segunda-feira, 6 de junho de 2011

Praticar a verdade, de verdade



Eu nunca fui uma pessoa de aceitar autoridade. Liderança, sim, pois parte do bom senso e da admiração, jamais da ditadura. Por causa disso, nunca me senti confortável com chefes ou pessoas que tentam se impor a qualquer preço. Não sigo determinações cegas, nem palavras sem lógica. Gosto de gente com conteúdo inteligente, que saiba argumentar com sabedoria. Sentimentalismos também não funcionam comigo.

A maioria das pessoas aceita certas coisas com mais facilidade. Eu não. A única coisa que aceito com facilidade é a verdade, todo o resto, se misturado a qualquer tipo de mentira, é muito difícil de engolir. Foi por causa dessa minha dificuldade que já afastei muita gente da minha vida. E muita coisa também.

Acredito que estamos vivendo uma era única na nossa sociedade e a tecnologia tem ajudado sobremaneira na mudança que pressinto ser definitiva: as pessoas comuns estão denunciando aquilo que consideram errado. E que ninguém me diga que "certo" e "errado" são subjetivos demais para serem definidos: todo mundo sabe, tem noção, do que é certo e errado.

Hoje mesmo vi pela TV as imagens de um pai chutando um filho caído no chão. O fulano vinha fazendo isso com frequência, impunimente, até que o filho mais velho tomou coragem e filmou pelo celular. Foi parar na Rede Globo. Pois é, anos de violência interrompidos por um gesto tão simples.

Até outro dia, as corrupções políticas eram denunciadas por outro político corrupto que certamente não tinha conseguido atingir um objetivo qualquer. Chantagem que ia parar na mídia, pra logo depois desaparecer, esquecida no meio de tantas outras. Agora, quem começa a denunciar é o povo, com a tal câmerazinha do celular, põe lá no "Youtubiu" pra todo mundo ver. Foi assim que a professorazinha lá do Rio Grande do Norte ganhou nome e voz, e, também, foi parar na Rede Globo. O Sarneyzão teve que voltar atrás no sumiço do impecheament do Collor na "histórica" galeria do planalto. Obra de quem? De alguém que falou.

Um amigo, religioso que só, católico do tipo que a família vai à missa todo domingo e participa das obras da igreja, veio me contar que tinha abandonado tudo aquilo. Motivo? Máfia nas relações com o dinheiro e com o poder. Ele se desiludiu, se afastou. Apesar de não ser católica, eu disse a ele que, se ele pretendia mudar alguma coisa, tinha que estar lá, presente. Foi aí que ele me disse: os corretos são mais fracos porque são poucos. Verdade. Trinta pessoas dizendo que não é bem assim, que você está exagerando e você pensa que está mesmo. E se retira.

Quem vive nesse mundo sabe que precisa lidar com politicagens. E como eu disse lá no comecinho, eu não aprendi direito essa parte. Sendo assim, eu tenho feito um esforço genuíno para lidar com essas situações em que nem os próprios envolvidos percebem que estão enganando: para a maioria desses "pequenos políticos diários", enganar é uma questão de sobrevivência. Tudo por uma pequena posição, um palco, mínimo que seja.

Até onde deveria imperar o bom mocismo há mentira. Órgãos que "ajudam" os mais pobres, ONG's sem fins lucrativos, religiões: onde há a chama do poder ilusório humano, há ganância, "jeitinhos", interesses, confabulações escusas. O que fazer, então? É possível lutar sozinho? É possível confiar que haja mais alguém inteiramente ciente do certo para formar um grupo, nem que seja de dois? Tenho fé que sim. Nossa história tem exemplos belíssimos de pessoas que ajudaram a romper a escuridão de uma era.

E não é pretensão querer ser um deles, pois todos foram também pessoas comuns com um desenho nítido na alma: eram incansáveis. Nós temos sorte, o maior caminho eles já fizeram. As maiores barbaridades já foram apresentadas ao mundo, ninguém mais tem a ilusão de que o homem é o bom selvagem de Rousseau. Ninguém mais tem vergonha de se apresentar como traído, enganado, desde que possa provar que há, em algum momento, uma justiça que não é a humana.

Foi assim que conclui a conversa que tive com uma grande amiga hoje: é preciso falar, falar para quem quiser ouvir. Não importa se muitos se fingirão de surdos. O importante é que os corretos ouçam e formem coro. Uma hora, uma casa cai. Até quem comandou um povo com algemas por décadas caiu, por que, por que não acreditar que é possível vencer comportamentos que já deixaram de ser duvidosos para estamparem que são corruptos?

Bora limpar a garganta e fazer bom uso da palavra: calar é o mesmo que concordar, ser sócio do erro.

Um comentário:

Flávia Camargo disse...

Adoreiii querida, faço suas palavras as minhas.Vamos falar a verdade, não importa quem vai escutar.
bjs e parabéns.
Flávia