terça-feira, 26 de janeiro de 2010

E o resto?


Estou exausta depois do Campus Party. Por isso, aproveitando que dei uma lida no pocket da Martha Medeiros, resolvi publicar uma de suas crônicas, estou cansada demais para elaborar qualquer coisa profunda. O livro inteiro parece comigo e meus olhos se emocionaram diversas vezes. Outras vezes, lendo, me senti balançar a cabeça como quem diz "eu sei...".

Bom, segue abaixo "Todo o resto", saído de Coisas da Vida (exclui um trechinho aqui outro acolá, só pra ficar mais objetivo). Enjoy ;)

" 'Existe o certo, o errado e todo o resto.' Esta é uma frase dita pelo ator Daniel Oliveira representando Cazuza, em conversa com o pai, numa cena qualquer que, ao meu ver, resume o espírito do filme.

Certo e errado são convenções que se confirmam com meio dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir 8 horas por dia, morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, repetir de ano, beber de mais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede.

E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Somos maduros e ao mesmo tempo infantis, por trás do nosso autocontrole há um desespero infernal.

O amor é certo, o ódio é errado, e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa história, caso viessem a público.

Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas mal feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais - a troco de que fomos tão bonzinhos?

A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê."

E eu completo, antes de dormir: todo o resto pode ser a vida acontecendo. Ou, quem sabe, amor.


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