sábado, 31 de janeiro de 2009

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sincera incapacidade


Achei graça na minha tia, outro dia. Diz que ela entrou, nesse ano, no módulo sinceridade afiada, assim meio tolerância zero. Não que ela não fosse sincera até 31 de dezembro de 2008, mas, acho que antes, como todo mundo, minha tia ponderava um tiquinho mais na tentativa de evitar um "climão". Eu ri quando ela foi irônica comigo a respeito de uma bobagem. Na casa da família, os "causos" estão ficando famosos.

Às vezes, eu também tenho vontade de eliminar meu sensor, baixar um pouco essa tendência a pensar demais antes de falar, dizer mais "não gosto, não quero, fiquei decepcionada, estou com raiva, você precisa mudar isso e aquilo, tem que praticar atividade física, cuidar da vida, você é medroso, mentiu, me sinto ludibriada", e por aí vai.

Acho que olho tanto para as minhas próprias deficiências que não ouso julgar alguém, pelo menos, não de maneira assim, tão enfática, invasiva (que mania, sempre penso que estou invadindo quando falo do outro). Pode ser que eu seja adepta daquela frase de Tito Lívio que diz "a sinceridade não é dizer tudo o que se pensa, mas crer em tudo o que se diz".

Engraçado que pra falar coisa boa eu não tenho freios, elogio mesmo, assumo o talento alheio, a beleza, a inteligência, etc. Vai ver que Freud explica isso, quem sabe eu pergunte a ele na próxima sessão e consiga ser mais objetiva naquilo que me desagrada. Dizer sim é difícil, mas dizer não... é muito mais.

"We'd gather around all in a room
fasten our belts
engage in dialogue
We'd all slow down rest without guilt
not lie without fear
disagree sans judgement
We would stay and respond and expand
and include and allow and forgive
and enjoy and evolve and discern and inquire
and accept and admit and divulge and open
and reach out and speak up
This is utopia
This is my ideal my end in sight
This is my nirvana
My ultimate

(Alanis Morissette)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Os critérios do amor


Para variar, ontem eu ouvi uma conversa entre duas senhorinhas com, mais ou menos, 70 anos cada. Uma coisa fofa, ambas com namorados conquistados depois da viuvez, coisa de 3, 4 anos atrás.

O que me chamou a atenção foi o discurso de que só agora amam de verdade, são soltas, generosas e recebem amor e generosidade de volta. Diziam elas que as obrigações da vida de casada (imaginem um casamento na geração delas) acabavam com a alegria e a liberdade que elas gostariam de ter tido. Uma delas disse, inclusive, que seu maior sonho era almoçar fora, nem que fosse numa lanchonete, e que o ex-marido nunca a havia levado!

Agora, turistas de plantão, passeiam por aí com os amigos e respectivos namorados, vão a Natal, Porto Alegre, bailes, moram junto com doçura e paixão. Descobriram a felicidade no amor, tiveram critério na escolha pois não tinham mais a obrigatoriedade social. Na época delas, já se ficava pra titia aos 22 anos.

O mundo girou, os casamentos acontecem por motivos que não a cobrança familiar, mas nem por isso se guarda a garantia de eternidade. O fato é que, com o tempo, a gente aprimora nossos critérios e conhece melhor o que quer e, principalmente, o que não quer. Por conta disso, é comum que o segundo casamento/relacionamento/whatever seja mais parecido com nossos desejos profundos, aqueles que costumávamos chamar de sonho, bobagem, devaneio.

O bom de escutar essa conversa alheia (rs) foi perceber que realizar o amor independe inclusive da idade, do estilo de vida, do passado. Tenho fé de que todas as pessoas que se abrem para a vida tem suas respostas em formato de gente, de encontro, vivacidade.

Em particular, nós, mulheres, costumamos "desenhar" o homem "perfeito" quando começa a se entender como gente, mas a história de que "homem é tudo igual" faz com que a gente esconda os suspiros queridos numa caixinha noturna, chamada fantasia. A parte boa de conhecer esse homem "mais tarde", no meu caso somente há alguns poucos anos, é que se sabe que nada que não seja exatamente felicidade basta.

Isso não quer dizer, claro, uma vida sem uma rusga sequer, mas até nisso a gente precisa combinar. Tem discussão que vale a pena, acrescenta, melhora. Mas, tem outras tão absurdas que nem vale a pena pensar em ter com alguém . Existe inteligência no critério do coração na conquista do amor, basta a gente prestar atenção àquilo que somos, sem agredir aquilo que o povo chama de "idealização". Se olhar bem, reconhecer a idealização é o primeiro passo para identificar os olhos daquele/a que nos completa e enche de vida, de cor. E, claro, a gente precisa completar de volta, porque, sem troca, não há critério que resista.

"Tinha suspirado
Tinha beijado o papel devotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas
Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo de estima por si mesma,
E parecia-lhe que entrava enfim
Numa existência superiormente interessante
Onde cada hora tinha o seu encanto diferente
Cada passo conduzia a um êxtase
E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações."

(Carlinhos Brown e Marisa Monte)



ps: quadro de Gustav Klimt


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Extreme ironing









A idéia é levar a tábua de passar e umas roupas para o lugar mais maluco possível - o topo de uma montanha, o fundo do mar, uma caverna, etc - e passar o ferro. O esporte nasceu na Inglaterra em 1997.
*
Era só o que faltava...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Maravilhosa gratidão


Ontem eu ouvi a história de um menino que aos três anos de idade fez um transplante de coração. José, hoje, tem 9 anos e tem plena consciência da gratidão eterna que guardará a quem lhe doou o órgão mais importante do seu corpo.

Entretanto, mesmo sendo grato a um estranho, é provável que José não se lembre de agradecer aos seus pais por terem eles lutado por sua vida, procurado ajuda, acreditarem na doação, ficarem na fila do transplante, torcido, alimentarem-no, amado-o todos os dias. Talvez ele ache que seus pais fizeram o que tinha que ser feito, era natural, quase uma obrigação.

A verdade é que cada fralda trocada quando bebê, o leite, a luz que clareava (e clareia) o quarto de José, a roupa, tudo é motivo de gratidão. Infelizmente, pode ser que ao crescer ele se esqueça inclusive do coração doado. Pode ser que ele seja como a maioria de nós que olha mais para aquilo que não tem do que para aquilo que tem.

Pode ser que José, ao entrar na adolescência, comece a prestar mais atenção no tênis do amigo, na casa do vizinho, nos carros importados pelas avenidas e menos no carinho que recebe em casa e nos valores que lhe foram caros desde que nasceu. Pode ser que ele fique rebelde se por ventura não puder comprar todos os joguinhos que a molecada toda gosta. Pode ser que ele lamente ter nascido numa família menos privilegiada, e que ache, até, que ter recebido aquele coração foi uma bobagem, que o melhor era ter morrido mesmo, já que a vida é tão "ingrata". Pode ser.

Mas, eu vou torcer para que esse menino seja diferente, seja maior do que a mídia e o shopping . Que seja um jovem grato pelo que tem e pelas possibilidades que lhe aguardam. E que as use, não as desperdice, nem as banalize. Que seja homem, que seja adulto, que traga a beleza da verdade.

Num mundo tão cheio de desigualdades, é muito fácil perder-se em lamúrias ao olhar apenas para a aparente felicidade e plenitude alheias. Todo mundo esconde uma dor, e o fato dela não ser a mesma que a minha não quer dizer que não seja tão sofrida quanto. A Lady Di quando casou com o Príncipe Charles levantou suspiros e inveja de muita gente mediante tamanha perfeição. Bom, basta saber o resto da história para que ninguém mais a inveje. Aceitar quem somos não quer dizer que permaneceremos como somos, mas é o primeiro passo para a felicidade.

A todos os Josés (mesmo aos que não precisaram de transplante), a todos os insatisfeitos, aos deprimidos e inconformados: "todos ganham presentes, mas nem todos abrem o pacote" (Nei Ferrarini).

"A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais. Ela torna a negação em aceitação, caos em ordem, confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã." (Melody Beattie )

ps: essa foto linda não é do José.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Por plagas alheias


Na última segunda-feira encontrei uma ex-colega de trabalho. Ela em outra empresa, eu também, mas ambas ainda no mesmo segmento. Passei pelo orkut para deixar um alô, gostei de revê-la.

Não é que achei uma mensagem belíssima no perfil dela? Perguntei de quem é, é de um amigo, ainda não sei o nome. Segue um trecho abaixo, achei forte, achei preciso. "Tudo caminha, menos eu" parece injusto, mas impressiona, não é assim que parece de vez em quando?

Vou ficar devendo o nome dele, mas não esquecerei do crédito devido assim que souber...

"Meu tempo é o tempo das fotografias.
Instantes aprisionados que ganham apenas o movimento dos slides,
indo-vindo-acendendo-apagando.

Projetam-se em mim como sombras,
que penso ser minha verdadeira realidade,
mas logo vejo que são apenas projeções,
resto do que já foi e que não retorna.
É impossível retroceder o fluxo dos rios.

Não quero ser um amanhã previsível,
não quero ser o ontem.
Quero o instante, quero, quero sim.
E que ele venha dilacerante, luz-sombra-chuva-claridade.

Quero caminhar, embora os pés ainda estejam presos ao chão,
fértil de recordações hoje pintadas com cores solares.
É preciso movimento.
Espero as lembranças ganharem seu lugar
e eu deixar de viver como se estas fossem meu hoje.

Meu sangue segue seu fluxo,
minha carne não rejuvenesce,
tudo caminha, menos eu.
É preciso movimento.
Compreendo a necessidade.
Silenciosa, caminho."



terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fogueirinha


Essa vida é mesmo engraçada. Cheia de contradições e diferenças, o jeito é mesmo relaxar de vez em quando para não padecer de tristeza, revolta ou tédio.

Estive hoje no SPFW, aquele marzão de discrepâncias com o mundo cotidiano e até mesmo com a vida da maioria das pessoas que circulam por lá. No meu terceiro ano de trabalho pelas salas e panelinhas do evento, confesso que testemunho algumas melhoras e mais profissionalismo, mas sempre saio de lá com a sensação de que "hã? o que, quando, como?".

Ainda bem que tem as assessorias que nos alimentam de normalidade, a maioria das meninas são bacanas, simples, recebem super-bem. Aí, a gente entra aqui e ali, atravessa o backstage com um baita segurança na porta pronto pra barrar "qualquer um". Vem alguém e diz, cheio de si, "é imprensa" e o armário de 1,90m te deixa passar. Desgosto desse passaporte, linguagem de pequeno poder que não combina comigo nem com meu jeito de dizer "obrigada". A maioria não agradece, sai empurrando com o nariz de quem, de repente, cresceu 50 cm. Enfim.

O interessante é que a maioria das pessoas que fomenta essa postura pega dois ônibus pra chegar a bienal, anda por aqui com o cartão de crédito, reclama da petulância dos demais, etc e tal. São outros jornalistas, fotógrafos, maquiadores (com raras exceções), cabeleireiros, e até os porteiros!

Gente, se vocês vissem as meninas que desfilam... 99% são e continuarão sendo desconhecidas, são todas iguais, a mesma palidez, o corpo altérrimo e desnutrido, a boca muda. Nenhuma delas fala, nem sorri, como lembrou minha companheira Lívia.

Os simpáticos, por incrível que pareça, são os donos de grife e os profissionais "de verdade" (com o perdão da palavra), como os que representam as grandes marcas, como a Natura, patrocinadora do babado. Esses pensam como empresários, sabem conversar e conhecem o poder da gentileza: nunca se sabe o dia de amanhã.

Eu sorri para a turma do "não pode sair, senão não entra de novo" (e a gente sempre entrava porque alguém nos levava de volta). Sorri e achei triste porque eles formam o grupo que não entra em lugar algum, são destituídos do direito de ir e vir e se esbaldam quando podem privar alguém também.

O desfile da Fabia Bercsek começaria às 6 da tarde, mas saí antes. Amanhã tem show da Roberta Sá no lounge da Natura, convite feito, mas, sorry, too much pra essa que vos fala. A proposta é boa, mas aquele mundinho parece o universo paralelo dos meus sonhos, com todo respeito.

Adoro um rímel, uma coisinha básica na boca, calça jeans e sandália. Adoro não precisar fingir, nem me fantasiar, nem me ferir. Sou educada, continuarei sendo, lá ou onde quer que eu esteja. A educação não me diminui, nem rompe status algum de qualquer coisa, não preciso ser grosseira ou arrogante para conquistar respeito. As pessoas são iguais, isso não é balela, não, senhor. São singulares, mas são todas iguais.

A coisa boa é ver o talento dos nossos profissionais: criatividade e rapidez, batom nas pálpebras com os dedos para deformar, sofisticação e qualidade. Mas, isso é assunto para o portal... logo mais, acompanhem ;-)

Um beijo!


PS: Mulher ao Espelho, de Picasso.


E aí, princeso...?


M-u-i-t-o b-o-a a última propaganda da Kaiser... "ê lá em casa"...


Uma graça também a da Havaianas: "nossa, que formosura, imagine isso na minha humilde residência..."



Pérolas:

Existem mulheres que se conquista com carinho e outras com um sorriso, mas para todas as outras existe Master Card!
¨
Se quer conhecer uma mulher case-se. Se quer conhecer profundamente, separe-se.

Mulher é igual a Tsunami: quando vem é aquela onda. Quando vai leva casa, carro, dinheiro... O cachorro não, por favor benzinho...

Casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido.

Um homem prevenido vale por dois... Um homem rico, de carro e bem vestido, então... Deus me livre.

Nunca confie num homem que diz que em casa manda ele. Provavelmente ele também mente sobre outras coisas.

Ô lá em casa...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Really?



Outro dia, no final da nossa reunião semanal de Budismo aqui na minha casa, nossa amiga Ana soltou uma pérola. Ela leu em algum lugar que "a gente tem medo do que conhece".

Confesso que aquilo caiu pra mim com uma perplexidade gigante. É tão óbvio que me envergonhei de ter acreditado naquele lenga-lenga de que tememos o desconhecido. De fato, uma criança só deixa de se jogar depois que cai ou quando um adulto amedronta demais.

Fiquei pensando em quantos amores não foram sequer tentados pela lembrança da dor de uma separação. E em quantas novas oportunidades de trabalho foram desperdiçadas porque "e se não der certo? melhor segurar esse empreguinho mesmo do correr o risco de ficar desempregado". A idéia de passar pelo aperto de novo, com certeza, evitou até um salário melhor. Que dirá, então, o medo da solidão: na certa, ele já foi o mantenedor de muitas convivências indesejadas, mas só porque já foi companhia dolorosa em algum momento.

Eu adoro quando eu inverto o padrão, reconheço uma oportunidade de olhar novo e me assusto mais ainda quando percebo que a coisa é mais simples do que eu pensava. Ajuda saber que não é novo que intimida. O que limita é o pavor de repetir. Mas, aí, não é mais fácil lidar com algo que se conhece? A gente sabe exatamente onde escorrega... o resto é cuidar e prestar atenção. Ter disposição para criar, aprender, olhar. E ser feliz no caminho visto pela primeira vez. Que alegria ter outra possibilidade...

"Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé

Se por alguns segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
Ainda assim estarei pronto pra comemorar

Se eu me tornar menos faminto
E curioso
O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais mais coloridos

Se eu ousar catar
Na superfície de qualquer manhã
As palavras de um livro sem final
Sem final...

Valeu a pena
Sou pescador de ilusões "


(Rappa)

Olhos de Makiguti


O trecho abaixo pertence a um livro chamado Jinsei Chirigaku (Geografia da Vida Humana), escrito em 1903 pelo educador Tsunessaburo Makiguti, antes do mesmo converter-se ao Budismo e fundar a Soka Gakkai.

Reparem que, lá naquele então, ele já falava de uma coisa que virou moda apenas recentemente: a globalização e seu efeito dominó.

"Sou de um vilarejo pobre de Arahama, localizado ao norte do Japão. Um homem comum que passou a metade da vida procurando suprir as necessidades diárias e dar uma pequena contribuição ao mundo. Contudo, quando penso nas coisas ao meu redor, fico admirado com a variedade de lugares, de origem desses objetos que afetam minha vida.

Por exemplo, uma peça de lã que me envolve foi originalmente produzida na América do Sul ou na Austrália e processada por trabalhadores na Inglaterra com a utilização de carvão e ferro extraidos dali. Meus sapatos têm solas feitas do couro fabricado nos Estados Unidos, e o resto do calçado é de couro da Índia. Sobre minha escrivaninha, há uma lamparina a querosene; ela é silenciosa, embora o combustível em seu interior esteja dizendo: 'Jorro do sopé das montanhas do Cáucaso, ao longo da costa do Mar Cáspio, e cheguei aqui depois de ter viajado milhas e milhas de distância'. As lentes de meus óculos foram produzidas com a destreza e precisão dos alemães.

Iniciei este capítulo descrevendo essas coisas triviais porque é muito mais fácil para nós vermos a extensão de nossas inter-relações com o mundo ao nosso redor se reconhecermos a presença dessas relações até mesmo nos pequenos aspectos de nossa vida cotidiana. Imagine um homem que leva uma vida suntuosa, que monta um cavalo árabe, usa uma jaqueta de couro feita em Lyon, que se aquece com um casaco de pele da costa do Mar de Bering ou protege sua cabeça do sol com um chapéu do Panamá. Ele se revigora com especiarias das ilhas dos Mares do Sul, tem ouro do Transvaal, na África, e usa como adorno pedras preciosas do Amazonas. Essa pessoa, na realidade, depende de três tipos de clima (tropical, subtropical e frio) para manter a temperatura do corpo, do solo de cinco continentes distintos para alimentar-se, e de cinco diferentes raças para enriquecê-lo.

O ponto inicial e natural para compreender o mundo e nossa relação com ele é a comunidade (uma comunidade de pessoas, terra e cultura) que nos dá origem. É essa comunidade que nos concebe a própria vida e nos inicia no caminho para nos tornar as pessoas que somos. É ela que nos oferece a base como seres humanos, como seres culturais.

Nas interações com o meio ambiente, observo simetria, harmonia e provas da lei universal no meio da complexa diversidade da natureza. Inconscientemente, meu coração se enche de gratidão e respeito. Essa é a interação espiritual que descrevemos como religiosa."

Pois é, Geografia da Vida Humana foi escrito antes das duas grandes guerras mundiais. Por que mesmo o mundo esqueceu a harmonia e virou o caos?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

De volta pra casa



"Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade

Que bom,
Poder estar contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.

É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim"

(Dominguinhos - Nando Cordel)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Surpresa na barriga


Minha querida amiga Lucília me contou hoje que está grávida. Feliz da vida, coisa mais fofa desse mundo! E, ainda por cima, ficou feliz por mim: temos a mesma idade, se ela engravidou, eu também posso (olha a lógica da criatura... rs).

Mas, mais do que achar graça no raciocínio dela e no quão fartamente ela ficou feliz por essa possibilidade que se abre para "nós", eu fiquei emocionada por aquela barriga. Eu conheço a Lu há alguns anos, ela já namorava há um tempão, aí casou e queria muito esse filho. É tão mais feliz quando é assim.

Durante as minhas férias, eu conheci algumas histórias tristes de mulheres que vão cedendo seu corpo à vontade (ou descaso) de homens que, literalmente, deitam e rolam naquela vida. Conheci uma menina de 24 anos, mãe do segundo filho, de pai diferente do primeiro. Fiquei sabendo de outra que está no 3º, cada um de um pai. E uma delas ainda me perguntou porquê é que eu não tinha tido filhos ainda.

Eu sei que fui sincera demais na resposta, mas, francamente, com todo respeito ao meu passado, meu corpo não é balde de experiências, não. Filho, pra mim, é coisa séria DEMAIS para ser produzido por desejos aquém do puro amor de gerar uma vida. Além do mais, nunca tive, nem tenho, a menor vocação para criar um filho sozinha.

Vivi um casamento que poderia ter durado a vida toda se não fosse minha busca por uma vida de amor de verdade. Só amizade, só fraternidade, comodismo ou medo de encarar a vida não me mantém num relacionamento. O que eu preciso mesmo é de amor, paixão, amizade, carinho, tudo junto. Ter um filho, só mesmo do homem por quem eu carrego tudo isso. Não que eu não tenha tido gente importante na vida, só acho que no fundo eu sabia que "ele" não havia chegado.

Por isso, eu fico abismada quando vejo mulheres tendo filhos de homens que dizem não admirar, nem respeitar, que dirá amar! Essas mulheres tentam garantir o vínculo, acham que um filho faz tudo mudar, ou, simplesmente, não respeitam o único lugar verdadeiramente delas: o corpo, templo por onde se respira, anda, sente, vive. Não merecia mais cuidado?

É assim que histórias como as da minha querida Lu aquecem meu coração. Ainda tem muita gente que se cuida e planeja, ama e deseja procriar, escolhe a hora "certa" (ok, sobre "hora certa" a gente fala depois). O mais bonito de tudo é ver os olhos dela, brilhantes, radiando existência, feliz feliz. Como escreveu Maitê, ela anda "com futuro no olhar".

Parabéns, minha querida, quero ver esse barrigão crescendo e você virando coruja :)

"Quem nesse mundo faz o que há para durar
Pura semente, dura o futuro amor
Eu sou a chuva prá você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou
...
O que você está dizendo?
O que você está fazendo?
Um relicário imenso desse amor."

(Nando Reis)


sábado, 10 de janeiro de 2009

Esperança



A rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio é adiar tudo.
É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila de espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

(Cassiano Ricardo - blogueiro)



sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Amar a dois


"O amor durável é o que tem sempre as forças dos dois seres em equilíbrio", escreveu Balzac. A frase inteira, uma referência às mulheres que amam demais e são tiranizadas por isso, termina assim, com essa deliciosa verdade.

A gente cresce com o mito de que, num relacionamento, um dos dois sempre ama mais. E torce para amar muito e ser amado mais ainda. O que acontece, então, é uma gangorra sofrida e desperdiçada de entrega e retraimento, ora de um, ora de outro.

Não sei da onde tiramos que amar é sofrer. Quem leu Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, sabe do que eu estou falando. Como foi sofrido e eterno o amor de Ricardito pela sua Odília! E ela, coitada, ora se deixando amar por ele, ora amargurada por outro, num vai-e-vem desonesto com o coração solitário, morreu sem nunca ter sido feliz de fato.

Woody Allen, em Vicky Cristina, traz outra reflexão: é possível um amor ser intenso sem ser maldito? Tranquilidade no amor é sinônimo de fadiga? Pois é: por medo de um e de outro, Ricarditos, Marcellas e Odílias vão levando... sem chegar nunca a lugar algum.

Eu pensei sobre isso especialmente hoje, enquanto voltava pra casa, o vento do passeio de moto cantando 3 anos de combinação, dessas que faz possível o amor durável de Balzac.

Acho que parte da conta das forças equilibradas é não contar migalhas, nem subtrair do outro em julgamento, nem se preocupar em esconder sentimento pra garantir o jogo do 0 a 0. Além do muito que a gente aprende, tem também o riso e a conversa que garantem a intimidade. Ninguém se entrega quando tudo é só dor: alegria compartilhada traz força aos momentos de tristeza.

O "amor que não se mede", do Nando Reis, é amor inteiro, não é angustiante porque intenso, nem morno porque tranquilo. Amor que é amor acalma a alma, mas desperta os sentidos.
¨
"Meu namorado

Minha morada é onde for morar você

Vejo meu bem com seus olhos

E é com meus olhos

Que o meu bem me vê."

(Chico Buarque)


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Paz possível


"A paz mundial não deve ser tarefa de um único homem, de um único partido ou de uma única nação. (...) Deve ser uma paz sustentada por esforços cooperados do mundo inteiro." Essa frase é de Franklin Roosevelt, ex-presidente americano e um dos fundadores das Nações Unidas.

"Esforços cooperados do mundo inteiro", claro, todo mundo sabe, todo mundo repete. "Uma andorinha só não faz verão", "pequenas gotas formam o oceano", "a união faz a força", "todo o bocadinho acrescenta, disse o rato. E fez xixi no mar". Frases como essas estão na boca do povo quando o assunto é um mundo melhor. Mas, sabe o incrível? No dia-a-dia, a gente vive esquecido disso.

Eu fiquei impressionadíssima quando ouvi, outro dia, de uma pessoa que admiro muito, que fazer trabalho voluntário é coisa para aliviar a consciência. Oras, mas se 1 + 1 não se juntarem, como alcancarão o 3? E não é o trabalho silencioso de melhorar a vida de algumas pessoas, mesmo que na vizinhança, ou ainda no local de trabalho, dentro de casa, na rua, que transforma aos poucos todo o contexto social?

Não é, no mínimo, incoerente achar que a paz no mundo será conquistada quando ele, por si e de uma vez só, resolver trocar de lado? Ou quando o partido X for eleito? Ou quando todos, de repente, colocarem a mão na consciência e, magicamente, pessoas não mais morrerão de fome, nem haverá mais guerras de espécie alguma, preconceitos desaparecerão?

Muito estranho imaginar que a expectativa de quase 7 bilhões de pessoas no planeta é de "muita paz, amor e saúde", mas que, a cada dia, poucos de fato se propõem a construir 365 dias dedicados a esse propósito. Para isso, nem é preciso engajar-se em projetos sociais, nem levar alimentos para a África, ou plantar-se em plena Av. Paulista para recolher assinaturas contra a morte das baleias.

"Se você quer manter limpa a sua cidade, comece varrendo diante de sua casa", já dizia o provérbio chinês. E é isso mesmo, é por aí que a coisa começa: mudando de dentro para fora, cumprimentando o vizinho com mais cortesia, votando direito, ajudando o bairro, reciclando o lixo, educando. A gente, todos os dias, arruma os cabelos: por que não o coração? Não é esse o verdadeiro soft power?

Portanto, eu vou continuar fazendo o meu "bocadinho" e que todo mundo que faz continue fazendo. Bocadinhos assim são mais efetivos do que repetir frases como aquelas do começo desse post, mas, no fundo, desacreditar no esforço conjunto. Franklin Roosevelt disse também: "é preciso coragem para cumprir com nossas responsabilidades num mundo reconhecidamente imperfeito". Não sei se ele será perfeito um dia. Nem sei se perfeição existe. Mas, mais do sonho, o meu desejo é que esse nosso mundo seja, pelo menos, equilibrado.

"Desenvolver força, coragem e paz interior demanda tempo. Não espere resultados rápidos e imediatos, sob o pretexto de que decidiu mudar. Cada ação que você executa permite que essa decisão se torne efetiva dentro de seu coração." (Dalai Lama)

domingo, 4 de janeiro de 2009

De onde vim, para onde vou



Casa igual a nossa não há. Pode faltar uma coisa aqui e outra acolá, poderia bater mais sol pela manhã, será que dá pra trocar a fiação?, o quintal é pequeno, etc, etc. Mas, ainda assim, estar nesse espaço que tem a nossa cara e jeito é a maior sensação de segurança que se pode ter. Essa é a força do lar.

No meu caso, então, nem me fale: caseira de doer, adoro essas paredes, a conta da luz, as mesas, os quadros, minhas gavetas, o quarto. Aqui tem memória para onde quer que eu olhe. Tudo respira por mim, e as cores gritam perguntando por onde andei.

Por isso é que eu estranho a sensação que trago desde ontem: saudade de outro e distante lar. Passei dias na casa da minha mãe e não é que eu nunca tenha estado lá antes, não. Mas, é a primeira vez que volto como se eu deixasse uma parte minha num lugar que também é meu. Saudade do amor de mãe não preciso dizer como é, nem conseguiria, eu sei que vocês conhecem a sensação. Palavra alguma revelaria o acalanto de ter alguém que cuida da gente como quem cuida de uma criança. Mãe demora a perceber que o filho cresceu (ainda bem)!
¨
Foram dias de suquinho, bolo, beiju, refeições na varanda, café fresquinho. Sem falar nas conversas que nos fazia perder a hora (mas, as horas não eram para ser perdidas mesmo?), nem de como eu assisti a 3 capítulos da novela (companhia é companhia, até na Favorita). Vi fotos que vi a vida toda e, dessa vez, tomei o cuidado de digitalizá-las para não correr o risco de perdê-las. Viagem maior de que essa, só a mesma que fiz há 10 meses para esse mesmo canto.

Engraçado que, mesmo com algumas coisas aparentemente iguais, muito eu senti que mudou. Havia uma tênue transformação naqueles ventos, e eu ando soprando ainda por aqui, assobiando com o peito cheio de saudade, cheio, cheio...

Amanhã, 2009 começa "de verdade". Volta o trabalho, as horas apertadas, o barulho do vizinho, as tardes estreitadas entre uma escolha e outra. A semana será de intenso planejamento, caminho único para acertar o alvo dos meus desejos desse ano. Entre eles, mais férias no meu segundo lar, que me deixa tonta, zonza, como quem delira na beira do cais. Ser feliz é ter para onde voltar.

"Você me deixa tonto, zonzo
Quase como louco de encantamento
Eu desanoiteço no seu todo de mulher
No verde dos seus olhos de menina
Seu olhar de querubina faz o sol me esquentar
E quando é noite a lua nina Teresina
Que desatina até o sol raiar

De manhã, eu olho pra Timom
E sinto o gosto bom do Parnaíba desaguar
Então eu choro transbordantemente
Que alegre enchente no meu coração
São dois rios lindos com as águas claras
Desse Parnaíba que não volta mais
Apenas olho minha Teresina
Como quem delira na beira do cais

Ai, troca, quem troca destroca
Minha Teresina não troco jamais
No troca-troca, quem troca destroca
Minha Teresina não troco jamais"

(Aurélio de Mello / José Rodrigues)