terça-feira, 9 de setembro de 2008

Liberdade e solidão

Uma amiga, outro dia, escreveu sobre a liberdade e eu fiquei matutando sobre o assunto. Ô assuntinho delicado, que serve, isso sim, pra deixar a gente meio triste, com vontade de não ser tão livre assim.

Liberdade não tem relação alguma com essa foto linda ao lado. Liberdade é troço sofrido, adquirido com esforço e solidão, caro à beça. Liberdade só vira coisa boa quando pode ser compartilhada com alguém que sabe exatamente aquilo que enfrentamos para conquistá-la.

Mas, sinceramente? Eu fico me perguntando por que é que a gente tem tanta vontade assim de ser livre. Não seria uma fantasia achar que liberdade e felicidade andam juntas? Não andam, não!

Aliás, felicidade não anda de braços dados com nada, a não ser com o instante em que ela acontece. Felicidade não é estado de espírito, não é uma tábua onde a gente se deita e desfila mar a fora, sorrindo para o mundo. Felicidade perene só permanece na esperança, pois sem ela, esperança, ninguém é feliz ou tem a perspectiva de ser.

Já reparou que, quando se perde a esperança, nada mais resiste? Pois, então, não seria mais justo enobrecer e elevar e buscar a esperança, ao invés da felicidade?

Voltando à liberdade, a única que eu quero cultivar e manter é a liberdade do espírito, do sentimento, porque, no resto, ela não tem sido muito útil, não. Hoje, eu posso voar mais alto, mas e a segurança de ter chão na volta? Se eu quiser chão, eu que o construa antes do vôo, porque, depois, neguinha, bau-bau: sou eu comigo mesma, é comigo que eu tenho que resolver; se não tiver chão, haja perna na aterrissagem.

Falo isso sem mágoa, apenas constatando o que todos os filósofos trataram de escrever, na tentativa de alertar os românticos como eu: pega leve na busca, liberdade demais é solidão na certa. Se bem que, livre ou não, todo ser humano é só na sua dor mais profunda e no seu prazer mais incrível. A diferença é que, sem liberdade, a gente desconhece o que incomoda. E não sabe que nunca ninguém sentirá o que nós sentimos, e que é isso o que faz de nós seres tão singulares, pra usar uma palavra mais simpática.

A única liberdade feliz, que libera a esperança e sorri para os dias é a liberdade do destino. Eu sei que cito Nietzsche demais, mas fiquem com esse trecho e me digam se ele não merece mesmo todas as citações:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência’ - [...] Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!’” (Friedrich Nietzsche, A gaia ciência)

2 comentários:

Luca disse...

moça, vc está certa, é preciso abrir mão de um pouco de liberdade para conquistar certas coisas, e vice-versa, vc melhor do que ninguém sabe disso.
não esqueça que tem sarau nesse fim de semana, já está tudo pronto.

bjão

Por Gabriela Athayde disse...

Muito bom! Eu não consegui escrever bem sobre o assunto. Ainda vou voltar a ele. Este tema merece versão 2, 3 , 4 e muitas outras. Obrigada pelo texto.
BOm demais ler ...