segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Chapeuzinho não vive sem Lobo-mau: mitos da insuficiência


"Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos", quem escreveu isso foi Anaïs Nin, lá pelos idos dos anos 50 do século passado. Anaïs Nin é famosa por sua literatura erótica, é autora de Delta de Vênus, Pequenos Pássaros e Uma Espiã na Casa do Amor.

O que mais me impressiona em seus textos é a absurda intensidade, uma entrega que sempre achei que eu própria não tivesse e, acima de tudo, o despudor em assumir sua imoralidade. Essa, entretanto, não é a melhor faceta de Anaïs Nin. O que ela tem de melhor, eu acho, é a capacidade de transformar os enigmas abissais entre homem e mulher naquilo que é mais simples e primário: foram feitos um para o outro, são carnais, são amantes.

Desde que me entendo por gente leio e ouço por aí rótulos femininos e masculinos, interpretações racionais e científicas a respeito das diferenças entre macho e fêmea. Um é assim, o outro é assado. Um veio de Marte, o outro de Vênus. Um tem hormônios demais; o outro, TPM de dar dó. Tanto tempo gasto em observações sempre me fez perguntar que tempo esse povo arruma para ir lá, de fato, e comprovar tudo isso? Existe alguma entrega real, sensibilidade efetiva para sucumbir a algumas inverdades, outras invenções e algumas desculpas que construímos para nossa incapacidade de ser, basicamente, seres feitos para viver de amor?

Ok, podem me chamar de romântica, eu sou mesmo. Mas, eu acredito, de verdade, que temos tanto medo de dar errado que fazemos tudo para não dar certo, porque, se der certo, o que é que vamos fazer? Ninguém nunca ensinou! Os livros de auto-ajuda estão cheinhos de frases encorajadoras, para serem usadas DEPOIS do fracasso, para o sucesso na 35ª tentativa. E, olha, vou dizer uma coisa que, se eu soubesse antes, teria sido mais feliz mais cedo: com passos tranquilos e reais, dados um a cada vez, sem tanto palpiteiro de plantão, é possível aprender acertando.

É também da nossa escritora acima, a derradeira constatação de que "o amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das mentiras . Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho”. Não é isso mesmo que fazemos também conosco? Vamos perdendo o brilho, deixando de cuidar e, quando o olhar já está gasto demais para se encantar, percebemos o que poderíamos ter feito, lá atrás, para viver cheios de deslumbramento.

Cada vez que eu me pego impregnada dessa pressa, da bagunça, do relógio, da poluição e da miopia, eu páro um pouco, vou olhar outras coisas, exercitar o músculo do coração de outro jeito. Lembro da voz mais doce e concentrada, da respiração mais pausada, do outro que me ouve, do amor que eu sinto, que é importante, mais importante do que tudo.

Tem um trecho de Henry e June - Do Diário Intimo de Anaïs Nin, que eu adoro, que traduz um sentimento desnudo, revelado sem vergonha e sem orgulho, quase uma dependência (se essa palavra não fosse tão confundida com bad carma): "Imaginei por um momento um mundo sem Henry. E jurei que no dia que perder Henry, eu matarei minha vulnerabilidade, minha capacidade para o verdadeiro amor, meus sentimentos, com a devassidão mais frenética. Depois de Henry não quero mais amor. (...) Que necessidade profunda dele. Só quando estou em seus braços as coisas parecem direitas. Depois de uma hora com ele, posso continuar o meu dia, fazendo coisas que não quero fazer, vendo pessoas que não me interessam."

Amor nunca se transformará só em pura amizade. Amor, amor de verdade, será alimentado em paixão, sempre. E sempre haverá mais paixão, desde que nunca a percamos em nós mesmos. Como conclui nossa Anaïs, "todos os dias lhe digo que não o posso amar mais, e todos os dias encontro mais amor em mim para ele."

A vida, com esse amor, tem sabor de mais vida.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Muito prazer em conhecer


É interessante essa história de blog. Por aqui, a gente conhece melhor o sentimento de quem escreve, mesmo que a intenção seja só falar sobre filmes ou política. Foi assim, que comecei a me sensibilizar e reconhecer alguns corações, e uma pessoa, em particular, até virou minha amiga, e me incentivou a escrever também.

Essa semana recebi o e-mail de um ex-colega de trabalho, pessoa de quem sempre gostei mas que tive poucas oportunidades de conversar sobre tudo o que escrevo. Aliás, se existe uma coisa que a gente não fala normalmente é sobre assunto que vira blog, quem é que tem tempo?

Pois bem, ele me dizia que tinha lido um post e que desconhecia "esse meu lado". Eu achei graça, porque as pessoas se conhecem muito pouco mesmo. Só parando de verdade, com calma e vagar, e com alguma regularidade, para começar a entender a cabecinha de quem encontramos no trabalho, na escola, na vida, enfim.

Outro dia, também, uma amiga, lendo meu perfil, "descobriu" que sou budista e me perguntou por que. Eita perguntinha complexa, que levaria bem uma vida para responder, porque Budismo não é uma definição rasa, é, antes, uma escolha de vida inteira, embasada em pura responsabilidade.

Mas, como conversas fluem a partir de interesses, eu respondi, ou tentei: eu sou budista porque Budismo é unidade, não separa nada de nada, tudo é reflexo daquilo que pensamos, falamos e da maneira como agimos. Budismo não é uma condição que visto, de vez em quando, somente para buscar aprovação em algum momento. Tampouco é um lugar, afastado de mim, para onde vou quando preciso de conforto.

Esse assunto, com certeza, vai gerar curiosidade e certas dúvidas, mas também vai provocar outras conversas, provocar alguma aproximação. E é disso que a gente precisa, sabe? Aproximação. Fico muito feliz quando encontro as pessoas e ouço comentários sobre cada tema escolhido aqui. Fico feliz não porque meu blog ande na boca do povo, mas porque, por causa dele, por causa da exposição daquilo que sinto, tenho gerado essa aproximação.

Tem sido um baita exercício escrever, gostoso e criativo, o hobby que eu procurei a vida inteira. Agora, senhoras, senhores e senhoritas, tenham olhos porque eu não vou parar tão cedo... Aliás, super-obrigada aos leitores de carteirinha, aos visitantes de primeira viagem e aos curiosos eventuais: é, sinceramente, um prazer ter a atenção de vocês nesse cantinho tão intimista da net.

Há muito Nietzsche me aconselhava, mas acho que só agora, finalmente, estou me tornando naquilo que sou.

Beijo a todos.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Come on, baby, just pump it

Quem viu John Travolta e Uma Thurman em Pulp Fiction sabe que Black Eyed Peas pegou uma carona deliciosa nas batidas de Misirlou, no filme interpretada por Dick Dale & His Del-Tones (aliás, a trilha sonora inteira do filme é contagiante, dá até pra ver Vicent Vega e Mia Wallace dançando juntos quando ouço You Never Can Tell).

Pulp Fiction é de 1994, então, dá pra imaginar a quanto tempo eu ouço Misirlou e, depois, Pump it: ADORO. É impossível manter os músculos quietos, o coração ganha energia, dá vontade de sair dançando, se sentindo a própria wonder woman do rádio. Uma delícia, quase um Prozac, só que o único efeito colateral é o aumento no batimento cardíaco.

Como diz a turma tchope-tchura, a música é, definitivamente, a melhor viagem. E, dependendo do lugar para onde se quer ir, um cliquezinho é o passaporte garantido. Eu, particularmente, evito algumas, às vezes; procuro outras, outras vezes, e canto o dia inteiro quando preciso mudar o meu humor.

Já perdi a conta de quantas vezes dancei "por dentro", uma vontade danada de entrar no ritmo, o pensamento ali cantando, quase saindo pela boca. Uma tortura! Ainda bem que o povo ficou viciado em MP3, 4, iPod e etc, porque parece que todo mundo ficou mais feliz nas filas da vida, no tumulto da rua, nas esperas daqui e dali. Isso porque há música em todos os lugares, e, sem distinção de idade e independente da baladinha, o importante é que o "trabalhador brasileiro" anda cantando por aí, um pouquinho mais de bem com a vida.

Se quem canta os males espanta, a música também tem cumprido sua função social, ajudando a reunir grupos, criar tribos, emancipar quem ficava na garagem. Hoje, com internet e MTV, é possível encontrar de tudo nessa praia, gravar seu vídeo e sair por aí mostrando. Mas, isso é outro assunto compriiiiiidoooo... que merece outro post.
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Para terminar, fica aqui uma canção do Gonzaguinha que fala de vida, entrega e amor, que é tudo o que a gente precisa pra ser mais feliz:
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Seja calma como a luz do sol rasgando a negra noite, dor de março
Seja fruto do suor tão santo que envolve o trabalho, flor de maio
Será justiça para com as mãos cobertas de tanto calor, flor de outubro
Será beleza como a chegada do colorido das primaveras

Seja forte como a união dos nossos corações, trabalho e dor
Seja firme como as águas lentamente tomando as tantas terras
Será o fogo que arde em cada peito nas fogueiras das paixões
E violento como o amor o corpo exige, grita, toma e berra
Que seja um parto dolorido e farto de vida e alegria, trabalho e festa
Que seja novo como a emoção de um cego vendo a luz de um dia

(Colheita)

domingo, 21 de setembro de 2008

"Agente, prefiro mais, pelo omenos" e outras dores

Gente, que me perdoem os mais desatentos, mas se tem uma coisa que me dá alergia e está ficando cada vez mais difícil suportar são os "enganos" com a nossa língua portuguesa. É tanto desmazelo que fico preocupada mesmo com o futuro dos nossos livros.

Uma pessoa simples, que não tenha estudado, eu entendo, juro: acho honesto que não saiba falar ou escrever direito. Mas, vamos ser bem francos, gente "estudada", até "de nível superior", usando o nosso bom e lindo português sem a menor noção, é de matar!

É um tal de "que nem" (é o menos agressivo), "agente" (assim mesmo: tudo junto), "enstruída", "pelo omenos" (ai, ai), "ecessão" (pela mãe do guarda!), "fazem cinco anos", "pra mim fazer"... olha, é tanta coisa que dá dor de cabeça! Onde foi que esse povo viu isso escrito? Não viu, né? Aí é que está o problema: falta leitura.

Parece óbvio dizer isso, mas, sim, só lendo é que se aprende a escrever. Ler coisa boa mesmo, mas já ajuda começar com Caprichos e afins. Caras, a essa altura do campeonato (e se encontrarem algum texto com mais de 50 linhas), vale também. Afinal, essas revistinhas pertencem a editoras que prezam pela revisão.

O fato é que se faz urgente encostar a cabeça em qualquer lugar (travesseiro, vagão de trem, cadeira de recepção de consultório, bicicleta ergométrica, ônibus, espreguiçadeira de piscina) e prestar atenção ao texto de bons escritores. Por que é que é tão difícil assim? Tem histórias fantásticas, doces, incrivelmente alienadoras, capazes de nos acalmar e levar para outros mundos.

O último livro que li foi "A sombra do vento", de Carlos Ruiz Zafón, e, quando terminei, fiquei com vontade de começar tudo de novo. Foram 400 páginas de tempo esquecido, problema esquecido, barulho esquecido. Era um sorriso aqui, uma emoção acolá, uma lembrança macia, um encontro de sentimentos entre eu e o autor. É incrível, mas a gente encontra muita coisa parecida nos corações humanos. Pois é, além de ensinar a escrever direito, de nos enriquecer a cultura, a boa leitura nos enriquece a alma.

Faço aqui um apelo aos que acham chato qualquer coisa que tenha mais do que 3 linhas: rendam-se ao charme e ao feitiço da boa palavra, façam sorrir os ouvidos de outrem com "s" quando plural, com menos "mim faz", com uma gramática feliz e Chico Buarque também.

E, aí, constataremos o que já dizia nosso trovador do samba, Cartola, "em pouco tempo não serás mais o que és". Pois, "como consolo e promessa de um mundo melhor, resta-nos a arte. Que a música de Cartola nos proteja" (Pontocom Poesia).

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Saúde


Eu conversava ontem sobre saúde e de como eu me preocupo com a minha: prefiro o caqui ao salgadinho, faço atividade física com frequência, procuro manter o coração limpo, além de, claro, claríssimo como um céu de verão sem nuvem alguma, não fumar, nunca fumei, não tenho a menor vontade de.

Todos esses cuidados são racionais, programados, incluídos na minha rotina com o propósito definido de viver em pleno funcionamento, mas também têm muito de preferência pessoal. Eu gosto do sabor mais natural e ponto. E isso não é de hoje, não. Há séculos bebo suco ao invés de refrigerante, 2 litros de água todos os dias, carne só em época de muita carência proteica, natação, corrida, bike, musculação. Minha preocupação em não adoecer é "meio doentia". Uma gripe, um resfriado, ainda vá lá. Mas, adoecer pra valer me dá pânico. Ficar de cama pra sempre, pra mim, é a morte. Sério.

A observação que ouvi foi "parece até que você não tem família ou amigos para cuidar de você". Pois é, tenho sim, mas, até a página vinte, né? Não consigo me imaginar (toque-toque na madeira), por exemplo, 1 ano, 2, 20, 40, vivendo na dependência de alguém para me carregar, servir, alimentar. Já pensou?!? Tomar uma sopinha na boca por dois dias é beeeeeem diferente de só tomar banho com auxílio. Isso é uma bomba emocional. Eu, heim...

No corre-corre da vida, a gente já deixa de fazer tanta coisa por falta de tempo, que dirá não fazer porque não pode mesmo, por uma deficiência palpável, uma imobilidade grave, uma obstrução arterial! Ok, ninguém pode controlar tudo, eu sei, mas evitar algumas coisas é bem possível.

Se, com moderação e boas escolhas eu posso evitar problemas cardíacos, colesterol alto, cirrose, pressão alta, úlcera, má circulação, e mi-lha-res de outras coisas, por que é que eu vou pagar para viver mal? Por que é que eu vou fumar se sei que, dessa forma, estarei me entupindo de lixo? Um Doritos de vez em quando eu adoro, mas como café da manhã, não dá. Eu acredito na máxima que diz que "somos o que comemos". Basta dar uma olhada com mais calma para constatar que é assim mesmo. Comida afeta o humor, o nível de serotonina, a libido, a memória, o brilho da pele. O intestino é chamado hoje de segundo cérebro, e, vamos combinar, não deve ser à toa.

Eu sei que deve ter muito mais assunto por baixo desse medo de mutilação do que eu sou capaz de concatenar, e é por isso mesmo que eu vou parando por aqui. Por ora, já que eu não sei muita coisa, vou me precavendo muito saborosamente dos males do corpo e da alma (sim, senhor, são inseparáveis, sim, e mais: refletem-se mutuamente).

Aproveito para deixar uma frase de Aristóteles, que me inspira a orar, pensar, comer e agir com um bocadinho mais de disciplina: "nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito".

Só a noite é que amanhece


Só a noite é que amanhece


(Alphonsus de Guimaraens Filho)


À VONTADE

Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças
Com toda a tua treva
E entre nós — embora ressabiados e feridos — até que poderás ficar à vontade.


Pois de qualquer modo há em ti um frêmito vôo informulado,
grande ave de asas cegas…
Somos teus, como sabes, todos te pertencemos,
constrangidos embora.


Mas não seja por isto.
A casa é tua
— como nestes domínios é hábito dizer aos amigos —
e poderás ficar à vontade.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mesmo que o tempo e a distância digam não


Eu frequentei, durante bons anos, um grupo de estudo com meia dúzia de pessoas. O trabalho era bem intimista, uma vez por semana (toda semana) e acabamos criando um vínculo muito intenso, a ponto de gerar muita amizade e, às vezes, claro, alguns confrontos.

Há alguns meses, entretanto, graças ao ritmo da vida, ao tempo curto e, por que não assumir?, a falta de vontade mesmo, eu me desliguei do curso. E aí, ontem, reunindo dois amigos do grupo num papinho regado a sucos, caipirinha e carne seca, minha amiga perguntou se eu não sentia falta do trabalho. Sem pensar, eu respondi que não, mas, sabe?, fiquei pensando nessa resposta hoje. E cheguei à seguinte conclusão: eu não guardo saudade do curso em si, mas sinto uma falta tremenda dos amigos.

A amizade e o carinho permaneceram, sem dúvida, mas, é diferente quando a gente se encontra regularmente, e conversa, sabe como foi aquela semana, volta pra casa juntos, jogando prosa pela janela. A gente chorou muito juntos, e riu, fofocou, ponderou e, sobretudo, se alimentou do jeito um do outro. Cada um de nós tem uma veia muito específica, fácil de desenhar, mas, também, somos bem parecidos no coração. Arrisco a dizer que, sim, temos uma bondade inerente, uma vontade gigantesca de ser feliz e de fazer feliz quem está conosco e também quem vive ao redor. É uma delícia admitir essa qualidade sem receio algum de parecer imodesta ou piegas.

Tudo isso pra dizer o quanto a amizade pra valer é rica, tem gosto de coisa honesta, justa, certa. Eu me esforço, me policio para não perder de vista essas pessoas tão caras e trato de cuidar para não me fechar para outras tantas amizades que estão por aí, no trabalho, na vizinhança, nas plagas distantes e outras nem tanto.

Um outro amigo, ainda hoje, se despedia da gente que é budista e se reúne na minha casa toda quarta-feira, pois ficará um ano nos EUA, estudando. Outra pessoa que me acostumei a ver toda semana, a conhecer pelo tom de voz, a enxergar a emoção nos olhos. Essa é também dessas amizades que conservam seu valor, mas que perdem o convívio por conta dos caminhos de cada um. Não gosto de despedidas, nem de distâncias. Gosto de ter as pessoas por aqui, facinhas de encontrar (mesmo que a gente se enrole no tempo e mal consiga ajeitar a agenda para matar a saudade). Até aceito a quilometragem da saudade (não tem outro jeito, não é?), mas, de verdade, queria é que estivesse todo mundo no mesmo banquete, reunido como na festa de Babette .

Já que citei nosso querido Milton Nascimento no título do blog, aqui vai mais um pouco da sua delicadeza:

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai pra nunca mais...
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir... são só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é, também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...

(Encontros e despedidas)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Nós, mulheres

Pois é, eu tenho o hábito de comentar as conversas com as amigas, eu sei. É que alguns contatos são tão ricos que realmente me fazem pensar um tantinho mais.

Dessa vez foi durante um encontro de trabalho. Numa mesa de café da manhã com 4 mulheres, eu ouvia duas delas comentarem a história de amigas e conhecidas que ganharam carro, apartamento, roupas e jóias de seus namorados, noivos e maridos. Uma querídissima ao meu lado desabafou "puxa, nunca ganhei presente de homem algum!" e eu não pude deixar de dizer: minha flor, essas mulheres têm uma característica muito específica que nós não temos.

A conversa continuou: "não! elas são legais" (como quem diz: não são vadias!), e eu "sim, elas são legais, sim, mas algumas coisas só aparecem na relação homem-mulher e isso não é bom nem mal, só diferente daquilo que somos nós". Ela disse: "elas são gueixas!", e paramos por aí, outras pessoas se aproximaram, beijinhos para cá e para lá, enfim. E fiquei eu a refletir sobre nossa prosa tão breve mas que daria um trilhão de teorias sobre feminismo, cortesãs, passando por diferenças sociais, dando brecha para complexos, inclusive o de Electra.

Deixando de lado todo esse universo intelectual e psicanalítico, acho que, no fundo, no fundo, toda mulher gostaria de ganhar uns mimos de vez em quando. Nem falo de carro ou casa (claro, né?), mas de delicadezas fora de hora, frutos da lembrança carinhosa num dia qualquer. Afinal, é preciso ser aniversário, dia disso ou daquilo, ou natal, para fazer uma surpresinha? Pense no sorriso, no coração enfeitado: não vale a pena? (Homem também precisa, viu, mulherada? Mas, como o foco aqui é a carência feminina, nem vou arriscar a partir para o outro lado. Se algum amigo por aí quiser contar como é, fique à vontade para escrever.)

Bom, o fato é que mulher é mesmo mais dengosa, mais detalhista nessas coisas, valoriza demais a atenção do namorado. A gente já tem celulite, cólica, tpm, estria, engravida, tem menos colágeno, menos massa muscular, muito mais adipócitos e hormônios desregulados, merece, sim, ganhar flores com cartão, sem mais nem menos, não é? Então, homens, sejam gentis... se até a minha amiga super-poderosa deixou escapar um lamento lá no começo do texto, que dirá nós, mulherzinhas menos resolvidas...

Momento Cultural:

COMPLEXO DE ELECTRA - Intrinsecamente, o complexo de Eletra se resume no mesmo problema do complexo de Édipo. A única diferença está nas pessoas que entram em jogo. No complexo de Édipo se verifica o apego erótico do filho pela mãe, com o desenvolvimento paralelo de ódio pelo pai. No complexo de Eletra, a filha encontra na mãe uma rival que compete com ela na disputa das simpatias do pai.

Parece todavia um pouco forçada a denominação de complexo de Eletra, uma vez que na mitologia grega essa personagem não representa tão bem quanto Édipo o sentimento erótico e de ódio para com o pai e a mãe respectivamente. Com efeito, segundo a mitologia, Eletra, filha de Agaménon e de Clitemnestra e irmã de Orestes, nem matou sua mãe, nem se apaixonou por seu pai. A mitologia grega diz simplesmente que depois que sua mãe e Egisto assassinaram seu pai, Eletra salvou a vida de seu irmão enviando-o à côrte do rei Estrófio. Mais tarde, Orestes regressou e foi incitado à vingança por sua irmã, assassinando sua mãe e Egisto.

Seja como for, a menina em seu desenvolvimento sexual enfrenta os mesmos problemas, embora geralmente com menor intensidade que o menino, e as conseqüências do desenvolvimento anormal do complexo de Eletra são tão graves quanto as do complexo de Édipo. (Fonte: Clínica Universitária Henry Dunant)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Liberdade e solidão

Uma amiga, outro dia, escreveu sobre a liberdade e eu fiquei matutando sobre o assunto. Ô assuntinho delicado, que serve, isso sim, pra deixar a gente meio triste, com vontade de não ser tão livre assim.

Liberdade não tem relação alguma com essa foto linda ao lado. Liberdade é troço sofrido, adquirido com esforço e solidão, caro à beça. Liberdade só vira coisa boa quando pode ser compartilhada com alguém que sabe exatamente aquilo que enfrentamos para conquistá-la.

Mas, sinceramente? Eu fico me perguntando por que é que a gente tem tanta vontade assim de ser livre. Não seria uma fantasia achar que liberdade e felicidade andam juntas? Não andam, não!

Aliás, felicidade não anda de braços dados com nada, a não ser com o instante em que ela acontece. Felicidade não é estado de espírito, não é uma tábua onde a gente se deita e desfila mar a fora, sorrindo para o mundo. Felicidade perene só permanece na esperança, pois sem ela, esperança, ninguém é feliz ou tem a perspectiva de ser.

Já reparou que, quando se perde a esperança, nada mais resiste? Pois, então, não seria mais justo enobrecer e elevar e buscar a esperança, ao invés da felicidade?

Voltando à liberdade, a única que eu quero cultivar e manter é a liberdade do espírito, do sentimento, porque, no resto, ela não tem sido muito útil, não. Hoje, eu posso voar mais alto, mas e a segurança de ter chão na volta? Se eu quiser chão, eu que o construa antes do vôo, porque, depois, neguinha, bau-bau: sou eu comigo mesma, é comigo que eu tenho que resolver; se não tiver chão, haja perna na aterrissagem.

Falo isso sem mágoa, apenas constatando o que todos os filósofos trataram de escrever, na tentativa de alertar os românticos como eu: pega leve na busca, liberdade demais é solidão na certa. Se bem que, livre ou não, todo ser humano é só na sua dor mais profunda e no seu prazer mais incrível. A diferença é que, sem liberdade, a gente desconhece o que incomoda. E não sabe que nunca ninguém sentirá o que nós sentimos, e que é isso o que faz de nós seres tão singulares, pra usar uma palavra mais simpática.

A única liberdade feliz, que libera a esperança e sorri para os dias é a liberdade do destino. Eu sei que cito Nietzsche demais, mas fiquem com esse trecho e me digam se ele não merece mesmo todas as citações:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência’ - [...] Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!’” (Friedrich Nietzsche, A gaia ciência)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Intensivão infantil

Eram 8 e meia da manhã quando eu senti um beijo na bochecha e ouvi uma voz de mel dizer: bom dia, tia Cácia (assim mesmo, sem o "A" pra ficar mais fácil). Era a Sofia, uma menina meiga de doer e inteligente como quem já sabe que vida é essa. Nove anos de pura leitura e música, metade peixe, metade balança, olhos claros e pensamento falante.

Uma fatia de pão depois, eis que surge o bebê da casa no seu beabá de alegria. Um ano, já dono da terra, criado para ser feliz. Depois do Pedro, chegaram a Ana Lúcia de 2, o Gustavo de 3, a Carina de 4, o Manuel de 6. Pois é, seis crianças na mesma casa. Já seria festão só por causa delas. Por isso, logo, logo, quando a música chegou, aquela reunião virou quase um tsunami. Senta um pouquinho para eu arrumar seu cabelo, não precisa, não, tia, eu ainda vou correr mais. Quem é que segura?

Teve festa também no domingo, dessa vez com a Julinha de 4, o Alan de 8, Tati de 7, Mariana de 6, a Gabriela de 4, Rafaela de 2. Mais 6 pedaços de gente, dessa vez num apartamento ali no reduto judaico da Santa Cecília. Era festa de aniversário do , e teve até quem lustrasse o chão com o vestido enquanto o Kung Fu Panda tentava distrair a galera.

Tive um papo-cabeça sobre o Snoopy com meu sobrinho e achei graça da Julinha tentando falar com as bochechas cheias de salgadinho. Linda, cabelos e olhos escuros, louca pela moto do pai, numa energia que me deu inveja. Juju, vem aqui que eu vou te morder, e não é que ela vinha? Sentava no colo e esperava o apertão, fofa.
Adoro criança assim, de bem com a vida, que vai lá e suja a bermuda, ri alto e mancha a boca de suco. Come cenoura fazendo careta, de olho no brigadeiro de sobremesa. Tem malandragem, tem vontade, parece esponjinha, lembra até daquilo que não gosta. Sabe falar, sim, e direitinho, sem tatibitati, mas fala feito gente pequena, sorri sem o dente da frente, abraça quase derrubando, agradece com os olhos, beija molhando o rosto da gente.
Mas, o que eu amo mesmo é quando elas têm personalidade, e a gente consegue se afinar não porque sejam bonequinhas, mas porque aquele jeito é delas e não miniatura dos pais. Alguém já te perguntou por que herói é ídolo e heroína é droga? Pois é... e essa é uma das fáceis. Nessas horas, eu me lembro da Mafalda que diz que "adulto, quando não sabe o que responder, sempre põe uma cegonha no meio". Né?

domingo, 7 de setembro de 2008

Alimento de águia

Tem coisa que eu não entendo nessa vida. E achei graça quando ouvi hoje duas senhoras muito simples dizendo "a gente nunca sabe nada". A gente não entende e nunca sabe certas coisas mesmo!

Desde muito menina sempre tive uma sensibilidade exacerbada, coisa de incomodar mesmo. Não sei se chamo de intuição, de lembrança de outros tempos ou de lembrança genética. O fato é que eu tinha algumas informações e não sabia (e nem sei ainda) de onde elas vinham.

Isso trouxe muita solidão e medo para aquela guria magrinha, de cabelo comprido. Trouxe mais ainda na adolescência, imagine, como se não bastasse todos os hormônios explodindo, ainda tinha essa história.

Mas, acho que pior mesmo é quando se é adulto e precisa lidar com essa sensação com maturidade e "equilíbrio". Aff, não há nada de tranquilo em sentimentos de pavor evaporando! A única saída é administrá-los, a pergunta é "como?". Não, não dá, não é possível.

Mas, um caminho, descoberto outro dia, é deixar-se alimentar pelo outro que, sem saber, vai recheando o coração de segurança, permanência e cuidado. Gente, por que a gente demora tanto para aceitar ajuda?

Ainda essa semana escrevi sobre cuidado e sobre adoecer. Pois é, de novo, a gente adoece sem cuidado, mas se aquece no carinho que recebe. E tem uma coisa interessante nisso tudo: aprender a pedir (e não só a receber passivamente), aprender a mostrar a vulnerabilidade sem a angústia de assustar o outro. Se o outro se assustar com a fragilidade que está ali, paciência. Agora, se ele continuar e beijar aquele coração dolorido, supresa!!! Surpresa que levanta, diminui o tempo da febre e ajuda a curar, sim, senhor.

É, tem coisa que eu nunca vou entender. Mas, enfim, a gente precisa saber de tudo??? Acho que não... porque, como eu ouvi por aí, "para nós, os solitários, águias deverão trazer alimento em seus bicos! E, como fortes ventos, queremos viver acima deles [dos canalhas], vizinhos das águias, vizinhos da neve, vizinhos do sol: assim vivem os ventos fortes. E tal como o vento forte, quero algum dia, soprar no meio deles e, com o meu espírito, tirar o respiro ao seu corpo: assim quer meu futuro" (Nietzsche).

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O pequeno grande


Reverter uma situação e transformá-la requer apenas um gesto, iniciativa e compaixão.


Um belíssimo exemplo de como fazer a diferença:


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sopa, cobertor e água fresca.


Pois bem, eu estive ausente por alguns dias, era trabalho demais, e tão exaustivo que resolvi pegar um resfriado só para dar uma pausa. Durante esse período, comecei alguns textos e estão todos aqui, salvos, feito rascunho. Qualquer hora, virarão post, é só o tempo de retomar aqueles sentimentos. Hoje, me deu vontade de falar sobre cuidar e ser cuidado.

A gente vive uma era de frenesi angustiante, high speed total, chat, tsunami no além que nos afeta aqui. Informação, então, nem se fala, parece que estamos desatualizados o tempo inteiro, nunca clicamos o suficiente, nem ouvimos, nem assistimos a tudo.

O telefone toca e mal nos perguntam como estamos, que voz é essa, precisa de alguma coisa, quer eu ligue depois? Do outro lado, o que tem é só a necessidade do outro, uma urgência do trabalho ou da família, um recado rápido; raramente uma vontade de só papear. Faz falta, não faz?

Era tão bom conversar, jogar conversa fora mesmo (de fora não tinha nada, ficava tudo bem guardado, quentinho no peito), ao vivo (vendo ou só ouvindo), mas com uma pessoa viva, interessada, usando o tempo dela para dedicar àquilo que era amizade.

Eu fico pensando por quanto tempo mais vamos suportar viver essa vida tão mutuamente descuidada, mais interessada na foto no msn do que permitir que alguém entre na nossa vida de verdade, para o que der e vier, no momento bom, de alegria, e também naqueles tristes e doentes.

Estou tentando marcar um encontro com duas amigas de praias distintas que não vejo há um tempão e nenhuma das três consegue organizar as agendas para a coisa acontecer. O que é isso, gente...?

A minha teoria e de toda trupe junguiana, holística e etc, é que adoecemos para pedir um tempo, desacelerar um pouco, para ter essa permissão, esse direito. Adoecer é um pedido do coração, mas, como nem sempre entendemos o que ele quer, o corpo dá um jeito de avisar. Avisa com resfriado, avisa com tosse, avisa com dor. Avisa. Se não dermos atenção, ele faz que melhora e piora com força lá na frente. Vem quebrando tudo, deixa de cama, fica febril, cansado, problema na coluna, até cirurgia tem que fazer, coitado, quando o dono da matéria é surdo e cego de pedra.

Bom mesmo é quando, ao primeiro sinal de fragilidade, paramos para atender e, melhor ainda, alguém pára conosco. Aí é uma delícia, o corpo recupera o viço, dá fome, vontade de abrir a janela. Ser cuidado é a melhor sensação dessa vida. Acho que não tem nada que recupere mais rápido do que carinho, sopa, cafuné, cobertor puxado nas costas para garantir que a friagem não incomode. Pensa, gente, tem coisa mais gostosa no auge do dengo da gripe? Não tem, não.

Mas, aí eu pergunto: pra que esperar ficar doente para cuidar? Cuidar de si e do outro só quando fica doente? Que mania de criar tempo só quando tem coisa grave acontecendo! Visitar amigo quando ele está convalescendo, ok; pra bater papo, não dá, trabalho demais, tem academia pra ir, e-mails para responder, blog para atualizar. Ô...

Por isso que eu digo no meu perfil que eu tenho sorte: ultimamente, eu tenho aprendido essas histórias com amor. Por mais que eu me esforce para ficar na dor (eu ainda não larguei de vez esse vício), a vida tem me premiado com muita gentileza, cuidados, mesmo quando eu estou naquela fase árida de olhar só para a casca dos dias.

Como canta Tom Jobim no CD que eu acabei de ganhar:

"Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
E a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou."

Doença é tristeza da alma. E quem ama, cuida para a alegria do outro voltar. Mas, não há que se preocupar, achando que a única função será só cuidar dos amados pelo resto da vida. Quando a gente cuida com amor, o cuidado volta. Com mais amor ainda.
Vai uma sopinha aí?