinha bem gostosa para quem vive conosco. Mas, um detalhe é mega-importante: além do sabor bom, a comida precisa ser saudável.

Entre outras cositas, preparei uma farofa ma-ra-vi-lho-sa. Pode copiar, recriar, aproveitar a vontade. Não tem medida, não, pode misturar a gosto que vai ficar gostoso.

Dá uma olhadinha:

1. refoguei a cebola em pouco óleo;
2. acrescentei farinha de mandioca torrada, fibra de farelo de trigo integral torrada e farinha de linhaça;
3. acresentei tudo picadinho: 2 ovos cozidos, 2 bananas, uma barra de tofu e sal;
4. um pouco de margarina e azeite para terminar.

Dá um pouquinho de trabalho pra picar bem os ingredientes, mas vale muito a pena. Ficou bão bão bão. Quem sabe, final de semana que vem não rola outra inspiração, né?

Beijos, boa semana ;)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Canções de Narciso


Desde que o ser humano existe há vaidade no mundo. Pinturas nas cavernas trazem essa história, maquiagem indígena é coisa famosa, Cleópatra virou mito pela beleza. Hoje, a vaidade, mais do que nunca, virou indústria capaz de fabricar comportamentos e conceitos duvidosos, na maioria das vezes.

Entretanto, essa vaidade só é poderosa assim graças a uma outra: a vaidade da alma, ainda mais perigosa. Essa vaidade, mãe do orgulho e da "superioridade", no mínimo, provoca separações. Mas é ela também que mantém pessoas aparentemente juntas: uma conhecida outro dia me disse que continuava com o namorado porque não queria dar o braço a torcer para as "outras" que o assediavam. "Você gosta dele?", perguntei. "Não sei, acho que não mais, ele me traiu muito", foi a resposta. Sinceramente, nem sei o que dizer numa hora dessas.

E vamos ser justos, não é só mulher que se deixa arrebatar pela danada da vaidade: os homens, na ânsia de "demarcar território" (sim, a maioria ainda acha que precisa), faz muita bobagem para demonstrar poder (profissional, pessoal, afetivo). Quantas vezes esse homem vaidoso precisa de uma mulher bonita a tiracolo só para aparentar algum status? E nem estamos falando das garotas "profissionais"... e, sim, dos relacionamentos de mentira que servem para disfarçar o vazio, a carência ou o medo da solidão. O assunto é vasto e seria preciso filosofar um bocado com os grandes nomes dessa nossa ciência para chegar, provavemente, a lugar nenhum.

Eu nem consigo pensar em respostas para o tanto de pergunta que a gente faz. Ainda bem, né? Se fosse o contrário, estaria estabelecida uma tirania pessoal que, sério, eu não tenho a menor disposição para exercer. Mas, fica a dica: pensar na motivação antes de agir sempre melhora o movimento, e, claro, o resultado ;)

Beijinhos




segunda-feira, 5 de julho de 2010

O caso Bruno


Casos como o dessa moça Eliza e do jogador Bruno, do Flamengo, mais do que me espantar, me entristecem profundamente.

Voltando um pouco na história do rapaz, pelo que ouvi e li, o jogador foi abandonado pelo mãe com poucos meses de vida e o pai faleceu logo, depois de cumprir pena por homicídio e afins. Criado pela avó, Bruno tentou reaproximar-se da mãe sem sucesso. Alcóolotra, essa senhora hoje está internada para desintoxicação e a avó, que criou o rapaz, anda sedada ultimamente, dado o choque pela suspeita de homicídio contra o neto.

Independente se Bruno matou ou não Eliza, o filho do casal já nasce com o carma bem parecido ao do pai. Assustador. Se foi Bruno o autor do crime, essa criança viverá sob o signo inominável do verdadeiro terror. Que valores essa criança carregará? Que emoções lhe foram amputadas? Terá ele alguma escolha de viver sem essa sombra? Sua vida foi, prematuramente, dirigida ao lixo?

Ainda ontem comentava que acredito muito que características físicas similares denotam personalidade e caráter similares também. O assunto é sério, científico e estudado há milênios. Reparem nos olhos do jogador Bruno, por exemplo: pequenos, cercados por sobrancelhas espessas, expressão grave, profunda. Pelo muito pouco que sei (e acredito que sei apenas pela observação, nunca estudei o assunto), esses traços carregam passionalidade, impulsividade, agressividade e incapacidade de lidar com rejeição. Aliás, essa turma normalmente tem problemas de rejeição materna (ou pensa que tem).

A parte meu achismo empírico, esse moço carrega muita história errada (mal usando o termo): desorientado e perdido na vida, viveu orgias e teve outros dois filhos com uma senhorita que se diz "mulher" dele "apesar de tudo". Se foi ele que matou Eliza (que insistem em noticiar seu lado nada santo) eu não sei, nem a polícia ainda sabe. Por ora, a novela já está bem nelson-rodriguiana, imaginem se piorar.

sábado, 3 de julho de 2010

2014 tem mais


Eu entendo lhufas de futebol e acho até meio bobo aquele bando de homem correndo atrás de uma bola enquanto bilhões de pessoas se roem atrás do melhor resultado para "seu" time.

A comoção, especialmente do brasileiro, que deixa de trabalhar para pintar-se de patriota, me incomoda, sério. Já viu brasileiro usar verde e amarelo em outra ocasião? Já viu brasileiro se monopolizar tanto, TANTO, para reivindicar algum direito, lutar contra a corrupção, eleger (ou não) algum político, falar da saúde pública, transporte, educação? Nananinanão. Brasileiro gosta é de diversão, qualquer outra coisa é chata demais para merecer sua atenção.

Outro dia, precisei me descolar entre o primeiro e segundo tempo e fiquei impressionada: São Paulo nunca esteve tão quieta e vazia, nem em feriado. O único ruído que se ouvia era da torcida e dava até pra saber a quantas andava o jogo. Um circo, sorry, um circo mesmo. E a televisão, então? Nunca vi tanto tempo dispensado a um assunto, nem o impeachment do Collor monopolizou tanto os noticiários.

Eu lamento. Não sou contra a diversão, nem tampouco contra o futebol. Apenas acho triste o povo se contentar com a esperança de hexa para vibrar pelo Brasil. Enquanto o país inteiro para pra torcer ou discutir passes, penautis e afins, jogadores sem sequer ensino médio ganham fortunas pelo mundo afora. E mães e pais de família rastejam pela vida ganhando R$ 510,00 por mês.

Tem alguma coisa muito errada. Muito.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Desapegar ou valorizar?


Li em algum lugar que é preciso treinar o desapego. Assunto complicado e difícil, principalmente para quem precisou se acostumar demais às perdas. Pois é, o grande problema com o tal do desapego é que ele, frequentemente, é associado a essa palavrinha dolorosa: perda. Talvez a diferença esteja na semântica e não no conteúdo da palavra. Bora ver.

Vamos imaginar que você tenha trabalhado muito arduamente para comprar um carro e que precise dele para trabalhar e dar mais conforto à família. Tá, é um bem material e deveríamos estar acima dessas coisas. Bobagem. Grandessíssima bobagem. Vivemos num mundo em que rejeitar a matéria como bem faz tão mal quanto ser escravo dela. Continuemos: você foi lá e comprou o carro. E aí, só porque ouviu dizer que ter apego a esse bichinho que quis tanto é sinal de mediocridade, você não sofre quanto lhe roubam, é isso?

Numa outra situação, você, depois de muito tempo batendo a cabeça, encontrou um grande amor, daqueles que valem a pena o investimento. Para não parecer desesperado, você usa o manto blasé do descolado e superior, mesmo correndo o risco de parecer tão desinteressado que afugente seu par querido.

E, então? O discurso bacana do desapego serviu para mantê-lo feliz? Claro que não, claro que nunca, e sabe por que? Porque desapegar não tem nada a ver com desvalorizar, nem com não apropriar-se do que lhe pertence, do que é seu por direito e conquista.

Penso eu, e aqui vai uma prática que me tem sido árida porém construtiva, que o único desapego que devemos treinar é o desapego do controle. Parar de tentar controlar a todo custo todos os fatos, pessoas e sentimentos pode ser, sim, a cura para todos os males.

De resto, sou adepta convicta de que valorizar e lutar pelo que construímos é saudável, honesto, justo e humano. Afinal, a nossa história possui registros físicos devidamente caracterizados pelos nossos bens e amplamente testemunhados por nossas relações. Havemos, apenas, que, mais uma vez, praticar o discernimento e o olhar claro.

A verdade a nosso próprio respeito e o conhecimento que mantemos vivo sobre ela é o que nos trará a alegria e a tranquilidade para qualquer outro exercício: seja do desapego, seja da luta para manter o que desejamos, seja para desacreditar em qualquer frase feita que nos seja imposta.

Afinal, pensar para existir, como sugeriu Descartes, é o único caminho para conhecer a si mesmo, como já dizia Sócrates.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Vem pra luz, Caroline


Eu cresci ouvindo que sinceridade demais é defeito. Acho que por tempo demais comprei essa inverdade, como se eu tivesse que esconder minhas opiniões e observações quase feito um pecado. Há bem pouco tempo eu consegui amadurecer essa história que me incomodou tanto e tem sido possível resolver um bocado de insatisfações por causa disso.

Essa semana, conversando com amigos de turmas diferentes, o assunto foi bem parecido: falar ou não falar, se afastar simplesmente, disfarçar (que é igual a fingir, pra mim) ou simplesmente deixar pra lá pra não ficar com fama de "mau" ou sozinho.

Eu disse, e repito, que a gente vive numa sociedade muito hipócrita, a gente nem sabe em quem confiar porque o mundo tem as mesmas caras e bocas e usa as mesmas desculpas e artifícios. Desde pais e filhos, passando pela relação de trabalho, pela afetiva até as pseudo-amizades, a maioria de nós prefere a comodidade dos esconderijos ao esforço das relações verdadeiras. Aí que tá: esforço em termos, né?, porque é tãããão mais gostoso o convívio com a verdade, seja ela qual for, sabe por que? Porque a gente tem segurança, sabe por onde anda, não fica no escuro tentando adivinhar as coisas.

Por isso, eu não entendo como é que a gente consegue, por tanto tempo, pela vida toda às vezes, mentir tanto. É desgastante, sufocante, doentio. E a gente nem percebe muitas vezes o que está fazendo com a própria vida, tamanho vício em que se meteu. Já viu alcóolotra dizer "sou alcóolotra"? Ele só diz isso quando entende que precisa mudar!

O fato é que, por mais duro que possa ser, eu escolhi ser franca sempre. Deixei de considerar isso um defeito para saber que é uma necessidade. Não se trata de julgar a verdade uma virtude, ela é simplesmente isso mesmo: necessidade.

Por mais que eu ainda enfie os pés pelas mãos, ainda não saiba dizer uma coisa direito, possa parecer ingênua ou meio "sincera demais" (no sentido perjorativo), eu tento, tento todos os dias extrair alguma sabedoria da vida e do que vivo para aprender a falar direito e me expressar claramente. Fora falar, precisa também agir igual, da maneira mais coerente. Eu acredito que vale a pena: sei o que vejo no espelho e quem convive comigo tem a confiança de saber quem eu sou e o que penso. Principalmente porque deixo muito claro que não tenho a menor pretensão de ser perfeita e que, portanto, erro. E muito.

Beijos, bom final de semana :-)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Osmose social


Há pessoas que extraem de nós o nosso melhor. Perto delas, conhecemos a tranquilidade, a ternura, a confiança. Sorrimos com leveza, somos interessados de verdade, o corpo inteiro fala como quem diz "estou inteiro aqui, concentrado nesse momento bom".

Outras pessoas, entretanto, carregam consigo um ferimento tão letal que é capaz de estimular nossa pior parte. E, aí, somos o oposto do "amigo", somos feras com quase o mesmo veneno do agressor.

Tem ainda a turma que não nos inspira a nada: perto dela sobrevive a apatia do "frio hoje, né?" e do "trânsito terrível". Viver ao lado de gente assim é como almoçar mingau de maizena todos os dias. Como esse grupo é morno demais, não faz "fá nem fu" como diria uma amiga, vamos deixá-lo pra lá.

Um dos enormes desafios da minha vida tem sido não me deixar provocar por esses "estímulos" alheios: estar perto de gente boa é fácil, mas conviver com alguém que difere completamente da nossa maneira de ver a vida é proporcionalmente o inverso.

O Budismo ensina a "influenciar o ambiente", ao invés de deixar-se influenciar-se por ele. Confesso que concordo plenamente com esse princípio e sei o quão possível ele é, mas, ainda assim, digo que é preciso muito treino, muita dedicação e atenção para não sucumbir vez por outra. Entendemos que devemos ser mais fortes, mas basta alguém nos desrespeitar ou negar um pequeno desejo nosso que nos embrutecemos. O que fazer?

Nada de grandioso a ser feito, não. O único remédio efetivo para manter o seu ânimo verdadeiro é respirar fundo, lembrar dos próprios objetivos e ter em mente que manter a sua própria sanidade emocional em bom funcionamente é o que importa. Se o seu coração chorar, ok, aliviar é necessário. Mas, não o deixe sangrar até a morte. Ninguém, nem nenhuma situação ruim, merece seu falecimento de esperança. Lembrar que sua felicidade absolutamente deve independer das circunstâncias é o primeiro passo para cultivar uma leveza esquecida nos dias de hoje.

Pois, como diria Carlos Drummond de Andrade, "a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade".

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Além do seu quadrado


Há tempos venho me perguntando o que é o entendimento humano. A gente pensa, pensa, pensa, mas entende alguma coisa? Talvez a gente chegue num vago raciocínio quando junta 2 e 2 e, aí, acredita que compreendeu, que sabe, tem certeza de tudo.

Quanto mais o tempo passa (e ele é bem hábil em passar rápido), eu percebo que podemos, sim, enxergar um pouco da vida, mas sempre a respeito de nós mesmos. Assumir definições esteriotipadas é tarefa capciosa demais para quem pretende carregar consigo alguma verdade sobre todas as coisas.

A gente escuta uma história, mas os ouvidos estão ouvindo só a parte que precisa para satisfazer uma necessidade qualquer. Nossos olhos estão ali, vidrados numa pessoa, vendo todos os gestos e linguagem corporal dela, mas o que captamos é exatamente aquilo que precisamos para usar como desculpa ou argumento depois. É exatamente sobre esse ponto que fico bem confusa: seria isso egoísmo? Ou seria deficiência? Apenas falta de uma visão mais abrangente? Ou incapacidade de enxergar fora do seu quadrado?

A mente humana sempre me intrigou. O coração, que é de fato nossa melhor parte, está sempre manchado com nossos medos, intrigas, interpretações erradas ou simplesmente vazio. Ambientes familiares são sempre o maior centro de todas as raízes e nele aprendemos quase tudo. Por isso, nenhuma escola ou ambiente de trabalho pode ser responsável pela mudança de um indivíduo. É dentro de si e dentro de casa, daí para fora, daí para as pessoas, daí para tentar contaminar para o bem qualquer outra relação.

Quem sabe assim, limpando um pouco do olhar de perto, a gente não consegue expandir a compreensão e, ao invés de limitar-se a "entender" somente o que convém, a gente não parte pra entender mais além?

Sair do quadrado, sair do pocinho, sair do limite. Todo ser humano pode. É o que nos diferencia daqueles bichinhos que a gente costuma usar para experiência ou para nos servir de afeto.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Turning on


Por conta de um projeto retomado, hoje perguntei no Twitter o que seduzia meus seguidores. As primeiras respostas foram masculinas: cabelo comprido e bem tratado + lingerie. Na sequência, a ala feminina se manifestou: a campeã no quesito sedução é a inteligência masculina. Uma das seguidoras rebateu quase numa crítica: os homens são mais visuais, não todos, ela ressaltou, mas a esmagadora maioria. É, pode ser, mas há algumas boas, raras e deliciosas surpresas nesse caminho.

Acho meio óbvio um homem deixar-se seduzir por uma lingerie ou teatrinho feminino, como desfilar longas madeixas (mesmo que sejam aplique), mexer o cabelo pra lá e pra cá, cruzar as pernas ensaiadamente, e todo o resto que todo mundo sabe. Meio óbvio também é a sedução (ou tentativa de) via artifícios que deixam desconfortável grande parte das mulheres (poucas são as que gostam de verdade).

Por conta desse conversé todo, eu me lembrei das melhores seduções ever: a sedução da leveza, da alegria, da confiança e do prazer em estar junto e pronto. Acredito que essa seja a mais difícil sedução a se atingir, há que se ter muita transparência e um amor livre de um tanto de máscaras para relaxar nesse nível.

Não nego a importância de um mimo vez por outra, mas, vamos combinar, compartilhar alegria e espalhar-se em cumplicidade é a melhor de todas as "100 maneiras de seduzir seu homem ou sua mulher". Não é?

Fica a dica, principalmente para a mulherada que frequenta cursos de malabarismos sexuais e consome produtinhos demais para agradar sua cara-metade: espontaneidade pode ser o melhor afrodisíaco.

Beijos ;)

domingo, 30 de maio de 2010

Dores do ócio


Sempre ouvi que a maior virtude da vida é a paciência. Pode até ser, desde que não confundida com a complacência, mãe de toda a preguiça e de todo adiamento que fazemos. Talvez por conta dessa confusão, a cada dia que passa me convenço mais de que nada deve ser adiado, absolutamente nada. Nem uma conversa, nem um abraço, nem um trabalho, telefonema, pedido, esforço, passeio, choro ou sorriso.

Cheguei num ponto da minha vida que adiar significa correr o risco de ver, lá na frente, uma situação fora de controle, grave, descuidada, talvez irreversível. Como adiei muita coisa no passado, sei bem do que estou falando.

Fiquei pensando ontem na quantidade de filhos desajustados cujos pais são boas pessoas e ninguém sabe como tudo começou. Certamente, desde muito pequena, a criança esteve lá mostrando sua personalidade esquisita, ou foi apenas alargando seus limites, enquanto pai e mãe estavam com preguiça demais para corrigir, achando talvez que a escola fosse dar jeito, ou a própria vida. Adia-se um dever e o que sobra no futuro é um 'por que?' vazio e cheio de lamentação.

Isso serve pra qualquer coisa na vida: pro carro que engasga e a gente espera ele pifar de vez pra levar ao conserto, praquela dorzinha ali na região dos rins e quando se vê virou uma pedra enorme com dores cirúrgicas, pro relacionamento que com certeza poderia ser muito feliz e rico se não fosse o medo de conversar (quem é que sabe falar direito, né? Com esse medo, e mais o medo de perder, a gente se cala e, quando vê, tudo foi para as cucuias).

Em todas as situações cabe a paciência. Em todas elas, deve haver paciência. Mas, nunca, nunca, a complacência. Porque quando a coisa estoura e o conflito está instaurado é muito difícil ter o bom senso que a situação exige. No auge da crise advinda de um adiamento preguiçoso, o que resta é, normalmente, a ruptura definitiva, o desgaste absurdo, o cansaço, o desamor ressentido.

As relações podem ser eternas e felizes, eu acredito nisso. Por isso, meu treino diário tem sido olhar, perceber o que é importante, falar, ouvir, ponderar e agir. Nada do que é vital deve ser colocado em risco por causa da inaptidão em lidar com a dificuldade. Se eu não souber o que fazer, nem como fazer, nem sequer o que acontece direito, ainda assim eu digo: 'não sei, me ajuda a entender, me ajuda a solucionar'. Ter verdade na vida tem me ajudado a romper uma montanha de vícios, inclusive o da preguiça, que eu julguei até outro dia ser paciência. Era nada, era pura complacência.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Amor é pão


"Ela queria ser amada. Só pra ter ânimo de fazer todas as outras coisas: comer, cantar, sorrir, trabalhar, visitar a mãe, comprar sapatos, tomar café com leite, fazer supermercado (...)". Esse trechinho é de um blog chamado "Caras como eu", de Gabito Nunes. Eu achei fofo, bem a minha cara, por isso copiei. Engraçado como tem coisa que a gente lê e jura que foi a gente que escreveu, de tão igualzinho que é ao coração da gente.

Mas, essa graça do amor, esse ânimo que o amor devolve, o viço da cor da cerejeira só acontece no amor dividido. Amor platônico ou solitário, ou aquele amor de manhã vazia, gera uma dor que não vale a pena. Não vale mesmo. Que me perdoem os mais poetas, que acreditam que qualquer amor interessa: romântica convicta demais para ser taxada de insensível, estou mais do que habilitada para dizer que não, tem amor que não vale a pena. Para esses casos, a melhor dica é: sentiu sinal de fumaça encardida? Run, Forest, run!!!

Só tem um porém nessa história: também não dá pra escolher amor como quem vai à feira, olhando a carinha do tomate que vai durar mais tempo na geladeira. Amor, amor dos bons mesmo, precisa acontecer. Não dá pra fabricar a química, nem fingir um gesto de carinho ou beijar na boca por tabela. A pele só arrepia se for roçada pelo desejo, no sorriso feliz pelo encontro, pelo calor no peito. Amor, só se for de verdade! Inspirador, daqueles que dão ânimo para ir ao supermercado.

Sendo assim, o coração caminha em paz e fica livre para cuidar dos inevitáveis percalços da vida. Mas, como caminha forte e acompanhado, cuida seguro, sem pressa, nem desespero.

"A minha vida toda
eu andei procurando (tuas mãos).
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem."

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Clube da Cantoria


Meus queridos amigos e leitores deste blog, nos ajudem a divulgar o mais novo e exclusivo espaço para cantadores de música regional e autoral, please. Se conhecerem alguém no perfil, nos avisem também e faremos contato diretamente.

Beijos, super-obrigada ;)

O que é o Clube da Cantoria?

Espaço para a música regional e autoral.

Objetivo:

Reunir músicos e compositores em um único espaço, visando a divulgação de seus trabalhos e atividades de forma individual nas mídias sociais (Twitter, Facebook, Orkut, Blog).

Como é?

O músico cadastrado deverá enviar para um único e-mail (da divulgadora), o material que deseja veicular. Além do material enviado, também serão divulgados os perfis nas mídias sociais individualmente (seu próprio Orkut, Twitter, Facebook, Blog e Site) e diariamente.

Como participar

Solicitar o cadastro por e-mail, enviando dados pessoais e foto para identificação no blog. Após o cadastro, será necessário o envio de seu mailing (o envio de seu mailing acelera o processo de divulgação viral).

Investimento

veja no http://yellowamktbrasil.blogspot.com/

IMPORTANTE:

1) O pagamento deverá ser feito mensalmente através de depósito bancário identificado. Ele lhe dará direito a 30 dias de divulgação, além de participar da 1ª mídia viral exclusiva para a música regional e autoral.

2) Não há vínculo por contrato

Opção:

Atuação exclusiva e direta em seus perfis já existentes (Blog, Twitter, Facebook, Orkut).

http://yellowamktbrasil.blogspot.com/

Maiores detalhes:

http://yellowamktbrasil.blogspot.com

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Na saúde e na doença


“Na prosperidade, nossos amigos nos conhecem. Na adversidade, conhecemos nossos amigos”. Essa frase, de John Collins, me apareceu no Twitter hoje e, apesar de todo mundo estar cansado de receber frase feita desse tipo, é sempre bom parar pra pensar a respeito: quando estamos bem somos humildes e solidários com nossos amigos? E eles, quando estamos enfrentando problemas, foram cultivados por nós o suficiente para ficarem ao nosso lado?

Certamente conheci meus melhores amigos durante meus piores problemas e me pergunto: fui amiga quando estava tudo pra lá de ótimo comigo? Qual o termômetro das nossas amizades? Existe um número "bom" de amigos, que nos diga o quanto somos queridos?

No querido http://conspirar.wordpress.com/, li também: “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade sequer conseguir se vestir”.(Winston Churchill)

Meu comentário por lá foi: "é que a verdade é, geralmente, preguiçosa e cheia de presunção: ela acha que, por si só, é capaz de se manter. Já a mentira tem a vontade de voar... e voa! Por isso, quem quiser uma verdade mais rápida e mais forte deve exercitá-la todos os dias".

No final das contas, percebi que ambas as frases tinham um estreita relação entre si: amigos tem quem é verdadeiro, quem permite que a verdade seja exercitada, por mais difícil e doloroso que isso possa ser. Ser verdadeiro nem sempre é agradar, ficar de sorrisinho, ser "super-bacana", estiloso e tal. Ser verdadeiro também não quer dizer sinceridade a todo custo. Verdadeiro é quem usa o coração para falar com o outro, usa de franqueza para não tirar vantagem nem ficar em cima do salto ou se fazer de vítima o tempo inteiro. Já reparou que tem um monte de gente "descolada" que reclama da mal-cantada "solidão em meio a multidão"? Pois é.

Portanto, tanto para sermos conhecidos por nossos amigos na prosperidade quanto para conhecê-los na dificuldade, é preciso verdade. Quem mente acaba em solidão porque é sempre reconhecido, cedo ou tarde. E a decepção que o mentiroso/perdido/iludido causa é o motivo pelo qual ele evita tanto a intimidade.

De tudo concluo que se não encontramos amigo algum em nossos momentos mais pesados e cruciais, de ninguém mais é a culpa, senão exclusivamente nossa. A boa notícia é que o inverso é absolutamente verdade: se temos amigos na saúde e na doença, o mérito é todo nosso. Bom né? ;)

Beijos, boa semana.

domingo, 23 de maio de 2010

Sementes da mudança



APÓS PERCORRER QUATRO CONTINENTES, A CIDADE DE SÃO PAULO RECEBE A PREMIADA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL QUE ALERTA E CONSCIENTIZA SOBRE O PODER E A RESPONSABILIDADE QUE CADA UM DE NÓS POSSUI PARA EMPREENDER UMA MUDANÇA POSITIVA E FAZER PARTE DESTA MUDANÇA.

Significado:

A Exposição “SEMENTES DA MUDANÇA: A CARTA DA TERRA E O POTENCIAL HUMANO” foi criada pela Soka Gakkai Internacional (SGI) e pela Iniciativa da Carta da Terra, sendo apresentada pela primeira vez na Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, em Joanesburgo, em 2002.

Organizada em torno dos 4 princípios gerais defendidos na CARTA DA TERRA (elaborada pela Comissão Mundial das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1987):

1) respeito e cuidado com a comunidade da vida;
2) integridade ecológica;
3) justiça social e econômica;
4) democracia, não-violência e paz;
Foi traduzida para inglês, espanhol, chinês, italiano, francês e recebe agora sua versão em português.

Sobre a exposição:

Por meio de 30 painéis, a exposição apresenta: a situação mundial do meio ambiente; os conceitos de sustentabilidade; a Carta da Terra; a educação ambiental transformadora; propostas elaboradas pelo Dr. Daisaku Ikeda para as questões ambientais; apresentação de iniciativas locais, como as de Wangari Maathai que visa coibir o desmatamento em seu país, o Quênia; as de Rajendra Singh que construiu um johad (pequeno açude) para armazenar a água da chuva, no Rajastão, Índia, assolado pela seca; e as de Elizabeth Ramirez que ajudou a abrir centros educacionais nas comunidades rurais da Costa Rica, para a proteção ambiental e promoção do desenvolvimento da mulher.

A Exposição conta ainda com uma ala brasileira, a extensão “AMBIÊNCIAS URBANAS: SUJEITOS E AMBIENTES EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO”, composta pela apresentação dos seguintes temas: 1) apropriação do território brasileiro; 2) modelo de desenvolvimento; 3) formação do povo; 4) relação entre a convivência de todos os seres vivos e o equilíbrio promovendo uma “nova revolução” dessa relação.

Durante a Exposição será exibido também o documentário “UMA REVOLUÇÃO SILENCIOSA”, projeto em conjunto da SOKA GAKKAI INTERNACIONAL (SGI), UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e CONSELHO DA TERRA. O documentário e os painéis da exposição foram incorporados no currículo educacional de 80% das escolas do Canadá, dentro do programa “Criando a Paz: Empreendendo Ações”.

Durante a Exposição será realizada também uma oficina de atividades denominada “TRILHA DA VIDA”, cujo objetivo é o de conscientizar crianças e adultos sobre o meio ambiente e os problemas ambientais. Ao percorrer a trilha com os olhos vendados e pés descalços, os participantes adquirem a experiência cognitiva de perceber o meio ambiente através dos sentidos do tato, audição, olfato e paladar. A experiência visa despertar valores e interesses e motivar as pessoas a participar da proteção do meio ambiente e da melhoria da qualidade de vida.

Datas e local:

De 21 de maio a 09 de junho de 2010
segunda à sexta-feira: 9h00 – 18h00
sábado e domingo: 10h00 – 17h00

TRILHA DA VIDA
De 31 de maio a 06 de junho de 2010
segunda à sexta-feira: 9h00 – 18h00 / sábado e domingo: 10h00 – 17h00

ENTRADA FRANCA
AGENDAMENTO DE VISITAS MONITORADAS - Tel.: +55 (11) 5572-1004 / 8037

LOCAL: UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz

Avenida IV Centenário, 1268 – Portão 7A – Parque do Ibirapuera – São Paulo - SP

Fonte: http://www.bsgi.org.br

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Noite que vira dia


A pauta do dia foi perda. Parece que todo mundo combinou o assunto: na hora do almoço, à tarde e depois à noite. Ô assuntinho desconfortável, eu não gosto. E não foi só da perda da morte que falamos exclusivamente, foi de todo tipo: filhos que se vão para morar com o pai, casamentos terminados, emprego, amizades "destruídas". Aquilo que antes parecia eterno, de repente bum!, acaba. A sensação que fica é de total falta de chão, um desassossego na alma, parece que nada mais tem jeito. É o fim de um ciclo, de uma fase, de uma história.

O que me intrigou nessas prosas todas foi ninguém reparar nas perdas claramente positivas: não se perde só coisas boas, deixamos pra lá também as coisas ruins e muitas vezes nem é por opção consciente, é porque a vida evolui mesmo, os níveis ficam diferentes, os propósitos idem e, aí, é inevitável a ruptura.

Sem falar também que na perda triste há um ganho homérico quando se entende o que é preciso: perder um emprego significa, muitas vezes, ter que se sacudir para conseguir algo melhor, talvez aquela amizade não fosse lá tão verdadeira assim, o filho terá um enorme experiência vivendo com o outro pai, o casamento já tinha acabado mesmo faz um tempão (o que existia era só acomodação), e a pessoa querida que morreu concluiu o ciclo.

O fato é que toda perda significa um recomeçar. Talvez, a grande dor seja a do movimento novo que precisa ser feito e não do luto. Afinal, chegar a um fim nos faz perguntar: vou repetir eternamente o que não me faz feliz ou fazer diferente para viver diferente?

Qual é a sua escolha?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

100 dias


Hoje pela manhã me dei conta do quanto minha vida mudou nós últimos 3 meses. Abatida pelo final de ano confuso e início de 2010 sem grandes perspectivas, bastou meu chega-pra-lá poderoso pra mandar toda a estranheza embora. É incrível, mas uma decisão profundamente convicta pode, realmente, nos encaminhar para o rumo certo.

Nos últimos 100 dias eu "casei", essa é a palavra certa. Casei com o homem da minha vida e nunca, nunca antes, consegui compartilhar tanto, em tantos níveis e tão cotidianamente como agora. Não há medo, nem complicações, nem "ses": somos juntos a certeza do que queremos.

Também nessa leva de tempo, minha sobrinha veio morar comigo e me tirou completamente da rotina! No começo, como todo começo, estranhei, mas já estamos no ritmo. E sabe o quê?, está sendo ótimo.

Há 3 meses, 3 funcionárias novas. Um mega-evento de 45 dias. Viagens, amigos novos, planos, estratégias do bem, cumplicidade, amigos antigos mais amigos ainda, felicidade. Ontem, uma amiga, confiando no que sentia, converteu-se ao Budismo, assim como eu própria fiz há quase 22 anos.

É, de fato, o início de uma nova vida esse 2010. E a todos eu desejo, do fundo do meu coração, que decidam suas vidas pela felicidade. Não esperem o dia seguinte, nem o aumento salarial, nem o papa chegar, o marido voltar, a mulher sair da TPM, o filho tomar jeito, o sol sair, alguém permitir.

Nenhum tempo deve ser desperdiçado, a menos que seja com o ócio do descanso. Apreciem a vida sem moderação. Embriaguem-se de alegria. Ainda faltam 7 meses para o ano terminar. Vai esperar?

Beijos, boa semana ;)

domingo, 16 de maio de 2010

Pequenos desrespeitos


Todos os dias eu fico indignada com o desrespeito e a falta de educação que tomou conta de todo mundo. Fico intrigada com a maneira como "ser folgado" e oportunista se transformou em moda.

A pressa, o trânsito, a politicagem (para citar apenas alguns exemplos) se tornaram desculpas para todo tipo de malcriação: ninguém mais pede licença, nem liga para o tempo do outro. O que importa mesmo é garantir o seu.

Claro que isso se reflete na sociedade de modo desastroso: o que é público há muito é de ninguém e ninguém se importa com as calçadas, com o lixo, com os gastos do governo, nem com o candidato que será eleito. Chegamos, faz tempo, ao ponto do "tanto faz". Outro dia, cheguei a pensar que eu é que sou a errada, tamanha irritação em que fico ao me deparar com gente sem respeito por si, pelo outro e, claro, pelo coletivo.

Espero, sinceramente, que esse ano de eleição seja de um pouco de discernimento. Além da conduta mais honesta e homana no dia-a-dia, votar melhor é mais do que fundamental. É uma questão de sobrevivência.

terça-feira, 11 de maio de 2010

De peito aberto


CONVITE aos seguidores desse blog

VI Jornada da Saúde: Evento em comemoração ao Dia do Trabalhador da Saúde, no período de 10 a 14 de maio de 2010.

Palestra Interativa sobre o livro "DE PEITO ABERTO, a auto-estima da mulher com câncer de mama, uma experiência humanista"

Dia: 14/05
Horário: das 10:30 às 12:00
Local: sede do SINSAUDESP - Rua Tamandaré, 393 - Aclimação.

Inscrição: Gratuita. Para participar basta enviar e-mail para cursos@sinsaudesp.org.br com os dados solicitados na ficha de inscrição acima.

Serão concedidos certificados aos presentes.
Informações pelos telefones: 3345-0035/3345-0050, Setor de Projetos e Cursos, com Edna Maria dos Santos, Coordenadora de Projetos e Cursos / Cristiano / Diana / Margareth.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Red pill


Hoje eu andei um pouco a pé pelo bairro atrás de pequenas coisas caseiras. Adoro fazer isso. Me dá a sensação de viver uma vida mais solta ficar olhando cadernos e pastas, papelaria me fascina! É como visitar loja de material de construção: parece que entro num paraíso de coisas lúdicas, onde eu posso construir tudo, imaginar qualquer coisa. Deve ser a minha criança querendo brincar.

E em dias um tiquinho mais leves como esse, eu sempre olho melhor o meu coração, lembro dos rostos de quem amo, das expressões tão queridas, das palavras boas que ouço, das amizades, das coisas que a vida ensina através de toda gente com as quais convivemos.

Claro, então, que pensei no amor, já viu sentir o coração sem sentir amor? Pois foi assim que percebi uma coisa deliciosamente amazing: eu exercitei tanto o amor na minha vida, por tanto tempo, e, sobretudo, desejei tanto, mas tanto, amar certo, do jeito honesto que constrói e engrandece, que estou aprendendo, sabendo todo dia um pouco mais como se vive com ele, com paixão e delicadeza sim, mas, acima de tudo, com muita pureza e vontade.

Hoje eu comentei com uma amiga, a respeito de outras duas, como é bonito ver uma pessoa desarmada, sem orgulho (daquele que fecha a gente tão fortemente que nos cega para qualquer crescimento), que entende os acontecimentos como chances. Naquele instante eu nem tinha me dado conta que eu própria estava caminhando pra isso com muita alegria, e só por isso encontrei o amor da maneira como sinto hoje.

A cada dia que passa sinto quão tolo, quanto desperdício é, viver postergando palavras, entrega, sinceridade, verdade. Quem a gente acha que perde (ou engana) quando evita a verdade? Quando adia a verdade? Quantos anos perdidos sem causar uma única nota de puro sentimento porque "o medo justifica tudo"?

Sinceramente, não sinto a menor saudade do meu passado porque me sinto feliz hoje de uma maneira como nunca fui antes. Mas, guardo carinho pelos coisas que passei, foram e são importantes: eu não seria eu, como se sinto hoje, se não tivesse vivido o que vivi.

Isso não qur dizer que eu não fique triste, estressada ou cansada, de vez em quando. Quer dizer, principalmente, que tenho disposição pra continuar, ou, se preciso, recomeçar. Quantas vezes forem necessárias. Até conseguir.

Beijo ;)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A César


Já faz tempo que eu observo o quanto todo mundo acha a vida injusta. Outro dia mesmo, minha faxineira disse "não entendo por que algumas pessoas tem tanto e outras tem tão pouco". Pois é.

Como budista que sou, e excessivamente rigorosa com algumas questões, devo dizer que não acredito em injustiça da vida. Acredito no homem injusto e olhe lá. Se a gente for levar ao pé da letra, se há injustiça humana é em retribuição a um desacerto humano na outra ponta também.

O fato é que esse tipo de sensação (vítima) faz com que todo o resto da humanidade, todas as plantas, insetos e baleias sejam carrascos aos olhos de quem é tão "desprivilegiado".

Bora, gente, bora assumir a responsabilidade de guiar a própria vida e destino. Fica um pouco pesado no começo, mas a sensação de liberdade é indescritível e maravilhosa com o passar do tempo, quando a gente vai tomando prumo e ficando forte. Sabe um músculo sem movimento por um tempo? Fica fraquinho, qualquer coisa cansa no começo, mas a medida que vai ganhando definição, as coisas vão ficando mais fáceis e leves.

É assim que é com a vida: tem que sair da inércia pra garantir alguma mudança, ué. Né? ;)

Beijos

Passageiro que voa


Recebi um texto lindo de aniversário, impossível de reproduzir, mas completamente impossível também de não mencionar. O email falava do tempo, de como o sentimos, dependendo do que sentimos, do que esperamos, de como enxergamos (ou não) o passar das horas.

O texto contava de quantas vezes passamos pelo mesmo lugar e sobre quantas maneiras o caminho pareceu insuportável por anos (alguns sem fim até hoje) ou uma alegre viagem de minutos. De quantas semanas duraram décadas e de quantos anos não ocupam sequer um dia inteiro. De quantos sorrisos inesquecíveis, quantos sonhos alimentados, quanta dor percorrida. Tudo para nos ensinar o significado da palavra eternidade. O tempo passa, mas é eterno, afinal.

Amizades longas, "casamentos que mal preenchem os feriados da folhinha, tristezas que nos paralisam por meses, mas que passados os dias difíceis, mal guardamos lembranças".

O email termina dizendo que o relógio do coração bate numa frequência diferente da do relógio. Pode ser. Pode ser. Mas, o que eu acredito de verdade é que não importa quanto tempo passe, o que testemunha nossa existência são os fatos.

Nenhum sentimento, pode mais bonito que seja, será nada mais do que apenas utopia se não for praticado. Idéias e sonhos são belos, entretanto são vazios demais para criar registro, álbum de vida, história. Sou emotiva, romântica. Passional com algum controle. Mas, entendi que o andar sem o bom sentimento é produção em série. E que emoção de quem pega passeata mas não anda é pura tolice e perda de tempo.

Vida voa, mesmo. A grande diferença é com que asas estamos saltando. Ou queimando. Ou, ainda, quem sabe, brilhando.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os magos do castelo



Quando a gente não quer mais uma coisa, ela deixa nosso nível de vida. Tudo uma questão de escolha mesmo ;)

Os Cegos Do Castelo

(Nando Reis)

Eu não quero mais mentir
Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou

Eu não quero mais dormir
De olhos abertos me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou

E se você puder me olhar
E se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar, e de você e de mim

terça-feira, 20 de abril de 2010

Império de Acácia


Nasci tímida, me soltei um pouco depois, vesti máscara de moderninha, voltei careta, mergulhada em tradições e não entendi mais quem eu era. Me julguei "boa e simples", me descobri arrogante e egoísta, pra compreender depois que a Acácia era uma mulher taurina-teimosa que só ia parar de tentar se conhecer quando isso acontecesse de fato.

Conheci o desespero para depois encontrar a gratidão. Vivi a solidão desse mundo pra entender a união e me alegrar com ela. Mergulhei incontáveis vezes no marasmo para aprender a cultivar a novidade sem dispensar a disciplina. Fui. Voltei. Fui e voltei milhares de vezes, mas o retorno era, e é, sempre novo, melhor e mais fortalecedor.

Amadureci um tantinho, mas guardei uma porção criança - infantil e chata às vezes, encantadora e curiosa em outras - descoberta pelo homem com quem vivo hoje, de olhar atento e coração entregue. É, tem coisa na vida que a gente descobre e luta para vencer sozinho, mas há outras que só com o convívio é possível deixar vir à tona e se esbaldar na delícia de desvendar, sob olhar alheio, aquilo que a gente não enxerga porque já se acostumou demais consigo ou porque tem vergonha de admitir, ou porque tem mania de se auto-julgar pior do que é.

Meu aniversário está chegando e há algumas semanas tenho feito uma avaliação sobre como aprendo e sobre o que construo todos os dias. Depois de tanto tempo avaliando em débito minha vida, o saldo que trago hoje é altamente positivo e seguro. No final dessas contas, sim, tenho o maior orgulho de assumir que sou honesta nos meus propósitos, forte no meu desejo de ser feliz, atenta, amiga, companheira. Cri-cri muitas vezes, rigorosa demais, nadica de rasa, nem adianta tentar me enganar que não rola.

É, minha gente, feliz aniversário pra mim. Não é que eu mereço?


PS: A imagem acima é da flor de Acácia Imperial

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O amor é quando a gente mora um no outro


Isso tudo é Mário Quintana:)

OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Músculo cardíaco


Quanto tempo não ando por aqui, saudade! Inspiração não me falta, o que tem faltado é um pouco mais de disciplina, aquela coisa que prezo e preciso tanto, mas que mantenho sob rigorosa atenção pra não perdê-la demais. Deixei escapar um montão de assunto bom nas últimas semanas, fiquei me sentindo em débito com esse meu canto. Coisa de quem é viciado mesmo :)

Uma coisa que falei ontem, entretanto, ficou martelando o pensamento e resolvi parar tudo para escrever sobre: músculo. Eu falava sobre o músculo da ação, da coragem, aquele que na saída da inércia ainda está fraco e frágil, fica dolorido, mas que, treinado, ganha todo dia um pouco mais de força. O contexto da conversa permitia essa analogia e ficou até bem claro. Mas, depois, eu parei pra pensar sobre outro músculo que precisa de igual treinamento: o cardíaco.

A gente vira adolescente sem saber lidar com o 1º amor e vai se virando assim até vários outros entrarem e saírem da nossa vida. Se apaixona, vibra, sofre, chora, se arrepende, decide nunca mais amar, ama de novo, acha que é pra sempre, faz planos, se decepciona, trai, é traído, acaba tudo, se apaixona e começa tudo outra vez.

Como o coração é o último pedaço do corpo a amadurecer, é natural que ele se embanane mesmo. Ainda infantil muitas vezes, esse músculo precisa de muito exercício para fortalecer suas emoções sem endurecer a alma. Tem gente que acha que endurecer resolve a musculatura, mas engane-se not: o que "firma" com saúde é a resistência, não a pele esticada de bomba (portanto, gente, calma com as tranqueiras que fazem um mal danado...).

Mesmo naquela fase da vida que a gente pensa que o coração cansou do exercício, e que o que resta é sublimar o que havia de amor nele, ele dá um jeito e volta a se agitar, bate no fundo, cheio de esperança de novo. E se houve treino sincero e constante antes, sem leviandade, o coração estará todo dia melhor para encontrar outro músculo forte e disposto, certo da entrega, tranquilo de que é assim que vale a pena viver.

Todo mundo que segue esse blog está cansadíssimo de saber que sou romântica. Mas, meu romantismo não é infantil nem utópico. Essa garantia que trago comigo de que só amando vale a pena construir a vida é a minha melhor parte. Como poderia desconsiderá-la, ignorá-la ou rebaixá-la? Pergunte-me quem quiser e eu responderei: amando e sendo amada, estarei sempre feliz, forte, invencível. Mas, se me tiram o amor, verão um corpo flácido, sem vida, caminhando no automático, sem sucesso algum.

Treinar os músculos da vida (coragem, atitude, disposição) é o acordar de todo dia. A gente cresce, come um bifinho pra ficar forte, estuda pra ficar esperto. E precisa, então, amar para brilhar. Já viu um apaixonado sombrio? Existe não.

"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."

(Pablo Neruda)

terça-feira, 30 de março de 2010

Eu e minha sombra


"Conhece a ti mesmo" - não fui conferir no Google, como normalmente eu faria, mas tenho quase certeza de que a frase é de Sócrates. O fato é que não me lembro de nenhum instante da minha vida em que essa máxima não estivesse presente no meu coração, como se conhecer a mim mesma fosse me dar a segurança e a certeza que preciso nessa vida.

Há muito pouco tempo consegui encontrar alguma transparência em mim, talvez, enfim, em algum grau, eu tenha encontrado (ou construído) o terreno fértil e saudável da verdade, da descoberta dela, do claro, do translúcido. A verdade de quem eu sou, do que quero, do que sei e sinto ser preciso para a minha felicidade.

Hoje, por mais que eu entenda os motivos dos erros que cometi no passado, sinceramente não consigo aceitar ter vivido tanto tempo me "tapeando". Claro que ainda erro e claro que errarei muito ainda (erros diferentes, espero. Repetir os mesmo é burrice). Não sou perfeita como pretendi ser um dia e fico feliz por isso. Isso faz de mim melhor observadora e pode me trazer mais compreensão (coisa que acredito ser a mais importante nessa vida).

Mas, o fato de não ser perfeita, e de saber que o outro também não é, não me acomoda na poltrona larga da boa desculpa. Antes, faz de mim mais curiosa ainda, mais caçadora (de mim, para parafrasear Milton Nascimento). Tenho uma alma inquieta, acredito na melhora constante: se eu pude melhorar nesses anos de vida (e sei que há um bom chão pela frente a ser melhorado), todo mundo pode. "Eu sou assim" é coisa para os cansados demais para viver. E, como eu não aceito a morte física como fim da vida, que dirá a morte da vida em plena vida. Mas, tem uma coisa super-importante para quem busca conhecer e entender um pouco da própria razão de viver (já que comecei com Sócrates, vou terminar com Platão) e a qual dedico mais olhar: é reconhecer o uso que se faz do próprio conhecimento. Sem isso, o que sobra é mera manipulação, ou disfarce, pra ficar mais leve.

O único alento de tudo isso é que é possível contar com o bom coração de quem nos ama, o apoio e peito sempre disposto a acalentar. A busca de Sócrates teria sido bem mais doce se ele tivesse tido esse amor a lhe proteger do mal. Não é o amor a grande cura para todas as coisas? Então eu tenho chance...