quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Falta muito?


Amanhã é feriado, sábado e domingo, Ano Novo
É dia de festa, de saudade, tudo de novo
Pode chover, pode gear
Cair o mundo
Pode a terra até tremer
E vai tremer

Amanhã é dia de amor
Reencontro, comemoração,
aniversário
Deixa a manhã chegar
A tarde cair, a hora derramar
O mundo todo vai silenciar
A banda vai parar
pra assistir o tempo parar

E assim, feito adolescente apaixonada,
Eu vou tentando rimas, buscando palavras
Sabendo que feliz é encontrar
sem combinar mesmo
O teu abraço de pastor
Tuas mãos de senhor
Teu peito de amor
E a tua boca de vampiro

Amanhã é dia 30 de outubro
Feriado
E estaremos fechados em nós
Esquecidos do mundo

Falta muito para chegar amanhã?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Bailarico noturno

Pensar na vida é um risco toda vez. Eita viagem que não cansa. Numa dessas, eu elucubrei um bocado, dancei balés distraídos, me confundi. E cheguei ao seguinte debate: se fôssemos vender a vida a um objeto, a uma gota (ou pinça, borboleta, whatever) quais seriam nossos argumentos para convencer o provável comprador?

O que diríamos a respeito do nascimento, dos anos, da escola, do crescimento? Falaríamos dos pais, do avós e tios, dos irmãos, amigos, lugares, saudades? Desentendimentos? Viravoltas? Comentaríamos das possibilidades infinitas a serem construídas dia-a-dia ou do destino como um pacote fechado, adquirido com antecedência e garantido pelo acordo pré-nascimento?

Venderíamos a certeza de momentos felizes e escreveríamos as dores em letras miúdas? Ou seríamos éticos e diríamos com naturalidade para não assustar "olha, vai acontecer uma dor aqui e outra acolá, e, às vezes, fases inteiras de tristeza"? Seriam como efeitos colateriais ou defeitos de fábrica? Haveria troca? Depois de quanto tempo?

Contaríamos das cores, dos cheiros, das formas, das sensações? Com quais palavras explicaríamos um abraço? Como diríamos o que é ser cuidado, que cuidar a gente vai aprender hora menos hora, que febres chegarão, solidão também, paciência, viço, TPM? Plagiriaríamos Sartre ao dizer que "somos todos frágeis, que o sol formiga nas folhas das castanheiras, que a chuva de sol desce pela fronte, que ler na rede é felicidade"?

Facilitaríamos a escolha entre os sexos, explicando as vantagens de um e de outro? Haveria um sexo mais caro do que outro? Faríamos desconto por algum motivo? Qual motivo? Parcelaríamos? E se houvesse inadimplência? Ou a vida não teria preço, teria, sim, uma taxa eterna e diária a ser paga? Teria garantia?

Poderíamos responder qual o principal sentido que nos inspira todos os dias a levantar e repetir os hábitos, os pensamentos, ações? E a nossa intenção em tudo isso? Saberíamos dizer o que esperamos dos anos que passam, dos relacionamentos, da educação, da polidez, do banho, da chuva? Por que ir à praia?

E, por fim, se nada convencesse o nosso ouvinte, que cartada final usaríamos? Que principal argumento ofereceríamos como irrefutável? Nossas próprias motivações?

Há uma música linda do Luís Ramalho, que se chama Foi Deus que fez você. Embora eu não acredite que a criação tenha acontecido assim, a letra resume docemente a razão da vida. Está lá embaixo, no último trechinho:

"Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas
Fez também o seresteiro para conversar com elas
Fez a lua que prateia minha estrada de sorrisos
E a serpente que expulsou mais de um milhão do paraíso
Foi Deus quem fez você
Foi Deus que fez o amor
Fez nascer a eternidade num momento de carinho
Fez até o anonimato dos afetos escondidos
E a saudade dos amores que já foram destruídos
Foi Deus
Foi Deus que fez o vento

Que sopra os teus cabelos
Foi Deus quem fez o orvalho
Que molha o teu olhar, teu olhar
Foi Deus que fez as noites
E o violão plangente
Foi Deus que fez a gente
Somente para amar, só para amar."

sábado, 25 de outubro de 2008

Esses moços


Hoje, uma amiga me contava quão triste ela estava por causa do namorado. Entrou em detalhes da história deles, mas, basicamente, me dizia que o problema era ele, que ele isso e aquilo. Difícil ter o que dizer numa horas dessas porque a pessoa está lá, fragilizada, querendo só ouvir que tudo vai dar certo. E ainda tem que ser um "tudo vai dar certo" com conteúdo, embasado na vontade genuína de ajudar, senão, não rola, ao invés de ajudar, a gente piora.

Minha maior dificuldade em momentos como esse é que eu realmente acredito que cada história seja única, que verdades são individuais e empíricas, como escrevi outro dia. Por isso, tomo todo o cuidado do mundo antes de "aconselhar" alguma coisa baseada em experiência minha. Prefiro ouvir mesmo e, se possível, fazer com que a pessoa se ouça e, por si só, perceba e melhore.

Entretanto, essa nossa conversa me fez pensar a respeito do universo masculino e suas relações conosco, mulheres. Aí, sem pretender ditar lei alguma, resolvi dividir com vocês as poucas verdades que conheço sobre o assunto, algumas presenciadas, outras observadas e, a maioria, vividas com os meus 50% que todo relacinamento exige.

Vou seguir por tópicos para ficar mais fácil de identificá-las, mas não há ordem de importância: fui lembrando e escrevendo. Se algum espécime do sexo masculino se sentir no dever de refutá-las, fique à vontade, apenas tenha em mente que não tenho intenção de catequizar criatura alguma e que, portanto, não precisa tentar me convencer de nada também. No final das contas, seremos sempre amantes um do outro apesar e, principalmente, por causa de todas as nossas diferenças.

1. com raríssimas exceções, homens amadurecem mais tarde do que as mulheres mesmo. Às vezes, 40, 50 anos mais tarde;

2. homens só conseguem ser amigo de mulher se ela não for atraente. E dizer "mas fulana tem um rosto lindo e eu sou só amigo dela" não vale. "Rosto lindo" quer dizer "mas, é obesa", e, claro, aí não rola mesmo;

3. assim como nós mulheres, homens são inseguros vez por outra. Respeitemos, sem pirraça, sem tripudiar;

4. homens lavam a louça no começo, arrumam a cama para fazer um charme. Depois de um tempo, a conta acaba sendo nossa, a menos que a gente reeduque de verdade. Sabe como é, mãe acostuma mal os filhos, são as primeiras a torná-los preguiçosos;

5. e por falar em mãe, os melhores homens são aqueles que nossas mães adoram. Quando a mãe não for com a cara do dito cujo é melhor reparar com calma: mãe tem olho clínico e sabe quando a coisa não dará certo. Isso não quer dizer que o sujeito seja malvado, só que vocês juntos não serão bons um para o outro;

6. seduza seu homem sempre, enquanto o amar e enquanto o quiser, não só no começo da relação. Porque senão, um dia, ele vai esquecer que você é sedutora, e você também esquecerá;

7. homem enlouquece com mulher que tem vida própria. Os mais infantis chamam isso de ciúme e agem possessivamente. Os mais maduros se encantam e tratam de ficar mais perto para fazer parte daquela vida;

8. testosterona é hormônio predominantemente masculino, nunca duvide. Portanto, cultive muito a sua própria libido;

9. homem, quando está interessado, procura. Essa história de achar que ele perdeu seu telefone e que, por isso, não te ligou, é pura tolice. Não perca seu tempo confabulando desculpas;

10. aliás, exercendo meu lado sexista, eu tenho que dizer: homens são caçadores, mesmo, mesmo. Caçar os mantém excitados, alertas, produtivos. Meninas, dêem um tantinho de trabalho (no bom sentido);

11. celulite é encanação feminina. Desde que não seja de nível 3 (ai!), os homens não dão nem 10% da importância que a gente dá;

12. vale aqui o ditado (meio chulo, mas verdadeiro): homem adora mulher que é uma dama na rua e uma... "libertina" na cama;

13. homem chora. E, quando confia, chora na sua frente;

14. bobagem dizer que homem só respeita quem se respeita. Todo mundo só respeita quem se respeita;

15. eles podem ser mais práticos, mas também têm bom gosto e reparam na nossa delicadeza e dedicação, NUNCA esqueçam disso;

16. nenhum homem, aliás, ninguém é responsável pela nossa felicidade e bem-estar;

17. os homens não são todos iguais! A gente é que atrai os mesmos relacionamentos até decidir não querer mais;

18. tem muito ainda, mas, vou parando por aqui com mais uma coisinha: se você quer que seu namorado, marido ou ficante mude... talvez, quem deve mudar é você.

Canta Vinícius:

"E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois"




terça-feira, 21 de outubro de 2008

A caminhada Parte II


Eu sempre fui curiosa com essa história de vida, destino, carma, etc. Estudei um bocado algumas religiões, frequentei Gnose um tempão, fiz terapia junguiana, Path Work (**), meditação, me reconheci budista e comecei psicanálise.

Sou adepta há 13 anos da corrida, já joguei tênis, nadei muito, adoro bike. Minhas procuras por respostas são as mais diversas, procuro na mente e no corpo, minha curiosidade nunca passou. Deve estar na minha genética: sou filha de geminiana, aquele signo cheio de inquietação, indisciplina e natural inconformismo. Além, claro, de ter Aquário (ô coisinha que pensa) no meu ascendente e Escorpião (bicho profundo) na minha lua. Para completar, Sol em Touro, que não desiste nunca.

Algumas dessas vertentes de estudo dizem que todos nós nascemos completos, iluminados e perfeitos. E que, ao crescer fisicamente, vamos decrescendo espiritual e emocionalmente. A grande busca é, portanto, o caminho de volta, unir as pontas da serpente (boca e cauda), encaixar o coração no lugar da alma, resgatar a confiança, banhar-se até a brancura de Omo.

Foi hoje que me dei conta de que todo esse meu trabalho é porque eu acredito plenamente nisso e quero voltar. Quero chegar na minha casa, ao meu centro, àquela paz que advém do descanso merecido. A gente corre tanto, vive tão preocupado com a chuva, o calor excessivo, o lixo, o barulho, o vizinho, o Lindenberg, que até se esquece que o propósito dessa vida é abraçar, deitar a cabeça no peito de quem se ama, conversar, tomar suco, andar no parque.

Eu sei que tem gente pensando que, dessa vez, eu pirei no romantismo, mas não é verdade. Basta ligar a TV e ver 10.000 pessoas no enterro de uma desconhecida para ter certeza de que o povo perdeu o rumo (fiquei abismada ontem quando vi no telejornal uma pessoa querendo fotografar o caixão da garota Eloá. Gente, o que é isso???). O que eu digo, solamente, é que é preciso parar com esse conformismo disfarçado de frenesi, a resignação travestida de tumulto, esse barulho, essa carroça vazia, e voltar ao que interessa na vida, caminhar na trilha que importa.

Não existe lugar pior do que a metade, mas tem muita gente se acostumando com 1/5 mesmo. Dá menos trabalho, pelo menos por enquanto. Depois... ah, deixa depois para depois.

Se engana quem pensa que há lamento no meu discurso. É só uma bandeira, gente, um compromisso de chafurdar sempre, no amor e na dor, como se diz por aí.

"Here is my song for the asking
Ask me and I will play
So sweetly, I’ll make you smile
This is my tune for the taking
Take it, donÂ’t turn away
I’ve been waiting all my life
Thinking it over
I’ve been sad
Thinking it over
I’d be more glad
To change my ways for the asking
Ask me I will play
All the love that I hold inside"

(Song for the asking - Simon & Garfunkel)

** Pathwork é uma disciplina espiritual contemporânea que visa o auto-conhecimento, ensina a auto responsabilidade e busca a transformação pessoal em todos os níveis de consciência. Seu objetivo é nos alinhar com nossa Essência Divina, como meio de acessar o poder, a sabedoria e o amor que são nossa real natureza.

O material do Pathwork, representado por palestras sistematizadas por Eva Pierrakos, ao longo de mais de 20 anos, tem um forte conteúdo psicológico e não mantém nenhum vínculo com qualquer seita ou religião. (http://www.pathworksp.com.br/)


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A caminhada da sapa


Uma vez, eu ouvi "é assim que é, paciência". Confesso que fiquei chocada na época. Acostumada a ter a rédea de muita coisa na minha vida, foi um balde de água fria ouvir que não tenho controle sobre certas coisas. Imagine que pretensão a minha, se até as flores da minha casa independem da minha vontade, que dirá o futuro.

O fato é que eu entendi a frase, mesmo que ela tenha sido dito de uma maneira desagradável, e, na verdade sempre concordei com ela: há que se ter paciência para viver bem. Todo mundo sabe disso. E a gente se morde de raiva por causa disso. Quem é que nunca quis pular no tempo, dar um salto e, como num passe de mágica, ver a vida diferente?

Entretanto, correndo todo o risco do mundo de parecer piegas, nada traz mais sabor à conquista do que o caminho, as curvas todas, os buracos que parecem não ter saída, os degraus gigantes e os nem tanto. Eu tenho certeza de que quem me lê concorda também. A chatice é que a gente esquece disso quando está lá, se arrastando pela montanha sem fim.

Pois trate de lembrar, assim como eu pelejo todos os dias para não esquecer: o que nos engrandece é a superação daquilo que só a gente sabe, vencer naquilo que é mais escondido, ninguém vê, ninguém sabe, só a gente. É isso que me enche de amor e orgulho, perceber que há um avanço dentro de mim, um crescimento que não precisa de aplauso porque o que é uma honra pra mim pode ser desimportante demais para o outro, e tudo bem. Mesmo.

Acho que é por isso que muita gente tem uma auto-estima baixa, ninguém gosta de olhar a superação porque imediatamente enxerga de onde ela vem: de uma fragilidade da qual se envergonha. Por isso, ao invés de empertigar-se, o povo se esconde e se fantasia de super-homem, super-mulher, mega isso e aquilo.

Poucas vezes ouvi alguém falar de suas dificuldades com o coração aberto, sem armas nem armaduras, só para dividir mesmo, falar para o outro que a vida é feita de escadas, braçadas, respiros, suspiros, deleites, lágrimas, alma lavada. Amizade, alguma tristeza, um tanto de alegria. Felicidade, no final das contas. Afinal, tudo isso é felicidade, sim, e repartir é companheirismo, deixar de parecer onipotente, até porque ninguém é mesmo e todo mundo sabe.

Uma amiga, muito fofamente, me disse hoje que eu pareço um livro de pensamentos ambulantes. Para não decepcioná-la, vou terminar com a melhor coisa que já li nessa vida: "para o sapo, o ideal de beleza é a sapa" (e olha que isso é Voltaire).

Beijos

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Nuvens de melancolia

Há dias em que tudo conspira para nos levar a uma viagem. Normalmente, encontrar quem há muito não vemos, rever caminhos antes cotidianos, uma música, um cheiro, um movimento do passado nos induzem a remexer em baldes de água gelada. Dias assim costumam nos encher de melancolia, aquele sentimento de vaga tristeza que favorece a meditação.

Pois bem, o meu dia começou com o encontro, por acaso, com uma pessoa que trabalhou comigo há anos e isso fez alguma coisa ficar pelo meio no meu coração. Foi um tal de "lembra disso, lembra daquilo, fulano está assim, sicrano faz tempo que não vejo". Carinhosa como sempre, a Beth se despediu anotando seus números e e-mail, "não esqueça de me ligar, heim?", e se foi, me deixando com aquela sensação de sei lá o quê.

Para completar, por um desses desatinos inexplicáveis que Freud pode explicar, me confundi nos caminhos e acabei andando por ruas que me levaram a um tempo nem tão longe assim, mas que parece tão distante da minha vida que eu mal me lembro dele. Eu fui olhando de um lado ao outro, reconhecendo algumas casas, admirando a reforma de outras, me surpreendendo com a inexistência de muitas.

É engraçada a sensação de amortecimento. Parece que um tanto foi esquecido, mas, é claro que não foi. Ainda está lá, entristecendo um pouco por vezes, fazendo sorrir em alguma hora, enfim, enriquecendo a vida de memória, nos fazendo perceber que a vida anda, que o tempo recupera. Entretanto, o que realmente cura é olhar para dentro, conhecer essa pessoa com a qual se convive 24 horas por dia, a única no mundo que sabe exatamente suas motivações, as causas, os amores, as esperanças, o medo. A confiança em si é a única força que permanece, que sustenta e alimenta em cada segundo dessa vida.

Tanta coisa passa, tanta gente vem e vai, e o que era sonho se transforma, o real se estabelece e o caminho continua, perenemente, como a única garantia de se alcançar a plenitude da conquista. Afinal, como já nos disse Aldous Huxley, "experiência não é o que nos acontece; mas o que fazemos com o que nos aconteceu ".

São Paulo tem garoa nesse final de tarde, a temperatura caiu, e o vento balança melancólico também. Tem dia em que tudo conspira mesmo. Ainda bem que passa e o dia seguinte chega com outras nuvens, outros ares. Outra alegria.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A humanidade que envergonha


Às vezes, até eu me acho radical. Quando percebo que posso estar exagerando, juro que tento relevar, mas, gente, eu acho um a-b-s-u-r-d-o certas coisas.

Outro dia, 1 milhão e meio de pessoas ficaram sem luz, num bairro aqui de São Paulo, porque um sujeito decidiu chamar a atenção subindo numa torre de anergia. Aí, já viu, para que os bombeiros pudessem salvar o "coitado", a Eletropaulo precisou desligar o fornecimento de luz na região. Isso durou horas. Eu pergunto: é justo?

E, agora, por conta de um namoro rompido, um rapaz mantém em cárcere a namorada e uma amiga há 3 dias. A polícia e a imprensa estão de plantão durante todo esse tempo e eu pergunto de novo: esse mundo de policiais não podiam estar atendendo a outras necessidades? São Paulo é grande demais, há violência por toda parte e, além disso, os policiais civis estão em greve (pois é, está faltando ainda mais segurança nas ruas).

Isso sem falar que, em virtude do isolamento da área, milhares de pessoas estão sem sair de casa, não podem tirar seus carros da garagem, nem sequer comprar pãozinho na padaria. A escola do bairro está sem aula porque a polícia ocupou-a, virou QG. E quem precisa de hospital faz o quê? Me ajudem, eu estou mesmo sendo radical, chata, ou isso é completamente irracional?

E, olha, vou confessar mais ainda: sempre que vejo alguém jogando uma bituca de cigarro na rua, sinto a mesma indignação. Carro parado na calçada, idem. Gente falando alto, sem se importar se incomoda ou não, me agride quase fisicamente. Quem atrasa a vida dos outros, então, nem me fale. Desrespeito me dá urticária, desde o que parece apenas uma distração até os mais abissais, como o desse rapaz de 22 anos e sua namorada de 15.

As pessoas acham que solidariedade é o outro aceitar seus descasos com o próximo e consequentes desastres que decorrem daí. Ou será que um ser que se deixa levar pelo descontrole egoísta acredita, de fato, que não está incomodando ninguém? Vai ver que é pior: ele acha que o povo tem mais é que aceitar mesmo, e daí? Vai encarar?

Eu gostaria de ser mais permissiva, sério, mas isso vai contra demais ao meu jeito de pensar. Só espero que ou eu mude ou a galera tome mais consciência da coletividade. Bom, um excelente começo é votar melhor, dia 26 está aí. Quem sabe, assim, a educação não melhora nesse país?

Como já dizia Paulo Freire, "não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda."

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A história da caminhada que começa com o primeiro passo



Gente, como vocês sabem, há alguns meses deixei a vida de batedora de cartão para fazer meu sangue empreendedor circular novamente. É, eu criei coragem e dei vida à YellowA, empresa que faz aquilo que eu adoro: falar com pessoas e contribuir para o sucesso de seus negócios.

A YellowA ganhou esse nome porque a flor de acácia mais conhecida é amarela, e A de Acácia, claro. Além do mais, eu e o Rodrigo temos uma história super-bonita com esse nome, coisa de começo de paixão que dura até hoje. Para completar, a cor amarela é sinônimo de comunicação no mundinho holístico e é a cor do ouro. Imagine, ganhar dinheiro comunicando... até eu que sou mais boba!

Enfim, após 5 meses de atividade "solo", entrou no ar meu mais querido projeto: o Portal NetBelle. De novo, aqui tem os neurônios sabidos do Rodrigo que me orientou e planejou tudo comigo. Até desenhou, para ficar mais fácil para essa leiga internauta que vos fala.

Quero apresentar, oficialmente, o portal e pedir a visita: www.portalnetbelle.com.br. Opinem, por favor. Se tem uma coisa importante no meu trabalho é a visão de quem assiste, principalmente dos amigos. Assim como a pele azul do modelo dessa foto, o portal está colorido, tem música (podem desativar, se quiser) e está afinadíssimo com as novidades do setor.

Acredito que a maioria sabe que meu ninho é a cosmética profissional, que eu aprendi a amar há bem pouco tempo. Surpresas boas que a vida nos faz.

Pois bem, eu fico aguardando os "uhus" e etc :)

Um grande beijo e obrigada.

domingo, 12 de outubro de 2008

Eu e os meus botões


Engraçado como os recursos mudam, mas as pessoas continuam as mesmas. Outro dia, recebi um "questionário" por e-mail (sabe aqueles que a gente devolve e manda para outros amigos respondendo a cor favorita, melhor filme, melhor momento?). Lembro que, quando eu era adolescente, a meninada escolhia o caderno mais bonito, preenchia com uma pergunta em cada página e dava para os amigos "revelarem" ali seus hobbies e paixões secretas.

Pois bem. Eu fiquei com vontade de fazer isso aqui e de um jeito mais livre, já que não tem ninguém me perguntando nada. É sempre bom dar uma parada para responder algumas coisas a si próprio, entender um gosto, dar contorno, motivo para o jeito de ser. Não por nada, apenas para conhecer. E gostar de saber como a gente é, no detalhe.

Se eu fosse escolher a melhor cidade do mundo para viver, eu diria essa mesma, onde vivo. Foi aqui que eu aprendi quase tudo que sei até hoje;

o que mais ouço ultimamente: Cold Play, Viva la Vida;

o que ouvia antes disso: Carla Bruni, quase tudo;

tem comida melhor do que a de casa?

tem! Quando a gente sai para para comemorar!

não entendo porquê a mulherada insiste em que os homens abaixem a tampa do vaso do banheiro. Por acaso elas não sabem abaixá-la?

a lua é a coisa mais linda do mundo quando está cheia;

não acredito em amor incondicional, pois sempre haverá a condição, mesmo que única, de ser amado de volta. Nem amor de mãe é incondicional. Um dia, ele também cansa se não for correspondido;

por falar em mãe: Mãe, eu te amo;

melhor filme triste: Babel;

até hoje não entendo o que separa as nações, não somos todos do mesmo planeta? Por que preciso de visto para entrar em outra parte da minha casa?

delícia é beber uma garrafa de vinho numa noite de sábado, sem hora para dormir, nem para acordar, sem se importar se já é domingo, esquecer a segunda-feira e dormir feliz;

solidariedade é uma das coisas mais bonitas dessa vida;

a volta por cima também. Sem revanchismo. Só para ser feliz mesmo.

Paris, me aguarde!

minha melhor viagem foi para a África do Sul. Depois, foi para o sul da Bahia, de carro, parando em tudo quanto era praia;

a outra viagem, aquela que a gente faz para dentro, foi para Teresina, há alguns meses;

tenho dois irmãos: Ismar e Franklin, e 4 sobrinhos: Marcela, Marília, Paulinho e a Bia (por ordem de nascimento);

preciso tomar sol! urgentemente, por favor;

o que nos reserva 2009?

decidi fazer um festão no meu próximo aniversário. Podem cobrar;

moro numa vila linda com 9 casas;

quem diz que não se arrepende de nada, nunca viveu de verdade, ou ainda não cresceu;

morno não me apetece;

verdades são individuais e empíricas. Mesmo as universais: se não forem vividas, viram lenda;

sou super-taurina. Com ascendente em Aquário para equilibrar;

nunca acreditei em amizade entre homens e mulheres. Será que ainda dá para mudar de idéia?

o egoísmo é o sentimento mais cruel que existe;

adoro trabalhar. Além de nos prover, é a única maneira de retribuir tudo que a gente recebe. Já pensou em quanta gente trabalhou para se ter papel-higiênico em casa? Milhões, todos o dias, para garantir a fabricação, distribuição, venda, alojamento, transporte, cálculos, departamento diso e daquilo, telemarketing, satélites. Nossa, cansei;

tem uma hora, que tudo o que a gente lê sobre como ser mais feliz fica compreendido e assimilado de verdade;

amar e ser amado é transformador.

"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida." (Drummond)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Navegantes da garoa

"Desveste o coração das plumas e dos pesos da existência

Deste portal em diante só existem paisagens:

os riscos esboçados dos pórticos do olhar

Neles não cabe ciência, sequer filosofia, mas o simples gozo de vagar."

Esse é um poema chamado "Ao Navegante", da Angélica Torres. Tem tanta gente fazendo coisa boa que é um desperdício deixar de olhar, nem que seja por alguns minutos. De alguma forma, essas belezas ficam registradas nos canto da alma e nos socorrem quando precisamos de um pouco de conforto. Ainda mais vivendo aqui, nessa banda cinza do Brasil, em tempos sem sol e sem descanso.

Mesmo com céu fechado e tudo, congelando com os 11º C de ontem e no meio daquele mundaréu de gente da avenida Paulista, eu assisti uma São Paulo maravilhosa. Aqui tem trânsito, barulho, poluição e um tempo que ninguém aguenta. A gente nunca sabe o que vestir: é verão em pleno inverno, inverno na primavera, duas ou até três estações no mesmo dia. Haja saúde. Mas, aqui também tem, e é aí que está a delícia dessa plaga, diversidade, energia, agilidade. Requinte.

A qualquer hora, por onde quer que se olhe, alguém trabalha para nos garantir alguma comodidade: fármácias, cafés, táxis, ônibus, barraquinhas de lanche "express", bancas de jornais, atendimentos virtuais. Isso sem falar no trabalho que ninguém vê, aquele povo que faz a manutenção da vida subterrânea, que garante a limpeza das antenas, dos arranha-céus, e faz a cidade acordar com cara de quem nunca dorme.

São Paulo respira mal, mas garante academia funcionando 24 horas por dia. A cidade pára em congestionamentos de 3 dígitos, mas, nela, voa-se mais do que em NY ou Tóquio: Sampa é a capital mundial de helicópteros. Aqui, na terra da garoa, qualquer um pode comer um hotdog prensando em plena avenida Faria Lima a R$ 1,00. E aqui também é possível gastar, num bom jantar, alguma coisa entre R$ 200,00 e... difícil dizer até onde. Se algumas garrafas de vinho chegam a US$ 50 mil, imagine o restante da conta.

Viver nesse lugar é habituar-se às sirenes, mas, sobretudo é aprender o tempo inteiro. Num mundo de informação incansável, São Paulo não perdoa quem desconhece a modernidade. E faz sofrer quem não procura alternativas boas, baratas e rápidas: a galera padece mesmo em filas e perde um tempo danado se não for antenada. Aprender aqui é garantia de aprender em qualquer lugar. Navegar aqui é garantia de navegar em qualquer lugar.

A paisagem de São Paulo encanta, sim. Aqui cabe ciência, filosofia e também o gozo de vagar.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Cara-pálida

Tem gente curiosa escrevendo sem se identificar :)

Eu acho graça, mas, vamos combinar... seria muito mais adulto e honesto dizer o nome!

A criatura que me escreveu perguntava se, devido ao post em que eu falava sobre contradições, eu sou uma pessoa instável em meus sentimentos.

Ok, respondo: não sou instável em meus sentimentos, eu sou flexível em minhas opiniões e não tenho pudor algum em mudá-las.

Outra coisa: eu namoro, amo de paixão, adoro e admiro demais o homem que está comigo. E é ma-ra-vi-lho-so viver com ele nesse mesmo mundo. Se assim não fosse, melhor seria ficar sozinha, como disse ao meu irmão caçula.

Pois, então, anônimo, sensibilize-se com o texto antes de anunciar-se sem rosto novamente...

Beijo

domingo, 5 de outubro de 2008

Feliz Ano Novo


Pois é, fiquei boquiaberta quando vi panetones e enfeites de Natal à venda, estimativas de aumento na contratação de temporários nesse final de ano no Jornal Nacional, dicas de presentes para os mais organizados. E, para completar, minha tia me perguntou hoje: o que nós vamos fazer no reveillon?

Me dá uma certa angústia pensar que mais um ano acaba. Apesar de ter a sensação de ter vivido 10 anos em 2, ainda acho que o tempo voa, sem dias suficientes para tudo que é preciso e desejado. Confesso que minha maior dificuldade em 2008 tem sido administrar as minhas prioridades, ter fluidez na realização das obrigações e do lazer.

Parece que eu estou sempre devendo alguma coisa, a alguém e a mim mesma: não vejo quem quero com frequência suficiente (família, amigos e todo mundo que é querido), não termino meus trabalhos quando defino prazos até que razoáveis, não me dedico satisfatoriamente a quase nada. Ultimamente, meus únicos hobbies são esse blog que vos fala e dormir (mas, dormir não conta, não é?). Nem as minhas plantas, coitadas, têm tido a merecida atenção que sempre gostei de prestar.

Virei adepta da pecha que sempre condenei: não tenho tempo. Outro dia, fiz até as contas: 24 horas menos 7 de sono, menos 6 pra isso isso, menos tanto para aquilo... Na teoria até funciona, mas, na prática... eu precisaria computar os minutos gastos com aquelas pequenas tarefas, que no final das contas roubam um tempão: lavar louça, tirar o lixo, falar com os vizinhos, arrumar a mesa do café, tirar a mesa do jantar, supermercado, filas, e-mails, educação (é preciso tempo para respeitar as regras da boa convivência), telefonemas, trânsito. Ufa, me dá mais tempo?

Eu me pergunto, às vezes: e aí, vale a pena? Apesar de tudo, acho que sim. Todas essas coisas acabam compondo o cotidiano, que compõem os anos, as décadas, que constroem a vida. Outro dia, eu citei Aristóteles e sua famosa frase sobre a excelência: é preciso repetir alguns hábitos para que eles dêem resultado. Eu só gostaria de estar menos atrasada sempre, de correr menos, de relaxar mais sem a sensação de que deveria estar fazendo alguma coisa. Como assim, relaxar já não é fazer alguma coisa?

Bom, ainda temos 3 meses antes de 2009. Ainda dá tempo de atingir aqueles objetivos de 2007 antes de empurrá-los para o ano que vem com a acomodada desculpa de que "já é final de ano mesmo... deixa para janeiro" (que vira junho, que vira janeiro de novo). Eu me lembro que uma das grandes atitudes da minha vida foi tomada na véspera de um Natal, simplesmente porque eu não podia adiá-la mais, sob o risco de viver mais um ano na mesmice dolorida e indesejada.

Lembrar disso agora, de repente, me fez sorrir e me deixou mais confiante. Eu, realmente, ainda tenho tempo de me surpreender muito nesse finalzinho de 2008... afinal, "para que uma vez mais possamos progredir, precisamos uma vez mais nos deixar dominar pela esperança". (Bertrand Russel)

Tim-tim.

sábado, 4 de outubro de 2008

Cruzamentos, paralelas e outras vias

Outro dia, eu pensava no quanto algumas pessoas estão mais preparadas para a independência do que outras. No quanto algumas amadurecem, encontram-se, enquanto outras ainda vivem no modelo angustiante de dependência, deixando sua alegria ou tristeza em mãos alheias que, com certeza, nem querem essa responsabilidade.

Tem gente que ainda acha solitário tomar conta da própria vida. Surpresa: quem depende é que vive solitário, mas não sabe, ou disfarça. Por isso, tanta gente consume tanto, se rodeia de gente que nem sabe se gosta, só para ocupar um vazio que sempre estará lá se ele próprio não preencher.

Nesse meio tempo, eu falava com o meu irmão caçula que eu, realmente, por mais que queira estar junto a alguém, prefiro ficar sozinha se a relação não for boa, produtiva, ou, pelo menos, sadia. Relacionamentos doentios, que só subtraem, são como uma roupa que não me serve mais: não uso, não quero mais.

Aí aconteceu a sincronicidade junguiana que eu adoro (Jung já fala dela há décadas e ainda tem gente que acredita em coincidência): uma amiga querida me enviou uma mensagem do Flávio Gikovate, psiquiatra há mais de 40 anos, estudioso do amor e das relações humanas. Aquele mesmo que abalou o romantismo dizendo, em sua entrevista à Veja, que "os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que 'é impossível ser feliz sozinho'. Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos".

O texto que recebi do Gikovate fala mais ou menos sobre isso, mas do lado avesso e com um pouco mais de poesia. Fala sobre a individualidade conquistada numa época em que tudo mudou e que, portanto, nada mais coerente do que as relações mudarem também.

Bom, eu, como boa romântica que sou, concordo plenamente com ele, só acho que "romântico" não deveria ser a palavra usada pelo dr. Gikovate. Talvez, ele devesse usar "infantilidade". É claro que, aí, muita gente não se auto-encaixaria nesse conceito, o povo acha que infantilidade é coisa de criança ou de irresponsáveis (vulgo vagabundos, quem não gosta de trabalhar ou estudar).

Segundo o Houaiss, romântico é "quem evoca as atitudes e temas caros como a sensibilidade, a exaltação, o devaneio. Diz-se de quem, nas idéias, no caráter ou no temperamento, revela algo de cavalheiresco, de apaixonado, de nobre, que o eleva acima da realidade prosaica e cotidiana. Lírico, poético; exaltado, arrebatado, apaixonado". E, vamos combinar, isso tudo é maravilhoso. Não tem nada de dependência, nem de imaturo, nem de sofrimento provocado por fantasias de perfeição.

Apesar de discordar na denominação, dr. Gikovate está coberto de razão. E, muito embora ele esteja na mídia como moderno e inovador em suas idéias, Freud, Jung, Nietzche e toma gama de pensadores já anunciavam a necessidade de integrar-se em si mesmo como único caminho para a eudaimonia, conceito filosófico de felicidade.

No entanto, tudo isso é só conceito se não for experimentado além livros. E não tem regra, nem cartilha, que ensine a vivenciar esse filme. Em lugar nenhum desse vasto mundão será possível encontrar uma trilha única para todo mundo. Caminhos são sempre individuais, mesmo quando em companhia de família, amigos ou do amor da vida. Se eu pudesse registrar uma única dica, eu diria: jogue-se, arrisque, desamarre-se, mesmo com medo. É bem difícil no começo. No meio também. Mas, em algum lugar deve melhorar. Quando chegar nele, dançar será muito melhor.

"Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der". (Jung)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Ilusões da ótica de cada um


Uma amiga de muito tempo me disse, algumas vezes, que eu sou um poço de contradições. Ela tem lá suas razões, já enumerou incansavelmente minhas "inconsistências" e eu tive que concordar com parte delas. Eu lembrei disso hoje por conta de uma história acontecida ainda pela manhã, e que eu vou contar pra vocês.

Só para servir como fundo de cena, eu acredito, de verdade, que cada um seja responsável pelos seus próprios atos e que não me cabe interferir na vida alheia, de jeito nenhum. Sou contra até salva-vidas na praia, pra vocês terem uma idéia. Acho o cúmulo o cara se jogar na maré perigosa pra salvar um fulano que, desrespeitando os sinais de perigo, dá uma de super-macho e entra no mar, pondo em risco a vida do coitado que está lá, pedindo pra ninguém cair na água.

Pois bem, hoje, enquanto passava eu pela catraca do metrô, um homem de, aproximadademente, 40 anos, completamente alcoolizado (às 10h da manhã) tentava colocar o bilhete com muita dificuldade para conseguir passar. Já lá embaixo, esperando o trem chegar, vi o homem sentando no chão, muito, mas muito bêbado mesmo. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, cobriu o rosto com as mãos, os olhos fechados, balançando a cabeça, zonzo, zonzo. Um funcionário do metrô ficou bem perto, acho que para cuidar, para que ele não caísse no vão quando quisesse embarcar.

Eu não conseguia desgrudar o olhar daquele homem. Pensei no coração dentro dele, batendo, jorrando sangue para o resto do corpo. Todos os órgãos funcionando, uma vida viva, uma engenharia perfeita sendo desperdiçada pela mente enfraquecida, doente, sem perspectiva alguma de nada. Acho que foi nesse momento que identifiquei em mim esse desejo de "salvar" o outro, tentar fazê-lo enxergar em si a possibilidade de mudança, reagir, sei lá. Acreditar em alguma coisa.

O burlesco foi entender porque aquela cena me causou tanto interesse: eu percebi quanto desperdício eu mesma provoco em minha vida, quantas vezes eu própria apóio meus cotovelos nos joelhos, cubro os olhos, sem querer ver muita coisa, sem reagir, espernear. Teve a contrapartida, também: pensei em quantas coisas mais eu posso fazer se aumentar em, apenas, 10% a minha disposição, o meu gás. Na hora, me passou pela cabeça "ah, não, mas aí eu não terei tempo pra mais nada". Mais nada o que? Mais nada o que, Acácia Maria??? Que loucura é essa, jacaré? Isso é o que significa colocar os carros na frente dos bois: não começar por achar que não vou dar conta.

Aí entra o discurso da minha amiga quando diz que eu confusa: eu quero uma coisa, acredito naquilo e faço outra; digo que sou indiferente mas me emociono até com cachorro olhando pelo portão da rua; falo por aí que não adianta isso e aquilo e, quando vejo, estou lá, chafurdando no desdito. Como ela mesma gosta de dizer, "és toda reservada, mas não tens armários na tua casa, não escondes nada, tuas coisas estão todas à mostra para quem quiser ver". É, Fê, tens razão, fluminense do interior-Riba.

No fundo, acho que tudo é assim mesmo: ora de um jeito, ora de outro. A gente pensa radicalmente de uma maneira, aí troca de lugar, enxerga da perspectiva do outro e, voilá, já escreve outra história. Não vejo contradição nos meus rabiscos, não. O que vejo é essa dança das cadeiras, a tentativa de ver sob outro ângulo, o desejo de mudar de lado, de vez em quando.

"Tudo é impermanente. Tudo que está sujeito ao surgimento está sujeito à cessação", palavras do Buda.

E mais: "a compreensão da impermanência nos proporciona confiança, paz e alegria. A impermanência não conduz obrigatoriamente ao sofrimento. Sem ela, a vida não existiria. Sem a impermanência, sua filha não cresceria e se tornaria uma linda mulher. Sem a impermanência, os regimes políticos opressivos nunca mudariam. Mas nós achamos que a impermanência nos faz sofrer. Não é a impermanência que nos faz sofrer, mas sim o desejo de que as coisas sejam permanentes, quando na verdade não são. (The Heart of the Buddha's Teaching)