quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Tchau, Vó

A gente enfrenta muitas perdas na vida. A primeira, eu acho, é a perda do conforto do útero, embora, pela memória tão inconsciente dessa idade, não sei se conta. Depois, a vida entra numa gangorra de ganha-e-perde sem fim: aprende a andar, perde o colo; perde o 1º dente, ganha a 1ª fantasia (a fada dos dentes, lembram?); perde a inocência do Papai Noel, ganha a linha direta para pedir o presente ao pai.

Todas essas são perdas que, de uma forma ou de outra, nos enriquecem, pois trazem sempre a contrapartida do crescimento, da maturidade. Tem uma perda, entretanto, que não tem riqueza alguma, não traz alegria pois nunca haverá ganho algum depois. Trata-se da perda, pela morte, de um ente querido.

Eu perdi a minha avó ontem. Na verdade, nós fomos perdendo-a nos últimos 10 anos, com toda a falta de saúde dela, com a distância, com as ausências. Acho que é aí que a morte me assusta tanto: quando eu, definitivamente, perco toda e qualquer chance de fazer alguma coisa, conquistar, conviver, recuperar que seja.

Isso, mais uma vez, me põe a pensar na morte que a gente deixa acontecer diariamente por insensibilidade, por egoísmo, por achar que terá ainda muito tempo (no futuro!) para redimir-se. E adia, adia o outro, a si, adia a felicidade que é levantada delicadamente por pequenos gestos. Por pequenos gestos a gente também se afasta, cada dia um pouquinho mais e, quando vê, a separação está instaurada, mesmo com o "bom dia" de todos os dias. É preciso aprender a amar, porque, como já dizia Shakespeare, "sem saber amar não adianta amar profundamente".

Num dia como o de hoje, sem muita coisa organizada no peito, com o sentimento meio anestesiado, confuso e triste, encontrei pessoas que, mesmo sem saber da minha perda, falaram sobre morte como eu jamais havia ouvido, nem experimentado. Trouxeram um bálsamo tranquilo e contente para uma noite de muita solidão. É, as dores são sempre solitárias.
Obrigada aos amigos que estiveram comigo hoje, sabendo ou não. Obrigada por cada gesto, pela presença, pelo abraço. Tem dia que demora pra passar... e ter companhia nesses dias é sempre um bom remédio.


"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando.

(Vinícius de Moraes)

3 comentários:

Fabricio disse...

Oie! Meus sentimentos pela perda...

Das três formas de distância a única que não podemos permitir é a distância entre os corações. Pelo que vc escreveu com certeza esta distância entre vc e sua avó não existia, então fique tranquila, ore por ela e carregue com muito carinho as memórias e sentimentos que vcs criaram juntas...

NAM MYOHO RENGUE KYO

Bjos!

marcela fortes disse...

ow cacinha...coisa mais linda essa q vc escreveu...encaminhei para varias pessoas q precisavam ouvir isso de mim tbm..

marcelo barabani disse...

sinto muito, fique bem. bjs