segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Paul, moço bonito





Do show de 1993, eu lembrava de um Paul simpático, bem humorado e, claro, dono de uma musicalidade impecável. Ontem, talvez porque eu própria estivesse mais emocionada e feliz, eu conheci um Paul doce, romântico, como se naquele estádio com mais 64 mil pessoas, ele estivesse na sala de casa, tocando e cantando entre amigos.

Paul foi pontual, entrou no palco às 9 e meia. Ele foi o espetáculo por 3 horas ininterruptas: não parou um minuto, nem sob a desculpa de trocar de roupa ou beber água. Foram 3 horas leves e alegres que passaram como minutos. Nenhum efeito pirotécnico para desviar a atenção (a única exceção foram os parcos fogos em "Live and Let Die): o show era o Paul e sua fantástica banda (com louros à parte para o baterista Abe Laboriel Jr.).

Aos 68 anos, Paul tem a disposição e encantamento com todo o profissionalismo do mundo. Paul nasceu para a música e para o público. Em alguns momentos, eu tive a nítida impressão de estar vendo o mesmo jovem dos anos 60, com o mesmo sorriso maroto e brincalhão, ora barbudo, ora de cara limpa. Paul tem vida, charme, elegância, juventude.

O show começou com "Venus and Mars / Rock Show", "Jet", e levantou de vez os fãs com "All My Loving". Ver cenas dos Beatles ao fundo foi lindo, lindo, lindo. O tempo não passa para algumas coisas. Para ouvir a música dos Beatles, o tempo se recolhe, com todo respeito.

"Letting Go", "Drive My Car", "Highway", "Let Me Roll It / Foxy Lady (cover de Jimi Hendrix)" e, então, "The Long and Winding Road". Quase chorei. Batia um vento morno, a lua tava cheia, alta, gigante. Era a perfeição disfarçada de noite, sob a cumplicidade de dezenas de milhares de corações emocionados. "Nineteen Hundred and Eighty-Five", "Let 'Em In", e gente gritando baixinho (é possível?): olha a água, cerveja, refrigerante...

Veio a declaração de amor em português "essa música eu escrevi para a minha gatinha Linda, mas hoje ela é para todos os namorados": "My Love" http://www.youtube.com/watch?v=eKuFyHwG188&feature=fvwk . O amor é lindo mesmo.

"I've Just Seen A Face", "And I Love Her", "Blackbird" (lindíssima), "Here Today", "Dance Tonight", "Mrs Vandebilt", "Eleanor Rigby", e outra declaração de amor: "Something", dedicada a George, suave e arteira no começo, maravilhosa e intensa depois. Linda, linda. Lembrei do dia em que, ouvindo o DVD no carro, eu cantei com Paul "I don't know, I don't know!"

"Sing the Changes", "Band on the Run", "Ob-La-Di, Ob-La-Da", "Back in the U.S.S.R.", "I've Got a Feeling", "Paperback Writer". "A Day in the Life/Give Peace a Chance", lembrando John. Foi lindo aquele mundaréu de bexigas brancas subindo ao céu. Tenho certeza de que, por mais acostumado que Paul esteja com tietagem e demonstrações homéricas de afeto, aquela cena o encantou. O céu e a terra estavam lotados de beleza e balões.

Quando Paul foi ao piano eu gritei "Hey Jude", "Hey Jude"!!! Mas Paul quis mesmo foi "Let It Be". Ô coisa linda! http://www.youtube.com/watch?v=j9SgDoypXcI

Com "Live and Let Die", a explosão. A música é forte, eu sei, mas ontem ela foi matadora. Não dava para não arrepiar. Foi aí que os únicos fogos da noite subiram aos céus. Tenho minhas dúvidas de que foram programados. Pra mim, aquilo foi o coração do público em pleno delírio.

Enfim "Hey Jude"! Gritei, era demais ouvir minha música preferida ali, ao vivo, cantada por ele mesmo, o PRÓPRIO: "Take a sad song and make it better... Remember, to let her into your heart, then you can start, to make it better" http://www.youtube.com/watch?v=BDbHBuqJsTs . Foi de chorar de tanto que o coração se alegrou.
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E, ainda, me comoveu ver o moço da água repousar a caixa pesada na escada pra escutar a música. Prestei atenção nele porque aquilo foi uma das cenas mais bonitas da noite: parecia que ele, enfim, soube "o quê" estava diante dele. Lá pelas tantas, ele tirou o celular do bolso e bateu uma foto. Aquela música, sendo cantada por mais de 60 mil pessoas, tinha que ser boa. E era. O coração daquele moço tão simples também foi tocado por Paul.

Depois, quando Paul se despediu, todo mundo sabia que ele voltaria. Claro que voltaria! Até o moço da água sabia e ficou lá esperando, bem ali do meu lado. Quando Paul voltou naquela camisa branca e suspensórios, o povo honrou o respeito: cantou, mais uma vez, junto com ele "Day Tripper", "Lady Madonna" e "Get Back". Get back, Paul, always!!!

Bem que ele tentou ir embora de novo, mas o povo tava irredutível: não, sir, trate de voltar! "Yesterday" levou os fãs às lágrimas, mesmo! http://www.youtube.com/watch?v=pGQgd2PT4mw . Será que foi a mistura de letra intensa, daquelas que te deixam nu, com a melhor melodia, dancinha de recém-namorado? Pode ser. Foi um dos melhores momentos da noite. O moço da água também parecia concordar.

"Helter Skelter", poderosíssima e "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band/The End" para, enfim, encerrar. Depois de ver Paul carregando nossa bandeira, não dava vontade de deixá-lo ir. Mas, era quase 1h da manhã, ele precisava descansar um pouco para o show de segunda-feira. Não sejamos tão egoístas assim. Paul escorregou no palco enquanto corria, feliz e descontraído da vida. Foi logo levantando e dizendo "tá tudo bem, tudo bem". Depois de tudo que ele nos ofereceu, meu maior desejo era que o show dele não fosse lembrado por aquele escorregão, brasileiro adora falar dessas bobagens. Poxa!

Saindo do estádio, uma chuva de papéis picados dava a impressão de que alguém tinha espalhado purpurina no ar. Era uma nuvem verde e amarela descendo pra dar boa noite, durma bem Paul, seja sempre muito bem vindo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os idos de uma mente em movimento


Eu nunca fui uma pessoa que suspira pelo passado. Vez por outra ouço alguém desejando voltar no tempo, ser criança outra vez, adolescente, ter 20 anos. Acho esquisito, sempre achei. Até outro dia, eu traduzia minha falta de nostalgia como bloqueio psicológico, um artifício racional que me protegia sabe-se lá do quê. Era nada. A minha falta de apego ao passado é bem mais otimista do que eu podia imaginar.

Foi numa manhã dessas, nas raras em que pude acordar absolutamente sem pressa, que me bateu uma profunda gratidão pelo que sinto e tenho na vida: paz, amor, alegria, saúde, oportunidades, esperança. Jamais desisti, mesmo nos maiores cansaços, mesmo quando eu achava que conseguiria desistir. Nunca consegui, sempre continuei. Mesmo quando eu andava quase parando, havia alguma evolução em alguma coisa. Decisão difícil, essa de jamais desistir, acho que a mais difícil ever. Mas, sem ela, a gente para num caminho confuso, sem eira nem beira, sem motivo e sem reação, bem a mercê de uma coisa que o povo adora chamar de destino.

Não que saber disso queira dizer que eu não tenha escolhido mal, mas que também faz parte não escolher direito. Triste é achar que dá pra tirar férias eternas de todo e qualquer propósito e abster-se da responsabilidade do resultado que infalivemente virá. Não escolher é uma escolha, a pior delas.

E quanto mais a gente sabe sobre a própria experiência, mais claro fica o tamanho do gesto (ou da sombra dele) e o quão poderosa é sua influência sobre todos os nossos dias. Por causa disso, simples assim, é que meu foco é sempre no que faço hoje para facilitar meu entendimento sobre o amanhã. Me construí no passado até agora, mas é preciso continuar construindo. Deitar sobre os louros ou as desventuras passados é coisa de preguiçoso. E isso, descobri, eu não sou, não ;)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Cuidar de si e do futuro


"Não existe atalho". Essa frase, lida enquanto eu folheava o livro do Michael Jordan, me fez concordar: não existe mesmo. Ansiosos como somos, queremos mais é pegar o caminho mais curto pra tudo na vida, mas não há milagre. Se cortarmos o caminho para evitar alguma coisa ou para chegar mais rápido, a vida vem e nos devolve ao nosso tempo: aprende, filho, aprende senão você não passa pra outra lição.

É claro que às vezes, em situações muito, muito difíceis, a gente fica exaurido demais e prefere pular uma página como se isso fosse fazer pular a dor também. É bem provável que, por uma breve fase, o sofrimento seja anestesiado e, no auge da nossa miopia, consideremos que fizemos a melhor escolha. Entretanto, enquanto a nossa memória é frágil, a memória da vida é implacável, tanto para o bom quanto para o nem tanto.

Esses atalhos que buscamos normalmente são frutos da razão a que nos impomos, como se racionalizar completamente uma situação fosse nos prevenir de erros. É por isso que em momentos de grandes impasses o melhor é repousar o corpo, silenciar a mente e ouvir o coração. Esse nunca erra, nunca, nunca. Mas, pra ouvir direito é preciso calar outra coisa (a pior delas, na minha opinião): o orgulho, filho do medo e da vergonha. Quando a gente se despe de toda e qualquer desculpa, de todos os argumentos puramente convencionais, sociais e aparentes, a verdade fica limpa, mesmo que doa, que seja complicado admitir, mas fica limpa e mais fácil de lidar.

Tomar decisões na vida é um perrengue, todo mundo sabe. Envolve renúncias, novas posturas, firmeza de propósito, coragem para perseverar. Ao contrário do que pensamos, não é difícil se o valor do que se pretende atingir estiver claro, e agir coerentemente com os objetivos trará a mudança que precisamos. Ao longo de um período X, voltar ao que antes era nossa vida "no automático" ficará difícil, diria impossível. Como já bem dizia Einstein, "uma mente depois que se expande nunca retorna ao seu tamanho original".

Atalhos não há. E conhecendo nosso caminho não precisaremos deles. E economizaremos tempo para aproveitar melhor a vida, as pessoas, o mundo.