segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Felicidade e outras dúvidas




É difícil aceitar tantas diferenças da vida. Dessa dificuldade, e da ignorância do porquê somos e vivemos de maneiras tão distintas, nascem os preconceitos e as idealizações tão constantes em cada pensamento que temos.

Preconceito não é coisa fácil de reconhecer: é preciso prestar muita atenção a cada torcida de nariz quando olhamos alguém que julgamos aquém dos nossos conceitos. A idealização, entretanto, é figurinha constante e se confunde com a inveja (nem que seja "da boa"). A gente dá aquele suspiro e pensa "puxa, por que eu não sou assim?" ou "por que eu não tenho isso?".

Vez por outra, para amenizar nossas crises de inconformismo por não ter uma vida melhor, mais harmoniosa, bonita ou rica, nós resolvemos olhar àquele que nada tem, que é aleijado, miserável, morador das terras de guerra, etc. Parece que dá aquele alívio perceber que, afinal, nossa dor não é tããão grande assim. Podia ser pior. Claro que esse conforto dura pouco, se desgraça alheia fosse boa terapia os programas de TV estavam dando jeito no povo.

Desconsiderando as explicações religiosas para tamanhas desigualdades, inclusive a roda de Samsara (existências após existências), vamos imaginar somente o evento dessa vida, nesse contexto social, nessa época, que já é assunto demais. O exemplo da vez é a Patricinha, que nasceu num lar com pai e mãe, avô, avó, tios, natais com 30 parentes, presentes de aniversário, festa de 15 anos, intercâmbio em Londres, faculdade de Veterinária, consultório próprio, casamento com doutor, filhos que tendem a repetir seus passos. Os problemas de Patricinha são encobertos por mil informações de consumo, por isso, vendo de longe, ela tem a vida de rainha que muita mulher gostaria de ter.

Já Toninho nasceu só de mãe quando a menina tinha 14 anos. Aos 20, já era mãe de 4, coitada. O último "marido" abusou de Toninho, que fugiu de casa, virou menino de rua, dependente de droga, morreu de overdose. Os irmãos viveram mais, mas, foram igualmente infelizes, achando que a vida era aquilo mesmo, paciência.

Entre uma Patricinha e um Toninho, milhões de histórias disputam a gangorra do mais e menos sofrimento, mas, tentar explicar o destino ao nascer é tarefa que envolve dogmas e muita imaginação, afinal, quem é que traz a memória do mundo de lá para contar como é? Sem querer ser simplista com um assunto tão delicado, acho que o negócio é reconhecer a vida que se tem e vivê-la da melhor maneira que quisermos. Mesmo. Sem comparar ou resignar-se. Sem destruir o pouco que se tem ou desperdiçar a sorte que veio sobrando. Não importa tanto saber porquê nascemos nessa ou naquela condição. O importante é conquistar a condição que se quer.

Depois do advento nascimento (de onde veio um certo norte na sina de cada um), todo o mais é resultado daquilo que pensamos, falamos e agimos a partir do momento que tomamos exata consciência da coisa, como bem ensina o Budismo. Tudo, a partir da sorte original, é causa, seja boa ou má, que irá se converter infalivelmente em efeito, bom ou não (o conceito de bom ou mau não traz julgamento moral, mas, sim, o sentimento de felicidade ou sofrimento).

Todos os Toninhos têm escolha. As Patricinhas também, pois sempre é possível uma vida verdadeira. Todos as centenas de milhões entre um e outro podem planejar e realizar a vida que quiserem, desde que saibam aonde se quer chegar, desde que tenham disciplina no caminho, responsabidade consigo e com os outros e, acima de tudo, a estratégia correta e justa. A gente fala o tempo inteiro de força e coragem e parece que a coisa acaba se banalizando, mas, é exatamento isso: há que se ter força e coragem para transformar a vida.

Uma vez, li em algum lugar que "quem oha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta" e eu completo: desperta e realiza. Só despertar também não serve, há que se fazer alguma coisa com isso. E é bobagem usar as aparências como parâmetro. Todo mundo é craque em disfarçar e, quanto mais perfeito algo parece, mais irreal a coisa é.

Viver de verdade, profunda e intensamente, é o que garante a frase que minha amiga Gabi postou no blog dela ontem: “talvez seja utopia, mas se eu não deixar que se embote a minha sensibilidade, quando envelhecer, em vez de estar ressequida eu terei chegado ao máximo exercício de meus afetos”. (Lya Luft)


Só mais uma coisinha: "Troque o não pelo por que não?" (Victor Mirshaawka)

Um comentário:

marcelo barabani disse...

é isso mesmo criatura... vamos nos encontrar depois durante a semana, bjs