quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O inverno virando primavera


Eu voltava do almoço ontem quando passei em frente ao novo posto de gasolina da rua. Há mais ou menos 1 ano o local estava abandonado e tinha sido invadido por moradores de rua, fumantes ilícitos e usuários de outras tranqueiras ilegais. Lembro que tinha receio de passar por lá quando a noite vinha caindo, tinha sempre muita bebida e ouvia muita bobagem a medida que chegava perto. Eu me perguntei várias vezes quando é que alguém compraria aquele terreno e o transformaria em um café, ou supermercado, floricultura, sei lá. O importante é que o local tivesse função, deixasse de ser tão perigoso e abandonado.

E eis que ontem, depois da inauguração do posto, a paisagem era diferente: tudo muito claro, cores alegres, ambiente amigável, movimento de quem trabalha, energia boa essa de vida acontecendo saudavelmente.

Aí, claro, me bateu um sentimento daqueles pararelos, sabe?, de quem tem mania de pensar na vida até quando olha pra lanterna do carro. Pois bem, fiquei eu elucubrando sobre quantas vezes a gente passa por situações sombrias, achando que nada nunca vai mudar ou que está demorando demais para. E a gente tem medo, desconfia, duvida, chora. Mas, a verdade é que no contínuo caminhar, sempre atento e cuidadoso, bem intencionado, jamais desprezando o levantar e o coração da verdade, a gente acaba construindo um posto novo, desses clarinhos, que dão sentido à passagem.

Muitas vezes compreendemos mal e julgamos assim também. Somos mal compreendidos na mesma medida e somos igualmente ferozes no julgar. Tudo isso pesa, de uma forma ou outra, e influencia o dia. Mas eu acredito, mesmo mesmo, que se a intenção é honesta e boa, uma hora ou outra tudo se clareia, aos poucos, porque é assim que vira sólido. Nada repentino tem bases confiáveis. Segurança mesmo, confiança, conquista-se no convívio, na demora de um dia difícil ou na alegria daquelas bobagens que se diz quando o dia está leve.

O fato é que nenhuma dor e nenhum medo são eternos. Sobrevive quem se rende a eles. Vive quem desafia.

"O inverno nunca falha em se tornar primavera" (Nitiren Daishonin)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Por onde andas


Faz tempo que eu ando com vontade de escrever sobre as conclusões a que chegamos, na maioria das vezes baseadas apenas nas referências que guardamos sobre o apego de nossas curtas experiências.

Concluímos amor e desamor, cuidado e desatenção, honestidade e más intenções, gestos e silêncio. Concluímos o tempo inteiro apenas com nosso coração interessado ou com a falta de coração típica dos momentos de ódio. Vamos de uma ponta a outra da simpatia ou da aversão no mesmo pensar, basta navegar ora pela amizade, ora pelo ressentimento sem o menor controle sobre qualquer tendência. Nosso coração parece ter duas facetas: uma cheia de humanismo, morrendo de vontade de acreditar, e outra dura, manchada de desgosto e crítica severa.

Já me deixei vencer pela angústia desse veneno inúmeras vezes e, não só o outro perdeu, mas, sobretudo, eu perdi: perdi alegria, perdi viço, perdi desejo, perdi amor. Presto muita atenção hoje, cuido muito pra entender se o que sinto é verdade ou fruto de uma predisposição à vitimização, aquela mania chata de considerar o mundo cruel e as pessoas idem.

"Faz bem pensar mais uma vez, embora concorde. Faz bem pensar mais uma vez, embora discorde". Essa frase é um provérbio chinês, se não me engano, e cabe a cada instante, cada vez que um pensamento quiser arranhar a paz que precisamos tanto manter.

A vida é uma eterna tentativa de equilíbrio, de felicidade, a gente sabe disso. Se a gente se deixar levar pelo que há de pior em tudo, há motivo algum para viver? Acordar, sentir frio ou calor, alimentar-se, namorar, seja o que mais? Não, né? Jamais seremos felizes 100% do tempo. Problemas surgirão sempre, enquanto vivermos, essa é a mola que nos mantém ativos, ocupados com a realidade, atentos ao mundo. Mas esses mesmos problemas terão sentido se forem assumidos com a vontade de vencê-los, e a vida terá mais valor se olharmos com menos acidez e purgatório para todas as coisas.

Poliana e Amélie Poulain não foram felizes porque fingiram ver tudo colorido ou com falso otimismo. Foram felizes porque enxergavam a vida bonita, bonita como ela é mesmo, mesmo sabendo que esses são "tempos difíceis para os sonhadores". E Amélie entendeu, no final das contas e no final do filme, que sonhar só é bom dormindo. A gente constrói, de verdade, é acordado, exercitando olhar a vida com mais frescor e mais confiança. Paulo Freire disse que "é fundamental diminuirmos a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática". Exercício puro. Tô nessa ;)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As linhas da vida


Viver uma vida sem arrependimentos não é humano. É da natureza de quem respira, sente e tem memória olhar para trás e perceber que tem, sim, alguma coisa, várias coisas, pequenas e gigantescas coisas que poderia, ou que não deveria, ter feito.

Por mais que se saiba racionalmente que nada acontece por acaso (ou à toa), é impreciso dizer em qual resultado essa lembrança pode desaguar. Acredito numa linha tênue que separa a amargura do arrependimento da boa lição aprendida.

O ressentido lembrar aperta o coração, traz melancolia, resignação, um gosto de derrota. O arrependimento que vira experiência do bem é trampolim para o esforço em não repetir ou, pelo avesso, dedicar-se em observar o momento certo para, sim, fazer o que deveria ter feito ou dito. Na balança das duas coisas, uma palavrinha faceira que adora um bom teste: sabedoria.

Tenho reparado que não apenas eu me queixo da falta de tempo (há anos entendi o quanto essa moeda tem sido demasiadamente cara). De tanto pensar a respeito (não, não me convence a teoria de que os planetas estão em leve desajuste e etc), hoje, enfim, cheguei perto de uma razoável explicação: passei (e passamos, pois num grau qualquer somos todos parecidos) grande parte da vida não fazendo o que deveria, na hora devida, e a vida, um dia, assim do jeito dela,
resolve dar prazos cada vez menores para que todas as coisas e lições necessárias sejam realizadas e aprendidas.

Me parece que entra, aí, a importância de ultrapassar a linha que mencionei lá em cima: para dar conta do recado da vida, é preciso sair do arrependimento ressentido e partir para a boa lição, guardando a lembrança do feito ou não feito apenas como um fato impossível de se transformar em outra coisa senão aprendizado.

Voltar no tempo ainda não é possível, só fazemos isso no coração, quando voltamos por amor, saudade ou tristeza. Fora isso, viajar ao passado para "consertar" histórias nunca funcionou. O possível, entretanto, é começar agorinha mesmo a perceber o que não foi bom e consertar daqui pra frente.

O passado passou. O presente também está passando a cada segundo. Vamos deixar pra quando os dias melhores? Que memórias queremos ter no futuro? Novos arrependimentos ou sorrisos de quem alivia o coração pelo que venceu, construiu, aprendeu, amou? Essa escolha, assim como todas as outras, não são de quem convive conosco, ou do chefe, do prefeito ou presidente. São nossas.

Tenho feito grandes escolhas ultimamente (e pequenas também). Todas com seu devido preço, devido valor e devido benefício. Na balança de todos os pesos, o benefício precisa compensar pra vida valer a pena. E, sim, tem valido. E, sim, é preciso continuar, cansando às vezes, mas sem nunca desistir, para chegar.


http://www.youtube.com/watch?v=iczaDcixBj4

Grande beijo :)