terça-feira, 26 de maio de 2009

Sopros sutis


Anda pela Av. Paulista um morador de rua que me intriga. Ele deve ter entre 26 e 28 anos, é magro, alto, bonito, cara de quem estudou, conheceu um mundo muito diferente do que vive agora. Tem os cabelos na altura do queixo, em fio reto, finos, levemente ondulados por conta da falta de cuidado. Ele prende a parte da frente dos cabelos puxando para trás, numa espécie de rabo-de-cavalo.

O rapaz empurra um carrinho de supermercado, carregando coisas que pega aqui e ali. Tem um cachorro que o acompanha preso a uma coleira feita de pano, parece uma camisa bem velhinha. Cachorro é bicho fofo mesmo: esse não late, nem rosna pra ninguém. Pelo contrário, mesmo nas vezes em que o vi solto, andava sempre perto do dono, dócil, dócil.

Eu fiquei olhando o moço, sofrendo pelo desperdício da vida dele. Ele certamente acha que nasceu só para aquilo mesmo, que é sua única opção, que não há que se ter forças para mais nada, tudo tão difícil e complicado que é melhor ou mais fácil deixar pra lá.

Ou talvez não. Talvez o desperdício seja meu, do meu tempo, por, arrogantemente, considerar minha vida melhor. Talvez ele seja feliz assim, tão dedicado às suas coisinhas, sem conta para pagar, sem trânsito, sem chefe, achando que tola sou eu, sentindo melancolia e tristeza pelo destino a que ele se impôs, "tão curto, tão incompleto, tão pouquinho".

Entretanto, se, em algum momento, ao deitar e fechar os olhos para dormir, ele, mesmo que fugazmente, no fundo do seu coração, no meio daquela solidão toda, lamenta a falta de uma cama, a falta de um amor, a falta de um casa, de trabalho, de um abraço, então eu estou certa mesmo, é um desperdício ter desistido.

Tomara que um dia eu consiga com que ele olhe na minha direção. Não por nada, certamente eu não teria coragem de falar coisa alguma. Mas eu gostaria de olhar para aqueles olhos, enxergar nem que fosse uma sombra de alma, emprestar um sorriso, ou só mesmo fazê-lo perceber que não é invisível.

Acho que quando a gente sorri para alguém, para qualquer pessoa, ela se sente viva. E quando é tocada, então... acorda. Amada, se ilumina, acredita, fortalece a própria capacidade e a do outro. É assim que a gente não desiste.

Eu fico pensando em como é que se chega a pessoas como esse moço, como é que se pode soprar um pouco de vida nele e num montão de gente que se entregou assim. Tem cegueira em toda parte, de toda sorte, em todos nós. Mas, em alguns, a cegueira é mais fatal: é de esperança.

4 comentários:

Gabi Athayde disse...

Muito bonito ....

Beijos
Gabi

Deborah Huff disse...

Cá, muitas vezes me senti exatamente como vc descreveu. Sinto uma tristeza por não saber como descruzar os braços.
Se descobrir como me avise!
beijos e um belo dia.
Deborah Huff

Augusto Branco disse...

O mais belo sentimento... O mais belo texto que li em tempos.

É crescente a minha admiração por você, mocinha.

Você tem uma grande alma!

Maurício de Souza disse...

=) ... apenas um sorriso...