segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Primeiro o que importa


Eu conversava com a namorada de um amigo, durante um jantar, quando ela me disse que tinha parado de comer queijo. "É mesmo?", perguntei, completando que adorava queijo. Ela respondeu que adorava também, até descobrir que era o queijo que lhe causava tanta dor de cabeça. Não foi só a médica que disse, não. Ela foi lá experimentar: ficou um tempo sem queijo, voltou a comer e as dores voltaram.

Até aí, tudo bem comum: tem muita gente que não pode comer ou beber isso e/ou aquilo. O bacana foi o que veio depois. Ela disse: "achei que fosse sentir falta do queijo porque eu era adorava! Mas, me fazia tão mal que deixei de gostar". Parece óbvio deixar de gostar ou não gostar de algo que nos faz mal, não é? Mas, não é bem assim.

Normalmente, o que se vê é o sofrimento que acompanha algo que se gosta muito e não se quer ficar sem, mesmo trazendo prejuízos. Me pergunto sempre: como é que alguém pode manter algo que lhe faz mal? É o caso do alcóolico, do viciado em drogas, do fumante, do compulsivo, do que ama sem ser devidamente correspondido.

Acredito que atrás de todos esses comportamentos e vícios "difíceis" de serem largados está a tal da baixa auto-estima. É a única explicação para colocar acima da própria saúde e bem-estar qualquer coisa que piore a vida.

Eu comentei com a minha companheira de papo que junto a esse desapego do queijo (tão superficial a olhos nus) alguma mudança na felicidade dela ocorrera. Quem é capaz de abrir mão de algo prejudicial a si faz uma escolha séria pela qualidade. E essa escolha certamente se vê refletida nas demais escolhas da vida dela. Isso é compromisso com a felicidade. Mesmo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Nobre labutar


‎"Não é sensato achar que um dia tudo dará certo". Essa frase de Daisaku Ikeda - humanista, escritor e líder budista que este ano se tornou a pessoa com o maior nº de títulos de honoris causa em toda a história (até o fechamento desta, são 300) - não tem nada de pessimista. Antes, ela nos tira do comodismo que nos faz apenas esperar por dias melhores e nos provoca a "fazer" dar certo, com todas as iniciativas, criatividade, sabedoria, coragem e bom senso que todo sucesso guarda.

Como toda típica ocidental, vítima da colonização judaico-cristã, cresci acreditando que era "normal" esperar que tudo desse certo. Foi preciso um longo caminho, décadas de insatisfação para que eu enfim compreendesse que a vida de verdade é para os que constroem aquilo que desejam, independentemente de qualquer circunstância ou de quantas vezes precisem recomeçar.

A vida, sim, é um espelho mental, uma reprodução daquilo que somos, daquilo que acreditamos, daquilo que sentimos. Eu própria poderia me considerar piegas se ouvisse isso de outra pessoa que não eu. Sou taurina, terrena, empírica, talhada em realizações palpáveis. Nada que seja apenas verbal me convence, me domina ou me comove. É preciso o gesto para que eu me entregue, para que eu acredite e levante a bandeira. Por isso, entendo e aceito quando digo que a vida é um espelho mental: eu vivencio isso a cada instante dos meus dias.

É verdade que a responsabilidade um dia me cansou e eu tirei férias dessa função. Mas, até isso teve seu propósito e fazia parte do processo. Hoje, entretanto, não é possível mais afastar-me das rédeas: não estou mais só e a responsabilidade dobrou e dividiu-se. Nesse nível não há mais cansaço, nem preguiça. É como comer e dormir, com a diferença que não basta o miojo nem o colchão no chão: as conquistas exigem pratos mais elaborados e noitadas mais confortáveis.

Ilude-se quem vive "deixando a vida levar". Na verdade, essa pessoa não vive, empurra, infeliz que só. Quem vive, realiza. Muda, refaz, levanta, chora e se alegra. Vitória não é nada além de vencer uma coisa chamada tendência da vida. E isso, cada um é que sabe qual é a sua. Isso nos torna solitários? Não. Como eu disse outro dia, não há vitória solitária, nem vitória na solidão. Coisas que a gente aprende com o tempo. Coisas que fazem da vida um lugar menos escuro e mais útil.

A vida passa e acaba. Sendo assim, é melhor escolher o destino e aproveitar a viagem do que ficar a mercê do maquinista que nem existe. Não é?