quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Twitter, segundo o Portal Exame


Por que o Twitter merece atenção

O serviço de troca de mensagens curtas toma o mundo de assalto - e começa a incomodar os gigantes Google e Facebook

Até bem pouco tempo atrás, boa parte dos que ouviam falar do Twitter fazia cara de ponto de interrogação. Apesar de existir há três anos e contar com algumas centenas de milhares de usuários apaixonados mundo afora, o serviço de troca de mensagens durante muito tempo se manteve restrito aos aficionados de tecnologia e aos que trabalham na área digital. O apelo de compartilhar ideias em até 140 caracteres, em resposta à pergunta "O que você está fazendo agora?", de fato foi fácil de compreender, o que levou mais de um blogueiro a comparar a experiência ao sexo: você pode ler o que quiser a respeito, olhar fotos ou assistir a vídeos, mas só saberá do que se trata quando começar a fazer. Pois desde o começo deste ano muita gente decidiu experimentar o Twitter. Muita gente mesmo.

A comScore, empresa de medição de audiência na internet, calcula que 9,8 milhões de pessoas olharam páginas do Twitter na web em fevereiro. Em março, o número quase dobrou, chegando a 19,1 milhões - e a conta não inclui as pessoas que acessam o serviço pelo celular ou por programas específicos para "tuitar", como aponta um novo verbo que deve entrar para o vocabulário deste século. Como convém a uma inovação vinda do Vale do Silício, o Twitter começou pequeno, ganhou tração entre alguns usuários ferrenhos e ainda não dá lucro - ou, para ser mais preciso, nem sequer tem uma fonte de receitas. Mas o dinheiro, por enquanto, é apenas um detalhe. Com sua simplicidade frustrante, o Twitter já é considerado uma ameaça potencial para o Google e o Facebook - e uma oportunidade enorme de marketing para todas as outras empresas do planeta.

Parte do impulso recente do Twitter tem a ver com a enxurrada de celebridades americanas que invadiram o serviço. Arnold Schwarzenegger, ator e governador da Califórnia, está lá desde o início. Barack Obama, o presidente americano, também aderiu quando ainda disputava a candidatura do Partido Democrata. Mais recentemente, a apresentadora Oprah Winfrey, uma das personalidades públicas de maior influência da TV americana, tornou-se uma "tuiteira". O ator Ashton Kutcher travou uma disputa pública com a rede de TV CNN para ver quem atingiria primeiro a marca simbólica de 1 milhão de seguidores, nome que designa a pessoa que lê as mensagens de determinado autor. (O astro venceu a corrida.) No Brasil ainda não há ninguém que chegue perto dessa notoriedade, e o líder em audiência, se é que o termo pode ser empregado, é o humorista Marcelo Tas, com cerca de 42 000 seguidores no dia do fechamento desta edição e que, assim como seus companheiros do programa CQC e outros usuários, lançou mão de ferramentas tecnológicas para artificialmente ampliar seu alcance, como o blogueiro Edney Souza, conhecido como Interney, e a ex-apresentadora de TV Rosana Hermann.

Famosos podem ajudar a divulgar o Twitter, mas são as pessoas comuns, com seus 50, 100 ou 150 seguidores, que fazem do serviço algo potencialmente transformador. Abastecido pelos curtos - mas frequentes - comentários de seus usuários, o Twitter reúne a cada segundo um gigantesco banco de dados sobre o que as pessoas estão falando. Com isso, está se tornando o principal termômetro da web. Uma busca no Twitter traz resultados muito diferentes de uma pesquisa no Google. Por mais eficiente que seja, o algoritmo desenvolvido por engenheiros na Califórnia não é capaz de medir o pulso da conversa global com tanta velocidade. "O Twitter é uma janela para tendências imediatas, assim como para problemas que as empresas precisam acompanhar", diz Josh Bernoff, vice-presidente de inovação da Forrester Research e coautor de Groundswell, livro sobre tecnologias sociais ainda sem tradução para o português. Uma busca por "gripe suína" no Google trará algumas notícias e textos de referência. No Twitter, os resultados provavelmente incluirão relatos em primeira mão de moradores da Cidade do México sobre as restrições impostas à circulação de pessoas.

Um tipo de busca não exclui a outra, é claro, mas o Twitter já se tornou uma consulta obrigatória para empresas que querem avaliar a quantas anda sua reputação. As operadoras de telecomunicações NET e Claro, o banco Bradesco e a fabricante de cosméticos O Boticário contrataram uma empresa terceirizada, a e-Life, para monitorar a internet, inclusive nos microblogs. "Hoje, 30% das manifestações sobre a companhia na internet vêm do Twitter", diz Bruno Raposo, diretor de gestão de clientes da NET. Em termos de impopularidade, porém, deve ser difícil superar a Telefônica. Na primeira semana de abril, o serviço de banda larga da empresa, o Speedy, sofreu uma pane no estado de São Paulo. As reclamações de 140 toques (e muitos xingamentos) se espalharam pelo Twitter instantaneamente - e duas semanas depois os relatos de problema continuavam a aparecer nas buscas. O serviço serve para ouvir e, é claro, também para falar. A fabricante de computadores Dell já vendeu mais de 1 milhão de dólares nas promoções exclusivas que são lidas por seus seguidores. O varejista Submarino é um dos exemplos brasileiros na linha das promoções. Quase 8 000 pessoas já optaram por receber as ofertas de livros, CDs e DVDs. A lista de empresas é longa e inclui até mesmo curiosidades como a padaria londrina Albions Oven, que avisa seus seguidores sempre que sai uma fornada nova.

Mas o Twitter vai muito além do uso empresarial. Ele representa um fenômeno cultural que tem despertado interesse e perplexidade em iguais medidas. Muitos tweets, como são chamadas as mensagens trocadas entre os usuários, são triviais: Fulano comeu macarrão no almoço, Sicrano chegou 5 minutos atrasado e ficou sem ingresso para a sessão de cinema, Beltrano está assistindo a um jogo de futebol. Há um pouco de exibicionismo envolvido, assim como uma necessidade incontrolável de manter-se em contato com outras pessoas. Mas será que só isso explica o sucesso desenfreado dos últimos meses? Numa entrevista recente, Paul Saffo, diretor da consultoria Instituto do Futuro e professor da Universidade Stanford, disse que o Twitter reverte a noção tradicional de grupos online. Milhares de pessoas se reúnem em torno de um tema sem que precisem aderir a um grupo de discussão ou às tradicionais comunidades. Foi graças ao Twitter, a propósito, que o fenômeno da escocesa Susan Boyle num programa de calouros tomou o mundo digital de assalto.

O Twitter conquistou a imaginação coletiva sem ter um modelo de negócios e praticamente sem ter faturamento. A empresa já recebeu 55 milhões de dólares de investidores de risco. Os fundadores, Jack Dorsey, Biz Stone e Evan Williams, que criou o Blogger e depois vendeu a empresa ao Google, afirmaram mais de uma vez que ainda neste ano haverá novidades nesse campo. Alguns especulam que o Twitter possa cobrar de empresas que queiram fazer uso comercial da ferramenta, como a divulgação de produtos. Uma alternativa possível é publicar anúncios de acordo com o perfil dos usuários. O que parece claro é que, por enquanto, a dupla não tem motivos para pressa. Ao contrário do YouTube, que daria prejuízo de até 2 milhões de dólares por dia, segundo uma estimativa, o Twitter não tem custos exorbitantes de infraestrutura.

O serviço também continua rumando para a estratosfera, com um crescimento de 600% durante o ano passado. "Uma vez que um site é capaz de construir uma audiência dessa forma, é difícil perdê-la do dia para a noite", diz Magid Abraham, presidente da consultoria americana comScore. Esse deve ter sido um dos motivos pelos quais o trio rejeitou, em novembro do ano passado, uma oferta de 500 milhões de dólares em ações e dinheiro feita pelo Facebook. Sem a aquisição, a maior rede social do mundo partiu para a forma mais sincera de lisonja: a cópia. Há dois meses o Facebook revolucionou a interface do site para deixá-la muito semelhante à do Twitter - e seu fundador, Mark Zuckerberg, começou a "tuitar".

FONTE:Portal Exame

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