sábado, 4 de outubro de 2008

Cruzamentos, paralelas e outras vias

Outro dia, eu pensava no quanto algumas pessoas estão mais preparadas para a independência do que outras. No quanto algumas amadurecem, encontram-se, enquanto outras ainda vivem no modelo angustiante de dependência, deixando sua alegria ou tristeza em mãos alheias que, com certeza, nem querem essa responsabilidade.

Tem gente que ainda acha solitário tomar conta da própria vida. Surpresa: quem depende é que vive solitário, mas não sabe, ou disfarça. Por isso, tanta gente consume tanto, se rodeia de gente que nem sabe se gosta, só para ocupar um vazio que sempre estará lá se ele próprio não preencher.

Nesse meio tempo, eu falava com o meu irmão caçula que eu, realmente, por mais que queira estar junto a alguém, prefiro ficar sozinha se a relação não for boa, produtiva, ou, pelo menos, sadia. Relacionamentos doentios, que só subtraem, são como uma roupa que não me serve mais: não uso, não quero mais.

Aí aconteceu a sincronicidade junguiana que eu adoro (Jung já fala dela há décadas e ainda tem gente que acredita em coincidência): uma amiga querida me enviou uma mensagem do Flávio Gikovate, psiquiatra há mais de 40 anos, estudioso do amor e das relações humanas. Aquele mesmo que abalou o romantismo dizendo, em sua entrevista à Veja, que "os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que 'é impossível ser feliz sozinho'. Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos".

O texto que recebi do Gikovate fala mais ou menos sobre isso, mas do lado avesso e com um pouco mais de poesia. Fala sobre a individualidade conquistada numa época em que tudo mudou e que, portanto, nada mais coerente do que as relações mudarem também.

Bom, eu, como boa romântica que sou, concordo plenamente com ele, só acho que "romântico" não deveria ser a palavra usada pelo dr. Gikovate. Talvez, ele devesse usar "infantilidade". É claro que, aí, muita gente não se auto-encaixaria nesse conceito, o povo acha que infantilidade é coisa de criança ou de irresponsáveis (vulgo vagabundos, quem não gosta de trabalhar ou estudar).

Segundo o Houaiss, romântico é "quem evoca as atitudes e temas caros como a sensibilidade, a exaltação, o devaneio. Diz-se de quem, nas idéias, no caráter ou no temperamento, revela algo de cavalheiresco, de apaixonado, de nobre, que o eleva acima da realidade prosaica e cotidiana. Lírico, poético; exaltado, arrebatado, apaixonado". E, vamos combinar, isso tudo é maravilhoso. Não tem nada de dependência, nem de imaturo, nem de sofrimento provocado por fantasias de perfeição.

Apesar de discordar na denominação, dr. Gikovate está coberto de razão. E, muito embora ele esteja na mídia como moderno e inovador em suas idéias, Freud, Jung, Nietzche e toma gama de pensadores já anunciavam a necessidade de integrar-se em si mesmo como único caminho para a eudaimonia, conceito filosófico de felicidade.

No entanto, tudo isso é só conceito se não for experimentado além livros. E não tem regra, nem cartilha, que ensine a vivenciar esse filme. Em lugar nenhum desse vasto mundão será possível encontrar uma trilha única para todo mundo. Caminhos são sempre individuais, mesmo quando em companhia de família, amigos ou do amor da vida. Se eu pudesse registrar uma única dica, eu diria: jogue-se, arrisque, desamarre-se, mesmo com medo. É bem difícil no começo. No meio também. Mas, em algum lugar deve melhorar. Quando chegar nele, dançar será muito melhor.

"Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der". (Jung)

Um comentário:

Dri Paiva disse...

Acacia

sempre leio seu blog, é bom demais! Aceite minha sugestão: escreva um livro urgente!

bjokas