sábado, 24 de janeiro de 2009

Maravilhosa gratidão


Ontem eu ouvi a história de um menino que aos três anos de idade fez um transplante de coração. José, hoje, tem 9 anos e tem plena consciência da gratidão eterna que guardará a quem lhe doou o órgão mais importante do seu corpo.

Entretanto, mesmo sendo grato a um estranho, é provável que José não se lembre de agradecer aos seus pais por terem eles lutado por sua vida, procurado ajuda, acreditarem na doação, ficarem na fila do transplante, torcido, alimentarem-no, amado-o todos os dias. Talvez ele ache que seus pais fizeram o que tinha que ser feito, era natural, quase uma obrigação.

A verdade é que cada fralda trocada quando bebê, o leite, a luz que clareava (e clareia) o quarto de José, a roupa, tudo é motivo de gratidão. Infelizmente, pode ser que ao crescer ele se esqueça inclusive do coração doado. Pode ser que ele seja como a maioria de nós que olha mais para aquilo que não tem do que para aquilo que tem.

Pode ser que José, ao entrar na adolescência, comece a prestar mais atenção no tênis do amigo, na casa do vizinho, nos carros importados pelas avenidas e menos no carinho que recebe em casa e nos valores que lhe foram caros desde que nasceu. Pode ser que ele fique rebelde se por ventura não puder comprar todos os joguinhos que a molecada toda gosta. Pode ser que ele lamente ter nascido numa família menos privilegiada, e que ache, até, que ter recebido aquele coração foi uma bobagem, que o melhor era ter morrido mesmo, já que a vida é tão "ingrata". Pode ser.

Mas, eu vou torcer para que esse menino seja diferente, seja maior do que a mídia e o shopping . Que seja um jovem grato pelo que tem e pelas possibilidades que lhe aguardam. E que as use, não as desperdice, nem as banalize. Que seja homem, que seja adulto, que traga a beleza da verdade.

Num mundo tão cheio de desigualdades, é muito fácil perder-se em lamúrias ao olhar apenas para a aparente felicidade e plenitude alheias. Todo mundo esconde uma dor, e o fato dela não ser a mesma que a minha não quer dizer que não seja tão sofrida quanto. A Lady Di quando casou com o Príncipe Charles levantou suspiros e inveja de muita gente mediante tamanha perfeição. Bom, basta saber o resto da história para que ninguém mais a inveje. Aceitar quem somos não quer dizer que permaneceremos como somos, mas é o primeiro passo para a felicidade.

A todos os Josés (mesmo aos que não precisaram de transplante), a todos os insatisfeitos, aos deprimidos e inconformados: "todos ganham presentes, mas nem todos abrem o pacote" (Nei Ferrarini).

"A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela torna a negação em aceitação, caos em ordem, confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã." (Melody Beattie )

ps: essa foto linda não é do José.

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