quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Bailarico noturno

Pensar na vida é um risco toda vez. Eita viagem que não cansa. Numa dessas, eu elucubrei um bocado, dancei balés distraídos, me confundi. E cheguei ao seguinte debate: se fôssemos vender a vida a um objeto, a uma gota (ou pinça, borboleta, whatever) quais seriam nossos argumentos para convencer o provável comprador?

O que diríamos a respeito do nascimento, dos anos, da escola, do crescimento? Falaríamos dos pais, do avós e tios, dos irmãos, amigos, lugares, saudades? Desentendimentos? Viravoltas? Comentaríamos das possibilidades infinitas a serem construídas dia-a-dia ou do destino como um pacote fechado, adquirido com antecedência e garantido pelo acordo pré-nascimento?

Venderíamos a certeza de momentos felizes e escreveríamos as dores em letras miúdas? Ou seríamos éticos e diríamos com naturalidade para não assustar "olha, vai acontecer uma dor aqui e outra acolá, e, às vezes, fases inteiras de tristeza"? Seriam como efeitos colateriais ou defeitos de fábrica? Haveria troca? Depois de quanto tempo?

Contaríamos das cores, dos cheiros, das formas, das sensações? Com quais palavras explicaríamos um abraço? Como diríamos o que é ser cuidado, que cuidar a gente vai aprender hora menos hora, que febres chegarão, solidão também, paciência, viço, TPM? Plagiriaríamos Sartre ao dizer que "somos todos frágeis, que o sol formiga nas folhas das castanheiras, que a chuva de sol desce pela fronte, que ler na rede é felicidade"?

Facilitaríamos a escolha entre os sexos, explicando as vantagens de um e de outro? Haveria um sexo mais caro do que outro? Faríamos desconto por algum motivo? Qual motivo? Parcelaríamos? E se houvesse inadimplência? Ou a vida não teria preço, teria, sim, uma taxa eterna e diária a ser paga? Teria garantia?

Poderíamos responder qual o principal sentido que nos inspira todos os dias a levantar e repetir os hábitos, os pensamentos, ações? E a nossa intenção em tudo isso? Saberíamos dizer o que esperamos dos anos que passam, dos relacionamentos, da educação, da polidez, do banho, da chuva? Por que ir à praia?

E, por fim, se nada convencesse o nosso ouvinte, que cartada final usaríamos? Que principal argumento ofereceríamos como irrefutável? Nossas próprias motivações?

Há uma música linda do Luís Ramalho, que se chama Foi Deus que fez você. Embora eu não acredite que a criação tenha acontecido assim, a letra resume docemente a razão da vida. Está lá embaixo, no último trechinho:

"Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas
Fez também o seresteiro para conversar com elas
Fez a lua que prateia minha estrada de sorrisos
E a serpente que expulsou mais de um milhão do paraíso
Foi Deus quem fez você
Foi Deus que fez o amor
Fez nascer a eternidade num momento de carinho
Fez até o anonimato dos afetos escondidos
E a saudade dos amores que já foram destruídos
Foi Deus
Foi Deus que fez o vento

Que sopra os teus cabelos
Foi Deus quem fez o orvalho
Que molha o teu olhar, teu olhar
Foi Deus que fez as noites
E o violão plangente
Foi Deus que fez a gente
Somente para amar, só para amar."

2 comentários:

marcelo barabani disse...

vc deveria ganhar a vida escrevendo...

Deborah Huff disse...

Oi Cáaaaaaaa
achei linda a letra desta música, não conhecia. O melhor de tudo é que enviei esta letra pro Rodrigo e ele adorou, disse que eu tenho muito bom gosto, hahahahaha. Fiquei bem quietinha, rs
Bjks