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Primeiro o que importa

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Eu conversava com a namorada de um amigo, durante um jantar, quando ela me disse que tinha parado de comer queijo. "É mesmo?", perguntei, completando que adorava queijo. Ela respondeu que adorava também, até descobrir que era o queijo que lhe causava tanta dor de cabeça. Não foi só a médica que disse, não. Ela foi lá experimentar: ficou um tempo sem queijo, voltou a comer e as dores voltaram. Até aí, tudo bem comum: tem muita gente que não pode comer ou beber isso e/ou aquilo. O bacana foi o que veio depois. Ela disse: "achei que fosse sentir falta do queijo porque eu era adorava! Mas, me fazia tão mal que deixei de gostar". Parece óbvio deixar de gostar ou não gostar de algo que nos faz mal, não é? Mas, não é bem assim. Normalmente, o que se vê é o sofrimento que acompanha algo que se gosta muito e não se quer ficar sem, mesmo trazendo prejuízos. Me pergunto sempre: como é que alguém pode manter algo que lhe faz mal? É o caso do alcóolico, do viciado em drogas, do ...

Nobre labutar

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‎"Não é sensato achar que um dia tudo dará certo". Essa frase de Daisaku Ikeda - humanista, escritor e líder budista que este ano se tornou a pessoa com o maior nº de títulos de honoris causa em toda a história (até o fechamento desta, são 300) - não tem nada de pessimista. Antes, ela nos tira do comodismo que nos faz apenas esperar por dias melhores e nos provoca a "fazer" dar certo, com todas as iniciativas, criatividade, sabedoria, coragem e bom senso que todo sucesso guarda. Como toda típica ocidental, vítima da colonização judaico-cristã, cresci acreditando que era "normal" esperar que tudo desse certo. Foi preciso um longo caminho, décadas de insatisfação para que eu enfim compreendesse que a vida de verdade é para os que constroem aquilo que desejam, independentemente de qualquer circunstância ou de quantas vezes precisem recomeçar. A vida, sim, é um espelho mental, uma reprodução daquilo que somos, daquilo que acreditamos, daquilo que sentimos. Eu ...

Paul, moço bonito

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Do show de 1993, eu lembrava de um Paul simpático, bem humorado e, claro, dono de uma musicalidade impecável. Ontem, talvez porque eu própria estivesse mais emocionada e feliz, eu conheci um Paul doce, romântico, como se naquele estádio com mais 64 mil pessoas, ele estivesse na sala de casa, tocando e cantando entre amigos. Paul foi pontual, entrou no palco às 9 e meia. Ele foi o espetáculo por 3 horas ininterruptas: não parou um minuto, nem sob a desculpa de trocar de roupa ou beber água. Foram 3 horas leves e alegres que passaram como minutos. Nenhum efeito pirotécnico para desviar a atenção (a única exceção foram os parcos fogos em "Live and Let Die): o show era o Paul e sua fantástica banda (com louros à parte para o baterista Abe Laboriel Jr.). Aos 68 anos, Paul tem a disposição e encantamento com todo o profissionalismo do mundo. Paul nasceu para a música e para o público. Em alguns momentos, eu tive a nítida impressão de estar vendo o mesmo jovem dos anos 60, com o mesmo so...

Os idos de uma mente em movimento

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Eu nunca fui uma pessoa que suspira pelo passado. Vez por outra ouço alguém desejando voltar no tempo, ser criança outra vez, adolescente, ter 20 anos. Acho esquisito, sempre achei. Até outro dia, eu traduzia minha falta de nostalgia como bloqueio psicológico, um artifício racional que me protegia sabe-se lá do quê. Era nada. A minha falta de apego ao passado é bem mais otimista do que eu podia imaginar. Foi numa manhã dessas, nas raras em que pude acordar absolutamente sem pressa, que me bateu uma profunda gratidão pelo que sinto e tenho na vida: paz, amor, alegria, saúde, oportunidades, esperança. Jamais desisti, mesmo nos maiores cansaços, mesmo quando eu achava que conseguiria desistir. Nunca consegui, sempre continuei. Mesmo quando eu andava quase parando, havia alguma evolução em alguma coisa. Decisão difícil, essa de jamais desistir, acho que a mais difícil ever. Mas, sem ela, a gente para num caminho confuso, sem eira nem beira, sem motivo e sem reação, bem a mercê de uma coi...

Cuidar de si e do futuro

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"Não existe atalho". Essa frase, lida enquanto eu folheava o livro do Michael Jordan, me fez concordar: não existe mesmo. Ansiosos como somos, queremos mais é pegar o caminho mais curto pra tudo na vida, mas não há milagre. Se cortarmos o caminho para evitar alguma coisa ou para chegar mais rápido, a vida vem e nos devolve ao nosso tempo: aprende, filho, aprende senão você não passa pra outra lição. É claro que às vezes, em situações muito, muito difíceis, a gente fica exaurido demais e prefere pular uma página como se isso fosse fazer pular a dor também. É bem provável que, por uma breve fase, o sofrimento seja anestesiado e, no auge da nossa miopia, consideremos que fizemos a melhor escolha. Entretanto, enquanto a nossa memória é frágil, a memória da vida é implacável, tanto para o bom quanto para o nem tanto. Esses atalhos que buscamos normalmente são frutos da razão a que nos impomos, como se racionalizar completamente uma situação fosse nos prevenir de erros. É por isso ...

De tudo, nada se conclui

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"Nem sempre": acho que essa é a frase que mais digo nos últimos anos. "Nem sempre" quer dizer "melhor olhar sob outro ângulo", "melhor ouvir a outra parte", "melhor não julgar pela aparência", "melhor, melhor... melhor entender que, espremendo bem, todos nós somos bem parecidos no final". Assim, portanto, não adianta rotular muita coisa (ou quase nada) e é melhor reparar que, apesar da roupa bonita ou do tipo descolado, tem muita gente sofrendo enquanto reage com soberba. Acho engraçado como a gente vai tendo cada vez menos certezas para algumas coisas e um pouquinho mais (só um pouquinho mais) de certezas a respeito de outras. Normalmente, essas certezas "mais certas" são só sobre o quanto as motivações de cada um podem divergir, mesmo usando os mesmos meios e alcançando os mesmos fins. Conheci uma moça homessexual que tinha tanto preconceito consigo mesma que via preconceito em todos os lugares. E isso acontece n...

Amor e verdade

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Ontem eu ouvi histórias sobre os comentários dos meus sobrinhos, aquelas perguntas embaraçosas que só as crianças sabem fazer no meio do nada. Por essas e outras, a gente sempre acha que as crianças são inteligentes demais porque "pegam as coisas no ar". Por "pegar as coisas no ar" entende-se prestar atenção aos sinais e frases truncados que nós, adultos, "deixamos escapar" de vez em quando. Acredito que um dos maiores dilemas da vida adulta é saber quando e como falar e quando calar. A dúvida nasce do medo da reação do outro, da ruptura que pode acontecer e da contrapartida que poderá vir. Afinal, o que os adultos mais desejam nessa vida é ter controle de tudo. Por conta disso pensamos que perdemos a capacidade de "pegar as coisas no ar". Não perdemos, não, nunca, apenas fingimos e preferimos adiar o que pode ser uma discussão para um ponto tão distante que pode tornar-se irreparável. A dúvida sobre nossa capacidade de falar direito, de maneira ...