quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os magos do castelo



Quando a gente não quer mais uma coisa, ela deixa nosso nível de vida. Tudo uma questão de escolha mesmo ;)

Os Cegos Do Castelo

(Nando Reis)

Eu não quero mais mentir
Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou

Eu não quero mais dormir
De olhos abertos me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou

E se você puder me olhar
E se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar, e de você e de mim

terça-feira, 20 de abril de 2010

Império de Acácia


Nasci tímida, me soltei um pouco depois, vesti máscara de moderninha, voltei careta, mergulhada em tradições e não entendi mais quem eu era. Me julguei "boa e simples", me descobri arrogante e egoísta, pra compreender depois que a Acácia era uma mulher taurina-teimosa que só ia parar de tentar se conhecer quando isso acontecesse de fato.

Conheci o desespero para depois encontrar a gratidão. Vivi a solidão desse mundo pra entender a união e me alegrar com ela. Mergulhei incontáveis vezes no marasmo para aprender a cultivar a novidade sem dispensar a disciplina. Fui. Voltei. Fui e voltei milhares de vezes, mas o retorno era, e é, sempre novo, melhor e mais fortalecedor.

Amadureci um tantinho, mas guardei uma porção criança - infantil e chata às vezes, encantadora e curiosa em outras - descoberta pelo homem com quem vivo hoje, de olhar atento e coração entregue. É, tem coisa na vida que a gente descobre e luta para vencer sozinho, mas há outras que só com o convívio é possível deixar vir à tona e se esbaldar na delícia de desvendar, sob olhar alheio, aquilo que a gente não enxerga porque já se acostumou demais consigo ou porque tem vergonha de admitir, ou porque tem mania de se auto-julgar pior do que é.

Meu aniversário está chegando e há algumas semanas tenho feito uma avaliação sobre como aprendo e sobre o que construo todos os dias. Depois de tanto tempo avaliando em débito minha vida, o saldo que trago hoje é altamente positivo e seguro. No final dessas contas, sim, tenho o maior orgulho de assumir que sou honesta nos meus propósitos, forte no meu desejo de ser feliz, atenta, amiga, companheira. Cri-cri muitas vezes, rigorosa demais, nadica de rasa, nem adianta tentar me enganar que não rola.

É, minha gente, feliz aniversário pra mim. Não é que eu mereço?


PS: A imagem acima é da flor de Acácia Imperial

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O amor é quando a gente mora um no outro


Isso tudo é Mário Quintana:)

OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Músculo cardíaco


Quanto tempo não ando por aqui, saudade! Inspiração não me falta, o que tem faltado é um pouco mais de disciplina, aquela coisa que prezo e preciso tanto, mas que mantenho sob rigorosa atenção pra não perdê-la demais. Deixei escapar um montão de assunto bom nas últimas semanas, fiquei me sentindo em débito com esse meu canto. Coisa de quem é viciado mesmo :)

Uma coisa que falei ontem, entretanto, ficou martelando o pensamento e resolvi parar tudo para escrever sobre: músculo. Eu falava sobre o músculo da ação, da coragem, aquele que na saída da inércia ainda está fraco e frágil, fica dolorido, mas que, treinado, ganha todo dia um pouco mais de força. O contexto da conversa permitia essa analogia e ficou até bem claro. Mas, depois, eu parei pra pensar sobre outro músculo que precisa de igual treinamento: o cardíaco.

A gente vira adolescente sem saber lidar com o 1º amor e vai se virando assim até vários outros entrarem e saírem da nossa vida. Se apaixona, vibra, sofre, chora, se arrepende, decide nunca mais amar, ama de novo, acha que é pra sempre, faz planos, se decepciona, trai, é traído, acaba tudo, se apaixona e começa tudo outra vez.

Como o coração é o último pedaço do corpo a amadurecer, é natural que ele se embanane mesmo. Ainda infantil muitas vezes, esse músculo precisa de muito exercício para fortalecer suas emoções sem endurecer a alma. Tem gente que acha que endurecer resolve a musculatura, mas engane-se not: o que "firma" com saúde é a resistência, não a pele esticada de bomba (portanto, gente, calma com as tranqueiras que fazem um mal danado...).

Mesmo naquela fase da vida que a gente pensa que o coração cansou do exercício, e que o que resta é sublimar o que havia de amor nele, ele dá um jeito e volta a se agitar, bate no fundo, cheio de esperança de novo. E se houve treino sincero e constante antes, sem leviandade, o coração estará todo dia melhor para encontrar outro músculo forte e disposto, certo da entrega, tranquilo de que é assim que vale a pena viver.

Todo mundo que segue esse blog está cansadíssimo de saber que sou romântica. Mas, meu romantismo não é infantil nem utópico. Essa garantia que trago comigo de que só amando vale a pena construir a vida é a minha melhor parte. Como poderia desconsiderá-la, ignorá-la ou rebaixá-la? Pergunte-me quem quiser e eu responderei: amando e sendo amada, estarei sempre feliz, forte, invencível. Mas, se me tiram o amor, verão um corpo flácido, sem vida, caminhando no automático, sem sucesso algum.

Treinar os músculos da vida (coragem, atitude, disposição) é o acordar de todo dia. A gente cresce, come um bifinho pra ficar forte, estuda pra ficar esperto. E precisa, então, amar para brilhar. Já viu um apaixonado sombrio? Existe não.

"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."

(Pablo Neruda)