terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sonhos (im)possíveis?

Já reparou como nunca imaginamos que algo extraordinário acontecerá em nossas vidas, nem de ruim, nem de bom demais? Nunca nenhum acidente grave (por isso somos tão descuidados em alguns detalhes: filho pequeno no banco da frente do carro, cigarro, excesso de comida, falta de gentileza, e por aí vai), nem sorte grande na loteria. A tragédia só acontece com o vizinho. E é dele a grama mais verde também.

É assim porque preferimos mais do mesmo a arriscar um vendaval que só os deuses sabem onde vai dar. Administrar o nosso feijão-com-arroz é mais seguro; as coisas já estão, male-male, no controle. Nos condicionamos a ficar cada vez melhores em evitar que a vida nos surpreenda: fazemos exatamente as mesmas coisas todos os dias, mantemos os mesmo hábitos, os mesmo gestos, a mesma postura, para garantir os mesmos resultados, mesmo que seja para lamentar depois (vai entender).

Outro dia, eu me perguntei o por quê do povo sonhar tanto acordado como se o sonho fosse coisa do além. Se repararmos bem, a maioria dos sonhos é completamente possível. Por que cargas d'água, consideramos nossos desejos algo de outro mundo, dignos somente de outra pessoa?

Nossos desejos nascem daquilo que não temos, claro, e podem variar entre uma família feliz e um transplante de coração, ou uma casa na praia, um casamento idealizado, um prêmio Nobel. E aí??? O que torna todas essas coisas impossíveis? Falta de coragem? Preguiça?

Engraçado como poucas vezes nos damos conta de que arriscamos tantas realizações em nome das coisas mais banais da vida. Trocamos aquela vontadezinha (talvez o problema esteja no diminutivo) de mais sucesso (que exige empenho) pela novela das 8. Invejamos aquele corpo magro e saudável, mas nos afogamos na pizza com Coca-cola (nada contra, eu adoro!). Todos os dias! E numa passividade que dá vergonha.

"A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!" (Hélio Pellegrino)

Haja mesmo porque a coisa não é nada fácil. Eu que o diga. Meu maior defeito é a tendência à inércia (falo de cadeira mesmo, eu sou taurina). Entretanto, como nem tudo está perdido nessa vida, existe um treino capaz de levantar uma poeira nova. O diacho é que não tem receita pronta, sorry. Se eu puder dar um dica, uma única que seja, aqui vai ela: incomode-se. O incômodo, se alimentado com movimento, gera mudança. Mas, olha lá, heim? Não é para incomodar os outros ou, simplesmente, lamentar as mazelas sentado na poltrona.

Eu vou arriscar agora uma petulância e questionar Nietzche, quando ele diz: "a vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade".

Será?

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Quando uma estrela apaga

- Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim, Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... Serão, todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...Ele riu outra vez.

- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

- Pois é ele o meu presente... será como a água...

- Que queres dizer?

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

- Que queres dizer?

- Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!E ele riu mais uma vez.- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego...E riu de novo.

- Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...E riu de novo, mais uma vez. Depois, ficou sério:- Esta noite... tu sabes... não venhas.

- Eu não te deixarei.

- Eu parecerei sofrer... eu parecerei morrer. É assim. Não venhas ver. Não vale a pena...

- Eu não te deixarei.

Mas ele estava preocupado.

- Eu digo isto... também por causa da serpente. É preciso que não te morda. As serpentes são más. Podem morder por gosto...

- Eu não te deixarei.

Mas uma coisa o tranqüilizou:

- Elas não têm veneno, é verdade, para uma segunda mordida...

Essa noite, não o vi pôr-se a caminho. Evadiu-se sem rumor. Quando consegui apanhá-lo, caminhava decidido, a passo rápido. Disse-me apenas:

- Ah! estás aqui...E ele me tomou pela mão. Mas afligiu-se ainda:- Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei morto e não será verdade...

Eu me calava.

- Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso carregar este corpo. É muito pesado.

Eu me calava.

- Mas será como uma velha casca abandonada. Uma casca de árvore não é triste...

Eu me calava. Perdeu um pouco de coragem. Mas fez ainda um esforço:

- Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber...

Eu me calava.

- Será tão divertido! Tu terás quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos milhões de fontes...

E ele se calou também, porque estava chorando...

- É aqui. Deixa-me dar um passo sozinho.

E sentou-se, porque tinha medo. Disse ainda:

- Tu sabes... minha flor... eu sou responsável por ela! Ela é tão frágil! Tão ingênua! Tem quatro espinhos de nada para defendê-la do mundo...

Eu sentei-me também, pois não podia mais ficar de pé. Ele disse:

- Pronto... Acabou-se...

Hesitou ainda um pouco, depois ergueu-se. Deu um passo. Eu... eu não podia mover-me. Houve apenas um clarão amarelo perto da sua perna. Permaneceu, por um instante, imóvel. Não gritou. Tombou devagarinho como uma árvore tomba. Nem fez sequer barulho, por causa da areia.

(Antoine de Saint-Exupéry)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sutileza canina

Esse é o Juca, meu cachorro. Juca ainda é filhote, mas, quando chegou, era bem menorzinho. Ele cresceu um bocado nesse pouco tempo de vida.

Dizem que Juca não pensa. Eu duvido. Ele pode não raciocinar como nós, mas, que tem neurônio funcionando e associando coisas, ah, isso ele tem. Juca é doce, tranquilo, só late quando tem gente por perto que ele não conhece e que está tomando a minha atenção. Gente nova precisa chegar perto dele, se apresentar, fazer um cafuné. Aí, então, ele volta a sossegar.

Esse pequeno ser foi um presente de gente querida, gente que respeito e gosto muito. Ele chegou num domingo pela manhã, logo depois de um telefonema ("vamos levá-lo sem compromisso") e ficou. Foi um presente mesmo, esse danado.

Eu já tive cachorro, grandão, preto, um labrador puro (pode-se ler primário, também) e dominante que, bastava sair de casa para marcar território em tudo que era árvore e poste. Tão dominante que não houve um treinador que o ensinasse certas coisas. Era dito que ele só aprendia o que queria. Bicho temperamental mesmo.

O Juca é de porte médio, mestiço de Beagle com Basset, todo manchadinho, muito carinhoso e aprendeu muito rápido um mundo de coisas. É peralta, às vezes, mas, gente, eu fico dizendo até me convencer: "ele é só um bebê"! O mais interessante no Juca é o quanto ele não liga para certas coisas: ele passeia, curte, mas, não fica latindo para os demais exemplares da mesma espécie, não.

O labrador viveu anos comigo, mas acho que nunca tivemos afeição de verdade um pelo outro. Era uma relação de provedor e mascote, o máximo que fazíamos juntos era correr no Ibirapuera (ele me acompanhava por 1o, 12 km de 3 a 4 vezes por semana). Era um touro, pêlo brilhante, porte atlético, e conseguia me derrubar quando decidia pular em cima de mim. Pesado, 35 kg!

Já o Juquinha está aqui há muito pouco tempo, mas tenho por ele um carinho que até incomoda: dá culpa porque não brinco com ele o suficiente, culpa porque viajo e ele fica em terreno estranho, culpa quando não quero que ele me suje. Em compensação, dá uma doçura tamanha vê-lo dormindo todo enrolado, vê-lo brincando com a bolinha, com o pano de dormir, roendo um ossinho, pulando para fazer chamego.

Aprendo a cuidar dele como nunca cuidei do labrador, e, todos os dias, com aquela carinha de quem pergunta, ele me ensina alguma coisa. Paciência, principalmente! Hoje, em especial, Juca me ensinou a sair do meu círculo vicioso, aquele em que, vez por outra, a gente repete, repete, repete... Incrível isso, não? Mas, animais nos ensinam mesmo.

Eu estava prestes a passar pela mesma parte da roda, patinando, mas também me debatendo para sair de lá. É engraçado como a atenção a que nos dispomos na necessidade procura meios para nos ajudar, isso é bem o que eu ouvi hoje, "o universo conspira", contribui, inspira, enfim. Pois não é que esse bichinho me disse, assim quietinho, só com olhar: "tenha paciência, caminhos fáceis demais são abortivos"?

Vocês devem estar pensando que eu pirei, ou que exagero, eu sei :) Mas, não tem nada, não, porque a verdade é como diz meu querido Cummings, "sim, o mundo é provavelmente feito de rosas e alô". Sim, senhor, de sutilezas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dodói

Outro dia, ouvi um comentário que achei engraçado. Uma pessoa dizia que a molecada entra cada vez mais cedo na adolescência, mas que demora muito pra sair dela. Dizia que tem gente com 40 anos que ainda é adolescente.

Eu ri, mas, sabe o que? É verdade. Semana passada, passei por dois eventos, com conhecidos diferentes, que me fizeram constatar, infelizmente, que algumas pessoas não crescem. São ótimas, bacanas, simpáticas, até que alguma coisa as contraria. Aí, elas fazem bico, birra, se sentem ofendidas, magoadas. E olha que foram contrariadas porque a vida é assim mesmo, não foi alguém, que, por pura maldade, quis desiludi-las.

É uma chatice isso porque, querendo ou não, a gente fica com aquela cara de pastel, se afasta um pouco, ainda fica abismada com certas tolices de quem deveria ter crescido.

Agora, pergunto eu: se um homem ou uma mulher não consegue aceitar um contratempo, é justo que se queixem da vida? Não é a vida delas um reflexo da maneira como elas se comportam com os outros?

Falta aceitação, flexibilidade, empatia, amizade. Traduzindo: falta amor na vida, justo e simples. É isso. Gente que ama, que se sabe amada, é mais tranquila, relaxada, releva no limite de cada um, troca de lugar. Compreende.

Fico pensando que aquele amontoado de marmanjos no poder, lá e cá, passa pelas mesmas aborrecências, só que num grau de poder absurdo e, ao invés de careta, detona um bomba quando sente o orgulho ferido.

Como diz Daisaku Ikeda, "só o diálogo constrói pontes". Parece simples e fácil, mas não é. Requer disposição, atenção, dedicação. Principalmente, percepção de si mesmo. E sendo a reação em cadeia, a gente precisa começar de algum lugar. Que tal aqui, onde e com quem estamos? Com um pouco mais de paciência, desacelerando um tantinho só, é possível ter a alma mais leve com o outro. Não seria daí que nasce a amizade?

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo

Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

(Vinícius de Moraes)

O que me pinta de alegria


... quando o sol acha que já é verão e aparece no final de semana inteiro;

música boa para cozinhar;

ver pai e filho saindo lindos de bermuda para passear;

acordar sem despertador;

espreguiçar por 10 minutos antes de levantar;

dar de cara com meu jardim (de quintal) e constatar que ele é lindo porque eu cuido dele;

bons encontros (de qualquer espécie: pessoal, profissional, casual, virtual, tudo mais);

olhar o céu e admirar tanta perfeição;

ter tempo para encher o pulmão e namorar a vida;

emocionar-me com cheiro de comida no fogão;

rir da propaganda de chinelos;

óbvio inteligente;

embobecer e não ter vergonha de achar graça nas bobagens;

comer um pacote de Doritos;

caipirinha do Veloso com bolinho de camarão;

ouvir meus sobrinhos dizer que me amam;

saber que sou amiga da minha mãe;

saber que eu gosto de mim de verdade;

admitir que não quero algumas coisas que não me interessam mesmo (perder tempo pra quê???);

só estar com quem eu quero, seja onde for;

não incluir nenhum comportamento politiqueiro na minha vida;

dizer exatamente o que eu penso (mesmo com cuidado para não magoar);

correr, pedalar, pular, dançar, movimentar para garantir a saúde;

orgias gastronômicas;

v-i-n-h-o, v-i-n-h-o, v-i-n-h-o;

soja e linhaça para viver mais e melhor;

trabalhar para conquistar;

os poucos amigos;

os muitos queridos mesmo pouco conhecidos;

fotógrafo apaixonado;

discussões que constroem;

aprender amorosamente;

tem coisa demais!

Uma delícia ainda preciso mencionar, pois sem ela a vida perde muito sabor: pertencer por amor. Amar e pertencer enchem de sentido o coração...

"Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher

Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser"

(Vinícius e Jobim)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Avestruz ou coruja?

Pausa para o almoço, enquanto os pensamentos continuam. É estranho pensar que esse é o único movimento que não podemos interromper: a correnteza mental é inesgotável, e acho até óbvio, já que faz parte dessa leva de coisas não-físicas que a gente não sabe de onde vem. E que, com sorte, cuidado e muita torcida, permanecerá pelo resto da vida.

Pois bem, desde ontem tenho pensado na realidade, em como não esquecê-la jamais. É muito fácil permitir que uma alegria nos eleve para além do nosso chão, e uma tristeza para aquém da verdade, pois é disso que precisamos muitas vezes: fugir. Mas, permanecer nesse estágio cegamente, considerando que aquilo transforma ou distorce os fatos, é por demais perigoso. O pouso pode virar uma queda, ou o retorno um caminho penoso demais. É claro que, como tudo nessa vida, viver no equilíbrio entre o real e a fantasia é puro exercício diário.

Com tanta notícia ruim na mídia, tanta violência e catástrofes "naturais", nós acabamos por considerar a vida real uma notícia triste, sem risada nem sabor. Mas, a vida real é o lugar onde tudo acontece de verdade, a dor e a alegria, o crescimento e a maturidade. Em qualquer outro lugar o que permanece é a desesperança de saber que tudo o que se deseja fica parado ali, como uma pintura bonita.

Realidade é vida, aplicada e sentida em cada pensamento e atitude. E vida é lógica pura. Nunca, jamais, uma realidade vai ser outra coisa de uma hora para outra simplesmente porque nisso não há lógica. Nenhuma! Acreditar nisso é viver a ilusão do milagre, aquele em que, sem a menor dedicação e esforço, uma situação vira do avesso. Aliás, uma pergunta: sem o aprendizado da conquista, em quais condições viveríamos uma realidade transfigurada de repente? Teríamos nós o paladar refinado para tão novo sabor ou comeríamos tamanho banquete como se mastiga uma ração?

Conhecer a realidade, saber que uma situação pode ser degustada, melhorada e vencida é a maior satisfação de todos os dias. É enxergar-se em expansão mesmo, só que inteiro, firme, forte. Não existe vitória na ilusão, seja ela boa ou não (tem gente que se ilude também achando que a vida é uma porcaria - tem louco pra tudo). Viver feliz e sorridente num mundo de fantasia é tão raso e frágil que dá aquela sensação de estar passando, sempre, olhando sem ver nada, falando e gesticulando sem finalidade, andando por aí como uma carroça vazia: só faz barulho, carregar alguma coisa que é bom, nada.

Como disse Nietzche, "é só dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade". Ser feliz é uma decisão e uma escolha que pode ser feita a qualquer momento, nesse tempo real. Acordado, desperto.

Quando der vontade de sonhar, chame alguém. Disseram também, certa vez, que sozinho é sonho, a dois é realidade.

Momento cultural:

As corujas possuem os ouvidos desenvolvidos, bastante aguçados e olhos grandes e fixos. As aves de ordem strigiformes estão divididas em duas famílias e 126 espécies das quais 18 são encontradas no Brasil.

As corujas levam fama de agourentas, pois eram consideradas pássaros de bruxas, mas os gregos consideravam a coruja uma ave de extrema sabedoria.

Sua visão, ao contrário do que se pensa, é melhor do que o das outras aves, sua pupila se dilata para enxergar melhor e nenhum animal terrestre tem ouvidos mais aguçados (mesmo sem orelhas visíveis elas conseguem ouvir a dezenas de metros de distância).

Quando percebe o perigo é capaz de girar a cabeça a 180º e esticar o pescoço para cima. É uma ave bastante concentrada. (fonte: Brasil Escola)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O ronco da lua

É bom tarde agora e eu cantava Vinícius enquanto desligava o computador e sonhava com meu ourives. Pretendia escrever o mundo, mas o sono chegou bravíssimo.

Canta, Vinícius:

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Com o coração confortado e feliz, garanto uma montanha de palavras para amanhã. Agora é hora de deitar nos braços de Morfeu.

Plagiando minha amiga Gabi, aqui vai um momento cultural:

Morfeu (palavra grega cujo significado é "aquele que forma, que molda") é o deus grego dos sonhos.
Morfeu tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiroi, são personificações de sonhos, sendo eles Icelus, Phobetor, e Phantasos. Morfeu foi mencionado no Metamorphoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores.
A droga morfina tem seu nome derivado de Morfeu, visto que ela propicia ao usuário sonolência e efeitos análogos aos sonhos.
Quando uma pessoa vai deitar-se a outra diz: vá para os braços de Morfeu, significa dormir bem.
(fonte: Wikipédia)

domingo, 10 de agosto de 2008

De Vinícius a Cummings


Depois dizem que mulher é vaidosa! Vaidosa nada, nós temos mesmo é um bom senso danado daquilo que é belo. Agora há pouco, eu revia algumas fotos e me deparei com uma que me deixou passada.

Todo mundo sabe o que aconteceu com meus cabelos há um ano, não é? Pois bem, só vendo as fotos tiradas antes daquele acidente é que dá pra ter uma noção do estrago. E que estrago! Dá desgosto até. Gastrite também. Isso sem falar na vontade de gritar. Olha, se não fosse a ajuda de tantos amigos, eu ainda estaria meio careca, infeliz mesmo! Obrigada a todos, by the way.

Mas, enfim, mulher (normal) quando cisma com alguma coisa está certa. Quando reclama da barriga, ela sabe do que está falando, gente. Só ela enxerga, mas ela sabe! Pode ser um botãozinho perto do umbigo, mas se incomoda... ela reclama e com toda razão. Não adianta tentar compará-la com alguém mais gordo só para provar que ela é lunática. A vida é dela, o corpo é aquele e quem lida com ele é ela. Portanto, melhor se por no lugar, lembrando das suas próprias paranóias.

Quando uma mulher se queixar das coxas, nem perca seu tempo em rebater: só ela sabe como é quando fica nua na frente do espelho. Ouviu uma reclamação sobre os seios pequenos (ou grandes), tríceps gelatinosos, orelha de abano, quadris largos? Melhor mudar de assunto. Nem dá pra discorrer sobre a importância da atividade física (quando é o caso), mudança nos hábitos alimentares, etc. Eu mesma tento, às vezes, bancar a conselheira natureba, mas, que mulher quer correr 10 km, 3 vezes por semana, para viver melhor, mais saudável, mais bonita? E trocar a coxinha por uma fatia de pão integral? Imagine, bobagem... Bom, mas, isso é outro assunto, melhor ficar, por ora, só com o visual.

O fato é que jamais uma insatisfação deve ser subestimada, seja ela física, emocional, social, whatever. E, pelasantapaciênciadobatman, que horror quando não tem solução! Nem cirúrgica??? Aí, é o fim da picada mesmo. O negócio é não esperar a moda virar a seu favor (a mídia pode não voltar a gostar do estilo boteriano nem esquecer as lindas madeixas da Gisele) e criar aquilo que a gente fala tanto: auto-estima poderosa. Só isso dá jeito. E, como diria E. E. Cummings , "torna grande cada diminutivo, faz o óbvio estranho, até que nós mesmos viremos mundos (magicamente)".

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um brinde ao final de semana

“Amada, o vinho é de boa vindima: bebe-o sem demora, goza da hora propícia. Mais tarde, dizes tu… Mas quem pode contar com outra Primavera?” (Hafez)

Pois é, ninguém pode. O jeito, então, é beber o tal vinho enquanto há. E, claro... chamar um táxi depois.

Especialmente hoje, estou bem ao estilo dos habitantes de Lacônia, portanto, um brinde ao final de semana e boas taças para todos nós... mas, antes, algumas perguntas de Neruda:

Não seria a vida um peixe preparado para ser pássaro?

Pois não foi onde me perderam que eu me dei, enfim, por achado?

Que há de pesar mais na cintura:padecimentos ou memórias?

E uma pergunta dos Titãs: você tem fome de quê?

Então me diga: o seu vinho de hoje será acompanhado daquilo que te abre o apetite?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

The sun's in my heart


Cai o mundo em São Paulo agora. Chove de fazer barulho. Uma pessoa amiga, então, me escreveu dizendo que a chuva a deixa "pra baixo", pensativa. Acho intrigante considerar a introspecção uma tristeza.

Eu própria me considerei, a vida toda, uma pessoa de natureza triste simplesmente porque conversava mais com os meus botões do que com qualquer pessoa. Havia sempre tanto a observar (porque eu queria entender) que nunca perdi muito tempo com as panelinhas ou algazarras típicas de adolescente. Eu lia demoradamente numa sala de biblioteca, vivia entre as músicas que ninguém gostava, assistia a filmes cheios de poesia, caminhava sozinha.

Foi um alívio quando, há bem pouco tempo, entendi que havia acumulado um universo interior muito querido e não uma montanha de tristezas. É íngreme o caminho para dentro da alma, mas, é o que se transforma em amor com o passar do tempo. Amor do bom, com força e garantia.

"O que é belo, o que é justo, santo e grande Amo em ti.
— Por tudo quanto sofro, por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo"

Falava Gonçalves Dias do amor pelo outro ou do amor-próprio? Não seria "por tudo quanto sofro, por quanto já sofri, por quanto ainda me resta de sofrer, por tudo eu te amo" a maior declaração de afeto por sua própria história, orgulho daquilo que se constrói, daquilo que se é e só você sabe?

Que molhe a chuva, que venha lavando o ar, que encha os rios e não inunde as casas. Um pouco de preguiça, sim, um tanto de trânsito também (pois é, nem tudo é perfeito), mas dá pra ser feliz e até aproveitar a noite de chuva para cantar e dançar... com muito prazer. E alegria.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O valor inestimável da continuidade

Abrir os olhos requer coragem, despreendimento, amor acima de tudo. Outro dia, comentei com amigos que eu precisava enxergar como buda. De alguma forma, de uma maneira invísivel, uma mudança acontecia e eu queria olhos (aqueles da alma) para percebê-la.

Foi um desejo tão profundo aquele meu, quase desesperado, que, horas depois, meus olhos enxergaram desarmadamente. É o desejo, profundo e certo da vida, que transforma. Nada mais. Não existe dor, nem castigo que resolva. É preciso desejar verdadeiramente.

Só que a coisa não pára por aí. A gente só sabe que amadurece quando entende que uma conquista não significa descanso. Significa mais. Mais atenção, mais cuidado, mais esforço para não cair nas armadilhas anteriores. Não que isso seja dificultoso ou sofrido. Ainda porque, mesmo sem esse "trabalho", vida alguma seria fácil.

Mas, falando nas armadilhas, acredito que depois de muito treino, elas enfraqueçam um bocado. Acho que a palavra certa nem é essa - armadilha. Parece mais com vício, daqueles culturais, sociais, criados como gotinhas pingando na cabeça da gente. Tem os outros vícios mais marcantes, aqueles advindos das experiências, muitas vezes nem nossas, mas refletidas em nós. Todo dia eu tento me desviciar um pouco para não contaminar ninguém.

Pois, então, eu continuo dizendo: um pedaço visto ou resolvido não é garantia de acertar 100%. É só um pedaço! Isso não quer dizer que não tenha sua importância. Sem esse pedaço, nada além dele pode ser conquistado. Ele é parte do caminho, é o primeiro minuto da hora inteira, aquela respiração que, seguida da outra, garante nossa vida por anos.

Falar, conversar, principalmente para alguém como eu, é uma vitória danada. Mas, fundamentalmente, as respostas mais importantes chegam sem palavra alguma, com a observação dos gestos, com a entrega (assunto para anos). Isso, entretanto, não quer dizer que há alguma coisa definitiva, sejam gestos ou palavras. Só a continuidade valida a verdade. É, de fato, o dia depois do outro que comprova nossos discursos e intenções. Se nós mudamos, todo o resto nos acompanha. Donde se conclui duas coisas: certas mudanças são lentas (porque mudamos lentamente) e toda mudança é possível, quando desejada.

domingo, 3 de agosto de 2008

O nascimento da gema

Estou aqui ouvindo o Café Filosófico, programa bacaninha e inteligente da TV Cultura. Só ouvindo porque jamais consigo fazer uma única coisa por vez, principalmente assistir TV. Me ocupo com outro vício enquanto isso (internet ou comida), páro de vez em quando para prestar atenção nisso ou naquilo, mas, ainda prefiro o silêncio mesmo.

Bom, mas voltando ao Café, o tema de hoje é o super-ego na infância, coisa básica! Dois psicanalistas, entre eles o Ivan Capelatto (de quem sou FÃ), discutem a ausência dos pais na educação dos filhos, a transferência dessa tarefa para a escola, o ônus disso tudo, sexualidade precoce, blá blá blá.

E, aí, eu me lembro da minha infância, bem agora que passei férias com irmão e sobrinhos. A volta de lembranças e sensação de ter perdido tanta oportunidade de viver mesmo com o outro, a família, e tudo mais, me cobram uma maturidade no então impossível de ter existido. Fico achando que podia ter tido mais tempo (!), e só nesses três parágrafos já citei os tais luxos que menciono ao lado: tempo e silêncio.

Mas, vamos voltar porque não quero fugir do assunto, não. Depois falamos dessas outras tantas importâncias. O babado agora é a infância, esse assuntinho tão recheado de "ses" e projetos de "como teria sido de eu soubesse como seria".

Eu me perguntei se mudaria tudo se tivesse visto meu futuro; se faria tudo igual, apesar das dores, sabendo que valeria a pena encontrar quem eu encontrei e as delícias de aprender, pedacinho por pedacinho, tudo o que aprendi e tudo que prezo tão amorosamente só por ter, de fato, vivido a minha vida como era preciso.

É assim que dá saudade, uma saudade danada das pessoas queridas que são minhas raízes, mãe, irmãos, sobrinhos (gente, são 4!) e também daquelas pessoas que não pude conhecer porque o mundão é grande e o povo se espalha. Tem, ainda, aquele galho da árvore genealógica que se perdeu, não por morte morrida, mas por morte do descuido. Essa é a pior morte: quando não faz tanta falta assim, ou, pelo menos, a gente acha que não.

Família/Infância! Chafurdar nesse terreno é choro na certa, mesmo que seja só por inveja daquele tempo em que aquele senhor super-simpático chamado Freud nem existia na nossa big-vidinha.

Se bem que, olhando essa foto, eu nem sei se dá tanta inveja assim. Freud e o tempo têm sido muito úteis ultimamente...