sábado, 20 de fevereiro de 2010

Eternos


É engraçado olhar a vida como quem assiste a um filme. Olhar a nossa, olhar a de quem se ama, olhar ao redor. Em todas as pessoas e coisas a gente enxerga amor e tempo, e tudo o mais que permeia essas duas fontes de permanente desafio, inclusive o perdão (!) e a liberdade. Há qualquer outra coisa mais intrigante do que essas duas? Toda alegria e sofrimento, todo encanto, toda experiência, tudo que se aprende, tudo que se abala, de onde se nasce, quando se morre.

Dizem que o tempo cura tudo, e, quando se fala assim, certamente se fala da chaga de um amor perdido (um filho que se foi antes dos pais, pais que se foram cedo demais, irmãos levados acidentalmente, um coração partido). Não sei se o tempo cura todas as feridas mesmo. Acho que cura às vezes, em outras anestesia. O fato é que o tempo sempre traz uma curiosa sensação de superação ou, para aqueles que não superam, a eterna amargura do arrependimento.

Ontem conheci um trecho do Tocaia Grande, de Jorge Amado, que diz: "Ai, meu branco, tua preta está cumprindo pena, tu me condenaste, não tenho paz. Para que me queres pesando em teu costado? Liberta minha morte e guarda em teu coração minha lembrança viva". Com isso fiquei pensando que o tempo que traz morte e lembrança (talvez aí a condenação), também traz libertação. Mas, num ponto discordo do livro: jamais é o outro que nos liberta, somos nós que vencemos quando desejamos vencer, que acreditamos merecer e merecemos. Que viramos a página, ganhamos certeza, seguimos.

Uma coisa o tempo não muda: o amar. Não muda. Há quem diga que o amor fica diferente com a experiência, com a maturação que amorna os sentimentos, mas eu jamais acreditarei nisso, jamais. Acredito, sim, que a maioria de nós melhora com o tempo e tudo em nós avança com isso. Passamos a maior compreensão, menos pressa, mais tranquilidade, algum saber do que queremos e do que não precisamos mais. Mas, o amar... o amor... ah, continua o mesmo: chega forte, intenso, apaixonante, vivo, iluminador, contagiante. Denunciador e atrevido, não nos consulta, nem cede às nossas resistências. Antes, nos controla a sua maneira. Ainda bem ;)

É verdade que os primeiros amores são mais terríveis. Inseguros e ciumentos, trazem certa guerra ao nosso coração. Já "aquele" amor traz uma paz delicada - cheia de desejo e de alegria -, que nasce da mesma vontade, da mesma disposição, do caminho juntos. Ouvi outro dia "você me deu esperança" e percebi que havia me completado com ela também: amor vive de esperança, sim, não de esperar; de presente com futuro, nunca do passado. O passado (e olha o tempo aí de novo) serve só para ensinar, jamais para se apegar.

Assim como os minutos que passam, o amor é excessivo, explícito, não se esconde, nem quer, nem pode: grande, não cabe em lugar algum que não seja o coração inchado, no toque impossível de controlar, no beijo que nunca para, no abraço que é mais forte do que a compostura, nos braços e pernas confundidos no lençol, como já diria Chico Buarque.

Assuntos que não se esgotam, permissões que nunca nos são dadas para compreendê-los: a procura se acalma apenas quando encontramos testemunha. E encontrar uma é questão de tempo. E só vale se for por amor, que é a única coisa que vale nessa vida. Eterna e verdadeiramente.

"Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!"

(Elizabeth Barrett Browning)

2 comentários:

Augusto Branco disse...

Ei, mocinha!
- Já estava sentindo falta da minha blogueira predileta.rs
Você não pode sumir,não, guria. Já fiquei viciado em você.rs
- Beijo!!!

Tahiana Andrade disse...

Sim... o amor não muda! Mas se transforma! O amor é a arte de se deixar ser controlado e mesmo assim continuar feliz!

Saudades dos seus posts.

Beijos