terça-feira, 30 de março de 2010

Eu e minha sombra


"Conhece a ti mesmo" - não fui conferir no Google, como normalmente eu faria, mas tenho quase certeza de que a frase é de Sócrates. O fato é que não me lembro de nenhum instante da minha vida em que essa máxima não estivesse presente no meu coração, como se conhecer a mim mesma fosse me dar a segurança e a certeza que preciso nessa vida.

Há muito pouco tempo consegui encontrar alguma transparência em mim, talvez, enfim, em algum grau, eu tenha encontrado (ou construído) o terreno fértil e saudável da verdade, da descoberta dela, do claro, do translúcido. A verdade de quem eu sou, do que quero, do que sei e sinto ser preciso para a minha felicidade.

Hoje, por mais que eu entenda os motivos dos erros que cometi no passado, sinceramente não consigo aceitar ter vivido tanto tempo me "tapeando". Claro que ainda erro e claro que errarei muito ainda (erros diferentes, espero. Repetir os mesmo é burrice). Não sou perfeita como pretendi ser um dia e fico feliz por isso. Isso faz de mim melhor observadora e pode me trazer mais compreensão (coisa que acredito ser a mais importante nessa vida).

Mas, o fato de não ser perfeita, e de saber que o outro também não é, não me acomoda na poltrona larga da boa desculpa. Antes, faz de mim mais curiosa ainda, mais caçadora (de mim, para parafrasear Milton Nascimento). Tenho uma alma inquieta, acredito na melhora constante: se eu pude melhorar nesses anos de vida (e sei que há um bom chão pela frente a ser melhorado), todo mundo pode. "Eu sou assim" é coisa para os cansados demais para viver. E, como eu não aceito a morte física como fim da vida, que dirá a morte da vida em plena vida. Mas, tem uma coisa super-importante para quem busca conhecer e entender um pouco da própria razão de viver (já que comecei com Sócrates, vou terminar com Platão) e a qual dedico mais olhar: é reconhecer o uso que se faz do próprio conhecimento. Sem isso, o que sobra é mera manipulação, ou disfarce, pra ficar mais leve.

O único alento de tudo isso é que é possível contar com o bom coração de quem nos ama, o apoio e peito sempre disposto a acalentar. A busca de Sócrates teria sido bem mais doce se ele tivesse tido esse amor a lhe proteger do mal. Não é o amor a grande cura para todas as coisas? Então eu tenho chance...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Bom selvagem


Se tem uma coisa que me encanta e me surpreende sempre é um bom coração. Não há muito a dizer sobre isso, além de que muito pouco nessa vida me faz suspirar e essa é uma das raras.

Por bom coração entendo legitimidade na boa intenção, no bom pensar, no bom sentir e no bom agir. Isso não livra ninguém de errar, mas garante o bom descanso, a boa consciência e o resgate saudável.

Só isso por hoje. Só isso :)

"if I stay here just a little bit longer,
If I stay here, won't you listen to my heart?"
(Rod Stewart)

terça-feira, 23 de março de 2010

0 a 0 X 1 a 1


Que me perdoem as minhas leitoras, mas mulher tem a feia mania de se queixar dos homens, achando que são todos iguais. O pior é a centralização, o controle de tudo: mulher acha que só ela sabe fazer as coisas, cuidar da casa e etc. Quando casa, faz tudo, crente que o homem que ela escolheu para viver a vida toda junto não sabe fazer nada. Reclama quando ele deixa roupa pela casa, mas acha que é assim mesmo e alimenta a brincadeira.

Quando vira mãe, então, é o terror: só ela sabe dar banho, trocar a fralda, vai buscar na escola, dá papinha. Depois se queixa por estar sobrecarregada, por ter um marido que não "ajuda", se sente sozinha. Claro, né? Ela nunca deixou o homem entrar na rotina da casa nem na rotina do filho.

Por isso, nós, mulheres, estranhamos quando encontramos um homem participativo, excelente pai, companheiro, aquele que não aceita ficar à margem do que acontece na casa, menos ainda ao que acontece na vida dos filhos. Como assim? Isso não é prerrogativa nossa? Maldade nossa tamanho controle. Maldade.

Mas, há uma maldade maior, cruel mesmo, que está muito além da simples cultura matriarcal: é o uso dos filhos para controlar o pai, principalmente quando esse pai se torna ex-marido. Sei de casos tristes, de pais reféns de ex-muheres feridas no orgulho, rendidos a uma lei completamente protecionista, fazedora de super-mães-poderosas.

Acostumadas a ter seus filhos somente para si numa separação, nós nunca seremos capazes de dividir os filhos com aqueles que amamos tanto um dia a ponto de ter uma herança eterna com eles? Se o amor entre o homem e a mulher acabar, isso faz daqueles dois inimigos? Eu não sou mãe, talvez por isso não entenda essa relação de poder. Pra falar a verdade, não só não entendo como não aceito essa ou qualquer outra relação baseada no poder.

Tenho ego, sim, mas, pra mim, o jogo do ego é inconcebível, faz todo mundo infeliz. Não gosto de disputas, sempre me afastei de competições, não por medo de perder, mas por acreditar que competir com meu igual é lutar contra a natureza. Uma coisa é lutar contra uma doença, contra a desarmonia, contra a fome. Outra coisa é lutar contra um ser humano, seja o motivo torpe ou não.

Faz bem pensar nas atitudes do dia-a-dia, mulherada. E mudar as que não funcionam para a felicidade (nossa e do outro). Construir relações sadias a partir da observação e de escolhas melhores. Melhorar para o outro também, afinal, não é pensando no bem fora de nós que a gente melhora o próprio coração?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Tim-tim


Conversávamos hoje sobre o vinho. Faz bem mesmo à saúde? Eu disse "sim", o problema, como em todas as coisas, é a medida. Ninguém se limita a uma tacinha de vinho por noite, mas essa é a recomendação. Aí, claro, que ultrapassando esse tanto, deixará de fazer o bem e começará a prejudicar.

Eu fiquei pensando, então, na medida de tudo nessa vida. E me dei conta que, na maior parte dos meus anos, eu fui passional, fui emotiva demais, romântica, quase sempre no extremo dos meus sentimentos. Estou usando "fui", mas acho que ainda sou, só administro melhor. Tem coisa que a gente não muda, a essência é uma delas. Nunca fui muito fã dessa história de "meio". Sempre me soou meio insosso isso, meio sem vida. Em contrapartida, a ausência (oposto do excesso) é cruel, triste, nada. E, então, como faz?

Sobre tão delicada questão, eu cheguei a uma conclusão: a participação do outro na nossa vida, o tal do compartilhar é fundamental. Quando a gente está em baixa, nada mais feliz do que o outro para nos levantar, e levantar o outro quando for preciso. No momento "alto", ninguém precisa "amansar" ninguém: a vida, com seus dias seguidos e seus desafios, acaba fazendo isso.

O grande segredo é, pra mim, viver um pouquinho pra lá do meio, sentido paixão. Paixão, entrega, perda da noção e etc são fundamentais para me manter interessada, sem tédio, correspondida, correspondendo. Ao invés da correta e única tacinha todos os dias e contra a garrafa inteira, eu fico em duas taças. Inebria um pouco mais, mas não faz mal ao fígado. Apaixona, mas torna o dia seguinte possível.

Importante nisso tudo é viver emocionada, sim, mas ter a segurança da continuidade. Sou taurina, lembra? Pois é... ;)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Querido Neruda


O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

domingo, 14 de março de 2010

A vida me venceu


Minha vida deu um giro de 180º. Isso é igual a novidade todo dia, gente, trabalho e atividades novas to-dos-os-di-as. Eu já até desisti de me importar com isso, ou me preocupar, ou me enlouquecer, achar que não dou conta. Acho que entendi que a vida será para sempre assim: nada de acomodações e, quer saber? eu dou conta, sim.

Chega um momento em que a gente vê tanta oportunidade e tanta lição que acaba se envolvendo mais com tudo e, claro, envolvimento gera compromisso, que gera responsabilidade, que gera atitude. Aí, com a vida tão ocupada, algumas coisas escapam um pouco. Como escrever nesse blog é minha terapia, eu vou achar um jeito de voltar à frequência que eu gostava tanto;) Ainda me pego com os textos prontos durante uma corrida, ou enquanto saio de lá pra cá, ou só de olhar uma cena corriqueira. Mas, e para parar e registrar? Tem coisa que parece até que vai derreter se eu me mexer para escrever, aí eu fico quietinha, só olhando.

Acima de tudo, minha vida tem sido de emoções (meio Roberto Carlos mesmo), das grandes e boas. Acho que alguma coisa muito importante me aconteceu em 2009, muita ruptura e conceitos e padrões que não funcionavam mais para a minha felicidade foram destruídos (lembra da letra de Halo?). Isso tudo causou uma dor enorme, como todo parto causa. Mas, como tudo pra nascer e acontecer precisa de processo e conclusão, foi assim comigo também.

O que tem acontecido nesse 2010 é resultado da procura que sempre me moveu e move e, sobretudo, do desejo imenso, e, enfim, encontrado. Por isso me emociono feito criança com cenas de encontro e reencontro: parece que é só assim que as coisas nascem de fato. Não há nada, nenhum caminho, nenhuma felicidade ou herança na solidão. Tudo que é fruto nasce de dois, nasce de compartilhar, de trocar, de se envolver, de consentir, de torcer, vibrar, entregar. De deixar o outro entrar, conviver, dividir, participar.

Não há mais em minha vida uma hora sequer sem alguém por perto. Isso, que tanto me assustou pela vida inteira, tem sido uma benção - no sentido budista da palavra, se houver, é claro :) É por isso que eu vivo chorona ultimamente. A vida me venceu. E (pra ficar bem brega mesmo), quem ganhou fui eu.

Beijos, boa semana a todos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A pureza que nos resgata


A gente sempre fala no quanto a vida muda, no quanto tudo é tão dinâmico, corrido, ninguém tem tempo, não dá nem pra ir à academia ou ao teatro. Tem Twitter, Google, notícia fica velha mais rápido do que nossa memória é capaz de esquecer. Só esse ano, pensem (e só estamos no começo de março), quanto coisa aconteceu. Tragédia, então, nem se fala. Shows, casamentos, descasamentos, carnaval. Velocidade o que mesmo? Ah, tá... humana.

E falando em humana, eu me dou conta dessa minha porção em tardes como as de hoje: apesar do ruído intenso do trabalho, eu me deixei desacelerar, parei para um café, me senti voltar mais lenta, tranquila, cheia de uma "facilidade" beirando a ternura. A gente perde tanto da vida quando se entope de assunto, né? Que assuntos tão importantes são esses que valem mais do que um aconchego? Eu não entendo isso, não. Mesmo.

Acho que grande parte da minha confusão mental sempre veio do fato de ser coração no corpo inteiro e ter que lidar com um pensamento real, conectado e preso na vida real. Confesso que já fui mais corrompida, que melhorei um pouquinho. Acho que aprendi mais liberdade, que me deixo escolher mais, que sei do que gosto, do que preciso e com o que me importo. Aprendi prioridades. E o preço delas.

Outro dia li uma frase, não sei de quem (acho que é de gente grande, mas esqueci, sorry) que dizia que ter certezas é morte e que vida é ter dúvida. Bom, eu não diria "duvidar", acho que tem sofrimento demais aí. Eu chamaria de "perguntar" porque nem sempre na pergunta há dúvida. Na maioria das vezes, na pergunta há apenas desejo de saber mais. É como a religião, sabe? Quando se tem fé, não se duvida, mas perguntar é saudável.

Isso pra dizer que, por mais que eu saiba um pouco mais a cerca de mim mesma (e gosto mais dessa mulher que conheço), eu ainda pergunto muito. Talvez com menos angústia porque mais fé tenho hoje. Talvez com menos pressa porque sei que o que eu planto infalivelmente me chegará. Talvez com mais carinho porque a vida foi me contando que viver sem amor e sem amizade não tem a menor graça. E talvez, ainda, com mais simplicidade porque nada, absolutamente nada, vale tão a pena quanto ter o coração sereno.

A vida voa mesmo. Se transforma. Mas, eu digo e repito: há coisas nela que jamais mudarão. Ainda bem ;)

Enquanto durar


Não sei se a vida é curta
ou longa demais prá nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido
se não tocarmos o coração das pessoas
muitas vezes basta ser
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
desejo que sacia,
amor que promove.
Isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja curta
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura...
Enquanto durar.

(Cora Coralina)

terça-feira, 2 de março de 2010

Thank you


Encontrei uma querida amiga hoje. Nos vemos muito pouco, apesar de nos falarmos todos os dias. Engraçado que, quando a gente se vê, dá alegria, uma satisfação genuína ou, como ela mesma disse, "uma saudade". Não é uma definição linda? Onde já se viu sentir saudades de alguém quando você acaba de encontrá-la? Mas, sabe que eu entendi? Entendi mesmo. Tem coisa que a gente só realiza quando vem ao nosso encontro. É assim com a saudade às vezes: só dá pra perceber que ela existia quando o objeto do afeto se materializa e dá aquele calorzinho no peito "e não é que eu estava com saudades?!".

Pensando assim, e pensando na minha querida Gil, eu me dei conta de como é bom ter atenção. Não é mimo, nem holofote besta de quem se acha bacana. É atenção mesmo, consideração, dedicação. É dispensar 2 minutos do dia para enviar um torpedo, mais 3 para fazer uma ligação, talvez 10 para um conversa mais longa. E eu adoro isso. Eu e toda a torcida do Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Flamengo e Fluminense juntas. É disso que vínculos são feitos, amizades mantidas, amores sempre acesos. É impossível manter qualquer sentimento sem cuidado. E a Gil é campeã nisso, tá sempre me surpreendendo. Tomara que eu aprenda com ela. Se eu gosto e as torcidas idem, mais gente deve gostar também ;)

Beijos, Gil. Thanks por tudo, pelo carinho e pela demonstração dele.

"Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra"
(Chico Buarque)